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Crítica Literária por Miguel Real


UM ÓPTIMO ROMANCE HISTÓRICO

2014-03-17

Com o seu primeiro romance, Os Dias da Febre, publicado em 2010, João Pedro Marques evidenciou-se como a grande revelação do romance histórico na segunda década do século XXI. O seu segundo romance, de 2012, Uma Fazenda em África, confirmou em absoluto o prestígio literário que ganhara com o romance anterior.

Com efeito, João Pedro Marques prolonga hoje o leque de autores de qualidade que reanimou o romance histórico na primeira década do século, como Paulo Moreiras, Pedro Almeida Vieira, João Paulo Oliveira e Costa, Deana Barroqueiro, Ana Cristina Silva, que, por sua vez, tinham continuado o pioneirismo de João Aguiar, Mário de Carvalho, Fernando Campos, Sérgio Luís de Carvalho e outros, autores publicados nas duas últimas décadas do século.

O Estranho Caso de Sebastião Moncada, terceiro romance de João Pedro Marques, ora publicado, leva o seu estilo de escrita à máxima potência, harmonizando, por um lado, ficção e fontes históricas em torno de personagens ora reais, ora inventadas, e, por outro, movimentos colectivos (cenas da guerra civil entre absolutistas e liberais) e destinos individuais. Será, porventura, esta harmonia a virtude maior de O Estranho Caso de Sebastião Moncada, a capacidade de cruzar com proporção o fazer-se da História com o fazer-se da existência singular. Nos seus livros, a informação histórica não abafa a vida do quotidiano, como esta também não ganha primazia face àquela.

Historiador de profissão, João Pedro Marques sabe extrair da História os acontecimentos centrais enquadradores do movimento das personagens, como se evidencia neste romance pela descrição da tomada e manutenção do Porto pelos liberais, bem como, posteriormente, pela vitória sobre as hostes de D. Miguel em Lisboa. Como habitualmente, o autor centra o enredo na existência de um triângulo amoroso (o juiz Etelvino de Vasconcelos, miguelista ou “corcunda”, e sua esposa Luísa, amante do tenente Mateus Vilaverde, liberal ou “malhado”) e na existência de um crime (o aparente suicídio de Sebastião Moncada e sua companheira numa estalagem de Sátiro da Costa na Foz do Porto).

Em função daquele enquadramento histórico e deste enredo ficcional, João Pedro Marques opera o levantamento, em cerca de 300 páginas, dos costumes e da vivência do quotidiano tanto das classes burguesas e senhoriais do Porto, de Lisboa e de Penafiel, evidenciando uma informação histórica copiosa e segura, bem como do exotismo da senhora Poleciana de Barcelos, uma balzaquiana da província portuguesa, como ainda da vivência dos rufias e dos malfeitores de estrada e de cidade. Do mesmo modo, narra-se com a mestria do pormenor o quotidiano martirizado das tropas dos dois lados da guerra.

Com romances centrados no século XIX, o autor parece ter tomado este século como o preferido das suas explorações ficcionais, desenhando-nos, assim, nas cerca de 1000 páginas já publicadas, um quadro geral do Oitocentos português, o primeiro romance pelos costumes e pela ciência, o segundo pelo desbravamento colonial e o terceiro pela irrupção da guerra civil.

Aguarda-se novo romance sobre o século XIX.

O Estranho Caso de Sebastião Moncada,

Porto Editora, 366 pp, 16,60 euros.

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