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Raízes - Constança de Portugal


Vinhetas

2018-08-29 14:54:45



Geografia humana
Gerações de cansaço, de trabalho pesado, escurecem aquela terra, que possui agora alma de oliveira, de carvalho, de videira e de nogueira, em torrões que lhes enrugam a pele e lhes moldam as mãos de fazedores e o corpo de servidores. Desde os vinhedos ao pomar, a terra exuma trabalho árduo, libertando como um vulcão dormente de suor pesado, o suco das frutas esmagadas. Homens e mulheres trabalham na terra há anos, terra que lhes pertence, em geografia e testamento humano, mas sem escritura ou registo de posse. A terra muda de mãos, ao toque dos brasões vindouros, mas mantém-se nas diversas famílias que a cultivam. Junto a um riacho numa raridade de limpidez, seixos brancos transparecem da água e pequenos peixes soltam-se entre a leve correnteza. As casas feitas de granito sobreposto abraçam as árvores e são já mais árvores do que casas. Pedra após pedra, a aldeia ergue-se, intensamente, e o olhar fundo das viúvas rasga as janelas fechadas.
 
O rebanho
Os irmãos mais velhos partem para a Escola e a casa respira. Partem de sacola de pano, calças rotas nos joelhos e remendos nos fundilhos, de boné enfiado e descalços entre os caminhos de abril. Mas, neles não há abril, partem cabisbaixos e sorumbáticos, remoendo a felicidade perdida entre a bola de trapos. No final da manhã, chegam para o almoço, mais cabisbaixos e sorumbáticos, ainda, com as palmas das mãos marcadas pela palmatória. Maria aguarda-os como governanta interina investida da autoridade dos seus 12 anos. A professora é impiedosa a partir da 4ª fila, a dos indigentes, dos numerosos, dos órfãos e dos filhos de pai incógnito. Teresita sente o sorriso perdido dos irmãos. Pede à mãe para nunca ir para a Escola, espera que lhe seja reconhecido o respeito de ovelha perdida. A mãe, assente em silêncio, enquanto tira mais um balde de água do poço e vigia o alinhamento da corda. A mãe assente com frequência, não por querer assentir, mas por não ter forças para dizer não. O balde de madeira verte e parte da água benze o caminho até à lareira. E por isso, Teresita não compreende, não compreende, a razão de poucos meses depois, ir de sacola de pano e saia puída, descalça entre os caminhos de abril. E jurou para si, nunca mais confiar na palavra dos homens. Jurou para si só confiar na palavra pousada nas árvores. Pois, a palavra assim pousada era fiel e aprumo.
 
Bosch
Teresita iça-se para a cama onde já dormem os cinco mais novos, rostos versus pernas, num puzzle de corpos, corpos obscenamente entrelaçados, nessa cama berçário, como uma pintura de Bosch. Consegue uma nesga de lençol e reza para que José não urine para o seu lado. Acorda, como sempre acorda, com as pernas geladas e com a tosse a tomar-lhe o corpo. O cheiro a urina já nem o sente, habituada a esse banho matutino. Ralha com José que de nada se lembra e lhe confessa a sua inocência. E como é sonâmbulo, nada mais é dito. Também ela teme atrair para si o Demónio. Teresita tapa o rosto e sonha com uma cama branca, seca e sua, apesar de saber que terá que mudar os lençóis e as mantas, lavá-los, talvez; ou, pelo menos, pô-los ao sol na seteira do quarto para iludir o cheiro. Sonha sempre com uma cama branca, seca e sua, cansada de ser retratada numa pintura.

 

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