Raízes - Ana Cristina Silva
O resto da minha vida
2013-07-30 00:00:00Lisboa, 1570
Não sou daqueles que dizem que as suas acções não se lhes assemelham. Nada mais repugna ao espírito humano do que sabermos que fomos cobardes. Vi passar a minha mulher, Catarina, num auto-de-fé em Lisboa, sem tentar matar nenhum dos familiares do Santo Oficio que rodeavam o cortejo. Quedei-me imóvel no meio dos insultos e impropérios do povo, enquanto a fixava vestida com o seu sambenito. Nada fiz a não ser olhá-la longamente. Deixei que ela prosseguisse para o exílio como se Catarina fosse a configuração de um sonho e não a mulher que tanto amei. Às vezes, quero acreditar que entre mim e esse acto abominável existe um hiato indefinível. A prova é que até hoje sinto necessidade de o explicar, de encontrar atenuantes para mim mesmo, ainda que sabendo que essa acção será sempre uma das principais medidas da minha alma.
No dia do auto-de-fé, compareci no Rossio com a vaga fantasia de tentar resgatar Catarina. As vozes do povo, ao longo das ruas, rangiam num concerto de insultos ininterruptos. Os mais enraivecidos atiravam tamancos e uma saraivada de tomates. Das janelas, debruçadas dos peitoris, muitas mulheres guinchavam impropérios. Outras, bem poucas, tocadas pelo ar arrependido de certos penitentes, lacrimejavam e lamentavam a sua sorte. A procissão era uma serpente enorme que não cabia no Rossio. Fazia curvas e desfazia-se em contracurvas. Era como se Deus tivesse determinado que a voz dos Inquisidores seria mais poderosa do que a Sua própria voz, devendo ouvir-se em todos os becos. O sermão de D. António de Leão ressoava na praça como uma tempestade no coração das trevas. Apelava à salvação das almas, acusando os impenitentes de presunção insuportável e monstruoso orgulho.
Após a prédica do padre, os réus foram chamados um a um ao palanque para ouvirem as sentenças. Ninguém na audiência se podia queixar que os inquisidores encarregues dos processos não tinham sabido fundamentar as acusações, conduzindo com grande zelo os julgamentos. Identificaram todo o género de pecados, entre gente considerada impertinente, herética ou simplesmente ímpia: judeus convictos, todos encurvados por causa da tortura, cristãos que defendiam terem sido santos ou mesmo reencarnações de Jesus Cristo e ainda outros possuídos por visões de efeito demoníaco.
Findo o sermão, no meio da confusão, vislumbrei Catarina em cima do palanque. Parecia ter envelhecido dez anos. A minha boca amordaçou um grito. O coração saltou-me do peito como se tivesse saído de um duelo. Uma ternura monstruosa misturou-se com as minhas culpas, não sendo capaz de as distinguir da crueldade intencional dos inquisidores. Devia estar ali, ao lado dela. Precisava de salvar a minha mulher dos algozes. Comecei por empurrar a multidão. As pessoas eram nuvens fechadas em que o sol não penetrava nem nos pés nem na alma. Com muito esforço, consegui aproximar-me, mas as minhas tentativas eram paradas por aquela massa compacta de gente.
Catarina olhou-me lá do alto, com aqueles olhos que eram capazes de ver tudo. Ditavam-lhe nesse instante a sentença: blasfema, herética, temerária, condenada a oito anos de degredo no reino de Angola. Ela mal prestava atenção. Emanava dela uma vibração muito rápida como se houvesse no seu íntimo uma palavra que não parava de rodopiar em tremenda aflição. A gritaria do povo era intensa, mas o grito dela soou ainda mais alto: “Foge”!
Quis crer que a guarda real me viria prender. Deixei-me estar quedo e impassível, os olhos fixos nos de Catarina. Na altura não sabia que, para o resto da minha vida, iria ver aquela sombra trágica e familiar como um fantasma, mas guardava como um tesouro os seus suspiros e olhares. Ela juntou-se de novo à procissão que saía para o Terreiro do Paço, virando a cabeça na minha direcção. De súbito, aquela horda transformou-se num exército feroz capaz de mover os céus e a terra. O chão à minha volta parecia desmoronar-se. Corriam em bloco para alcançar o melhor lugar junto ao cadafalso. De modo incompreensível, fui arrastado para o lado oposto da praça.
A multidão era tão compacta que nunca mais me consegui aproximar. A procissão dera meia volta. Demorei horas até chegar mais perto. Entretanto, tinham sido açoitados aqueles que haviam sido condenados a essa sentença. Também duas mulheres morreram queimadas, a primeira garrotada por ter declarado que queria morrer na fé cristã e a outra no meio das labaredas por perseverança contumaz, mesmo na hora da morte. A esta última ouviu-se gritar durante meia hora. Quando me aproximei da sua fogueira, vi uma perna tisnada a erguer-se ao alto, as articulações lambidas pelas chamas como um ramo de árvore contorcido por um raio. Às duas mulheres juntara-se o corpo de um padre acusado de judaísmo, porém já morto. Trazido de Évora e encarcerado nos Estaus, havia conseguido mandar vir veneno através de amigos que tinha em Lisboa. Segundo o costume, incineram-no defunto já que não o podiam queimar vivo, ainda que com grande consternação pelos danos causados à sua alma eterna com esse acto tresloucado. Tomei conhecimento destes factos por um frade franciscano que, ao meu lado, falava pelos cotovelos, lamentando o contratempo ocorrido com este último condenado. Perguntei-lhe se os sentenciados ao degredo já tinham embarcado. Informou-me que àquela hora deviam estar a largar as amarras do barco que os transportava.
Corri. Naquele momento, já as cinzas dos cadáveres estavam a ser espalhadas de forma que nem no Juízo final se poderiam juntar. O povo caminhava em sentido contrário, dificultando o meu avanço em direcção ao porto. Todos regressavam a casa satisfeitos, levando na sola dos sapatos alguma fuligem das carnes carbonizadas, alguns pingos de sangue dos açoitados nos casacos e munidos de dogmas, admoestações e promessas para um ano inteiro. Caminhavam por isso contentes, tendo tido grande prazer nos insultos contra os hereges e com a alma refeita na fé.
A noite caía junto ao rio Tejo. As sombras penetravam nas águas, deixando ver a silhueta escura de uma caravela nos restos das chamas do sol. Lentamente, a luz descia no horizonte, envolvendo o barco na escuridão. Ajoelhei-me. O meu olhar estava em toda a parte até aos confins do mar, mas não era capaz de atravessar a noite. Sabia que nunca mais iria ver Catarina. Poucos eram aqueles que conseguiam sobreviver ao degredo. Com os olhos marejados de lágrimas e o coração apertado, decidi que a única maneira de honrar a minha mulher era salvar-me.
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