A Opinião de Paula Mota
Elena Sabe, de Claudia Piñeiro
2026-08-02Eu quero viver, sabe?, apesar deste corpo, apesar da minha filha morta, diz e chora, continuo o escolher viver, será soberba?, há algum tempo disseram-me que eu era soberba, não acredite nas pessoas que nos rotulam, Elena. Se não tivesse dado uma segunda oportunidade a Claudia Piñeiro, depois de ter largado “Uma Pequena Sorte” a meio por o achar manipulador, teria perdido um excelente livro.
Quando Rita aparece enforcada no campanário da igreja, Elena sabe que não pode ter sido suicídio, porque estava a chover e a sua filha nunca se aproximava do local nessas alturas, com receio dos relâmpagos. A Polícia, porém, dá o caso por encerrado, e é então que Elena decide investigar por conta própria, se não fosse um pormenor: sofre de doença de Parkinson e as pernas só lhe obedecem por um curto espaço de tempo, enquanto os medicamentos surtem efeito.
Elena sabe há algum tempo que já não é ela quem manda em algumas partes do seu corpo, os pés, por exemplo. É ele quem manda. Ou ela. E pergunta-se se o Parkinson deveria ser tratado como ele ou ela, porque, embora o nome próprio soe masculino, não deixa de ser uma doença, e uma doença é feminina. Tal como uma desgraça. Ou uma condenação. Então, decide que vai chamar-lhe Ela, porque, quando pensa nela, pensa "que puta de doença".
Começa assim este dia de Elena, dividido em A Manhã, Meio-Dia e A Tarde, os três capítulos de “Elena Sabe”, desde que toma o segundo comprimido do dia, que lhe permitirá arrastar os pés até ao comboio, apanhar um táxi e chegar a casa de Isabel, alguém que não vê há 20 anos mas que acredita que vai ajudá-la a investigar a morte da filha, porque, a seu ver, ela lhes deve um favor. É penoso acompanhar a protagonista nesta sua missão que parece decorrer a passo de caracol, ler o que sente uma mente intacta aprisionada num corpo incapaz de desempenhar os movimentos mais simples e as tarefas mais básicas, e compreender a revolta não só contra o sistema de saúde e as seguradoras, mas também contra a indignidade da sua situação.
Esta obra, no entanto, não é só sobre uma doença degenerativa e incapacitante, já que aborda outras questões como o papel dos cuidadores informais e a interrupção voluntária da gravidez, uma causa por que Claudia Piñeiro se debateu até muito recentemente, quando esta foi finalmente legalizada no seu país natal, a Argentina. É aqui que a autora mete corajosamente o dedo na ferida: apesar das convenções sociais e das condicionantes culturais, nem todas as mulheres se consideram capazes de ser mães quando engravidam e nem todas as filhas têm capacidade de assistir à degradação física e mental das suas mães. O que acontece a uma pessoa quando é obrigada a ter um filho que não deseja? O que acontece a uma pessoa quando se vê forçada a ser cuidadora de um progenitor cujo estado se agrava todos os dias? Elena sabe.
O que é uma pessoa quando não é o seu braço que não se move que não se move para vestir um casaco, nem a sua perna que não se eleva no ar disposta a dar um passo, nem o seu pescoço que não se ergue impedindo-a de andar de frente para o mundo? Se não se tem um rosto para enfrentar o mundo, o que se é? É o cérebro, que não pode comandar ninguém, mas continua a pensar? Ou é o próprio pensamento, algo que não se pode ver nem tocar fora desse órgão rugoso guardado dentro do crânio como um tesouro?
Elena Sabe, de Claudia Piñeiro, Editorial Presença, Abril de 2026, tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas
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