A Opinião de Paula Mota
A Praça do Diamante
2025-05-15Em casa vivíamos sem palavras e as coisas que eu tinha dentro faziam-me medo porque não sabia se eram minhas…
Mercè Rodoreda (1908-1983) admirava Katherine Mansfield, Virginia Woolf, Marcel Proust e James Joyce, e isso é flagrante tanto no estilo modernista da escrita, como no uso de certos leitmotives e na urdidura da vida interior das personagens.
A minha mãe nunca me falara nos homens. Ela e o meu pai tinham passado inúmeros anos a discutir e muitos anos sem dizerem nada um ao outro. Passavam as tardes de domingo sentados na sala de jantar sem se falarem. Quando a minha mãe morreu, este viver sem palavras ainda se acentuou mais. E quando ao fim de alguns anos o meu pai voltou a casar, não havia, em minha casa, nada a que eu pudesse agarrar-me. Vivia como deve viver um gato: de um lado para o outro, com a cauda baixa, com a cauda levantada, agora são horas de ter fome, agora são horas de ter sono, com a diferença de que um gato não tem de trabalhar para viver.
“A Praça do Diamante” é um livro complexo e profundo de uma autora paradoxal que me suscitou várias dúvidas. Devemos levar as declarações de um escritor à letra ou ignorá-las interpretando uma obra a nosso bel-prazer? Vale mais o percurso ou o discurso de um escritor? Quando devemos parar de ler nas entrelinhas de um texto só para satisfazer a nossa tese? Apesar de ser considerada protofeminista por alguns, Mercè Rodoreda deixou a sua posição bem clara:
“Acho que o feminismo é como o sarampo. Na época das sufragistas tinha um sentido, mas na época atual, onde todos fazem o que quiserem, acho que o feminismo não tem sentido.”
E, no entanto, há tanto na sua vida e na leitura de “A Praça do Diamante” que contradiz este seu comentário. Com apenas 20 anos, Mercè casou com o seu tio, de quem teve um filho, tendo pouco depois retomado os estudos e começado a escrever com o intuito de se tornar autossuficiente. Em 1939, dois anos depois de se ter separado do marido, com a derrota dos republicanos, para os quais trabalhara como revisora de catalão, optou pelo exílio até 1972, tendo deixado o filho aos cuidados da avó.
Se se torna difícil ignorar a problemática do casamento e da maternidade na biografia desta mulher independente e determinada, não há como contornar a forma como estas duas instituições são postas em causa em “A Praça do Diamante”. Desde o primeiro encontro, quando Quimet decide unilateralmente que a protagonista será sua mulher, passando por cada interacção no namoro e atitude na vida de recém-casados, tudo aponta para a submissão de Natalia…
Disse-me que se queria ser sua mulher tinha de começar a achar bem tudo o que ele achasse bem. Fez-me um grande sermão sobre o homem e a mulher e os direitos de um e do outro e quando consegui interrompê-lo perguntei-lhe:
- E se não gostar mesmo nada de uma coisa?
- Tens de gostar, porque tu não percebes.
…que culmina na anulação da sua identidade ao passar a chamar-lhe Pombinha, pois Quimet desenvolve uma obsessão tal com estas aves que acaba por transformar o apartamento do casal num autêntico pombal onde, a dada altura, vivem 80 pombos. Visto que o dinheiro que o marido ganha como marceneiro e com o eventual negócio dos pombos não é o suficiente para o sustento do casal e dos seus dois filhos, Natalia vê-se obrigada a fazer limpezas por fora, até que o marido se junta aos milicianos durante a guerra civil espanhola e a situação se torna dramática.
Seria neste ponto da narrativa que teria de concordar com o desprezo de Rodoreda pelo feminismo. Natalia é uma personagem totalmente passiva, a quem a vontade alheia é imposta sem que ela lhe ofereça muita resistência, que anda à mercê dos homens; o primeiro que é a sua perdição e o segundo que é a sua salvação. Há, porém, alguma rebeldia fatalista nesta mulher que, acossada pela força das circunstâncias, tende a agir como um anjo da morte, tanto em relação aos pombos como aos próprios filhos.
Essa pulsão de morte acompanha a protagonista até ao final no que parece ser uma espiral de loucura, na qual ela entra e sai em passagens de cortar a respiração.
Virei-me de costas para a porta e descansei e havia muita escuridão dentro de mim. E virei-me outra vez de frente para a porta e com letras de imprensa escrevi Pombinha bem gravado e, sem saber como, comecei a andar e eram as paredes que me conduziam e não os passos e entrei na Praça de Diamante. […] E com os braços a tapar a cara para evitar não sei bem o quê, soltei um grito infernal. Um grito que devia haver muitos anos que trazia dentro de mim e com aquele grito, tão comprido que lhe tinha custado a passar-me pela garganta, saiu-me da boca um bocadinho de coisa, quase nada, que parecia uma bola de saliva… e aquele bocadinho de coisa, quase nada, que tinha vivido tanto tempo fechado dentro de mim, era a minha mocidade que fugia com um grito que não sabia muito bem o que significava… desamparo?
A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda, Dom Quixote, Fevereiro de 2025, tradução de Mercedes Balsemão
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