A Opinião de Paula Mota
Esse Lugar, de Berta Dávila
2026-09-07Quis escrever aqui que, se calhar, este livro não é para quem não sabe o que significam duas linhas coloridas num teste de gravidez, mas não é verdade. O que é verdade é que este livro não é para quem considera que duas linhas coloridas num teste de gravidez são um assunto menos substancial do que uma ferida de guerra, uma bandeira enterrada ou um avião de combate.
Dentro do tema mais geral da maternidade, “Esse Lugar” parece-me um livro de nicho que, apesar de não falar da mesma dor, está para mim na mesma categoria do que “Quem Sabe” de Pauline Delabroy-Allard, pelo grau de introspecção, pelas divagações, ainda que mais focadas no caso de Berta Dávila, mas especialmente pela vulnerabilidade. São obras que nos lembram como a vida é frágil: a de um feto, que pode não se desenvolver devido a uma interrupção voluntária ou involuntária da gravidez, e a de uma mãe que luta com a perda ou com o nascimento de um bebé e o quanto isso pode afectar a sua saúde mental.
Uma mãe recente é uma mulher de luto por essa outra mulher que deixa para trás. Esse luto nunca se acompanha, veste-se de festa, enfeita-se com vestidos novos e roupinha cheia de laços de cetim. Nenhuma outra mudança exige tanto em troca nem, sobretudo, tanto silêncio. […] Uma mãe recente é um lugar onde a controvérsia ou o arrependimento não cabem, porque tudo deve ser preenchido pela felicidade.
Depois de dois abortos espontâneos, a narradora tem um filho planeado e muito desejado. Nada, no entanto, a preparara para esse novo papel nem para o grau de alienação que parece sentir.
Perto do final do dia, deixava de ser menino para ser dever. Perto do final do dia, eu pensava na roupa para recolher, na louça para lavar, no frigorífico para encher e também na obrigação de cuidar dele, como se todas essas coisas fossem semelhantes – tarefas domésticas anotadas numa lista.
Assoberbada e sem o chamado instinto maternal, acaba por procurar ajuda, mas cinco anos depois, quando um teste de gravidez confirma as suas suspeitas, recusa-se a voltar a esse lugar. Berta Dávila faz um relato corajoso e incómodo sobre a vontade de ser mãe, a incapacidade de sê-lo e, em última instância, a recusa em sê-lo, escolhendo criteriosamente os termos usados para “afastar essas palavras da literatura, como se houvesse palavras próprias para a literatura e outras que não o são, e eu tivesse o dever de as expulsar”, tornando-o também por isso um romance excepcional, onde estiliza, de facto, o trivial sem nunca banalizar as decisões nem depreciar os sentimentos, mesmo que não sejam os convencionais.
Adormeci pouco depois, no silêncio da casa sem filho. Quando anoiteceu, apanhei uma meia que ele deixara no sofá, e também um cavalinho de borracha abandonado no chão […]. A casa sem filho é o lugar certo para uma arqueóloga, as marcas da sua atividade permanecem sempre, mesmo que ele não esteja.
“Esse Lugar” é um livro saturado pelo vínculo materno, personificado não só pela narradora com os seus temores e traumas, mas também pela avó, que é a mãe primordial, cujo estado mental e físico se degrada enquanto decorre a narrativa, levando-a a elaborar mentalmente uma lista de entes queridos: os vivos, os mortos, os desaparecidos e os que nunca chegaram a existir.
A minha avó é a primeira dessas peças de dominó, e elas cairão logo a seguir, um dia, num futuro que se aproxima. Na fiada de peças, eu ocupo uma posição intermédia, entre o meu filho e os meus pais. Se calhar era meu dever acrescentar mais, penso, para que o rasto dos meus entes queridos tombados se prolongue um pouco mais.
Esse Lugar, de Berta Dávila, Penguin, Fevereiro de 2026, tradução de Gonçalo Neves
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