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Raízes - Joana Miranda


Mariquinhas, anda cá mariquinhas!

2010-05-04 00:00:00

"Mariquinhas, anda cá mariquinhas!"

Eu tinha asma. Com a idade, as crises de asma atenuaram-se, mas persistiram os fantasmas da infância a atordoar os meus dias.

Agora Vera apazigua-me os fantasmas. Não sei como, mas apazigua-os. Perto dela sinto uma paz que não tenho memória de ter sentido antes. A mesma paz que sentia quando tinha pesadelos ou não adormecia com medo do escuro, e a minha mãe me pegava ao colo e me cantava baladas para adormecer.

Eu tinha medo, muito medo do escuro, apesar de sermos quatro irmãos e de dormirmos todos no mesmo quarto, em beliches, todos muito enfileirados. Os meus irmãos não conseguiam adormecer com a luz acesa, e eu estava em minoria, e como o quarto era só um para todos, eu ficava muito quieto no meu colchão, quieto como uma estátua, mas a tremer (tremerão as estátuas?), na escuta silenciosa das respirações do meu irmão e das minhas duas irmãs, embalado pelo tic-tac dos ponteiros do relógio-despertor, que explodiria às seis horas da manhã. A essa hora, a minha mãe, que tinha estado a trabalhar nas encomendas de costura até de madrugada, levantar-se-ia num rompante e gerar-se-ia uma enorme confusão. Todos quereriam ser os primeiros a chegar à casa de banho, todos engoliriam o pão fresco com manteiga, que a minha mãe correra a comprar no padeiro na porta ao lado, todos engoliriam o café. A minha mãe sempre a trabalhar, a trabalhar que nem uma escrava e o meu pai a fazer o que podia, debruçado sobre os tecidos de fazenda ou de linho, de acordo com a imparável dança das estações, os colarinhos, as bainhas, a alinhavar, a retalhar, a pôr os moldes, a cortar os forros. E cada dia o meu pai tinha mais trabalho e mais clientes da nossa rua e de locais mais distantes da cidade, chegavam e partiam, enchendo a atmosfera da nossa casa de aromas a águas de colónia, a aftershaves, a charutos e a cachimbos.

Aos novos clientes o meu pai tirava as medidas com a fita-métrica amarela, em que já quase não distinguia os algarismos pretos, e escrevinhava os resultados das medições num caderno onde constavam as medidas de todos os seus clientes, pela ordem exacta pela qual requeriam os seus serviços. Por vezes, as medidas eram tiradas uma segunda vez, porque um cliente, que durante uns tempos não aparecera, reaparecia inesperadamente, mais gordo (raros eram os que emagreciam). Depois, voltavam a aparecer pontualmente (quais figurantes intermitentes, das peças de teatro a que eu assistia no teatro amador do bairro), nos dias marcados para as provas, primeira prova, por vezes segunda prova, os senhores muito quietos, como estátuas, sem tremores, contendo a respiração para que o resultado fosse perfeito, a mirarem-se ao espelho, vaidosos e impertigados como reis, e o meu pai à volta deles qual abelha atarefada, ajoelhado aos seus pés, marcando as bainhas, com os alfinetes presos nos dentes, murmurando interjeições ante os seus comentários, subserviente, resignado e sempre triste. Todos os dias eu presenciava a mesma cena, a mesma sequência de actos, em que só pequenos detalhes iam variando, e todos os dias me sentia triste, e todos os dias pensava que um dia haveria de ser rico, e levaria o meu pai a um alfaiate de prestígio, que se ajoelharia aos seus pés e lhe faria o melhor de todos os fatos, um fato digno de um rei.

Os clientes eram muito diferentes uns dos outros. Gordos, magros, altos, baixos, carecas, barbudos, uns sérios, circunspectos, outros apáticos, poucos risonhos e dois, apenas dois, simpáticos e divertidos. Estes dois, o senhor Anacleto e o doutor Estêvão, despertavam em mim uma atenção especial. O primeiro era o proprietário de uma cervejaria do bairro, e um verdadeiro pândego. Ria alto, contava anedotas escabrosas, a que o meu pai respondia com sorrisos pouco estimulantes e oferecia-nos garrafas de uísque importado, que nunca chegávamos a abrir, e que, numa ocasião de aperto financeiro, o meu irmão mais velho vendeu ao desbarato. O segundo do duo de simpáticos, era otorrinolaringologista, e, sempre que me via, dizia-me logo para abrir a boca e fazer “ah-ah” com força, com a língua para baixo, para poder ver-me as amígdalas. Eu era magro e lingrinhas, e andava sempre com o nariz a pingar, e, muitas vezes, as crises de asma iniciavam-se por simples constipações, pelo que ele me dedicava especiais cuidados. O primeiro perguntava-me pelos jogos de futebol, na praceta em frente à minha casa, e pelas curvas das miúdas da escola, que a mim se me afiguravam todas uns verdadeiros estafermos; o segundo, pelos estudos. Apesar de ser médico, as suas receitas poderiam ser as de um curandeiro. Depois do exame concluído e de me auscultar atentamente, chamava a minha mãe e prescrevia uma panóplia de mezinhas caseiras, com algumas variações, consoante o meu estado: cabeça inclinada sobre panela de água a ferver, com toalha por cima para proporcionar efeito de estufa, chás de limão com mel (com pequenas variações, como gomos de limão com mel), compressas com papas de linhaça no “peitinho”. A melhor de todas as receitas possíveis era a das papas de linhaça, uma farinha feita da semente do linho, que, à hora de deitar, a minha mãe colocava ao lume juntamente com água e que, com o auxílio de uma espátula de madeira, estendia sobre uma fralda de pano, encardida pelo uso que eu e os meus irmãos lhe tínhamos dado em bebés. A papa, ainda fumegante, era cuidadosamente estendida sobre a parte central da fralda, e, logo em seguida, a fralda era dobrada dos dois lados. Após a mezinha pronta, a minha mãe chamava-me, desapertava-me os botões do pijama, puxava a camisola interior para cima (era sempre no Inverno que eu tinha mais crises) e deixava que aquela substância quente repousasse sobre o meu peito e exercesse os seus efeitos benéficos. Era uma sensação agradável. Sentia uma onda de calor a invadir-me o corpo, e, da fralda que envolvia as papas acinzentadas, desprendia-se um aroma quente e dificilmente definível, um daqueles aromas que permanecerão eternamente na minha memória, e que estão ligados aos momentos mais especiais da minha vida.

Por que era aquele momento tão especial? Certamente que não pelas papas em si, mas porque, associada às papas, pairava a presença da minha mãe a cuidar de mim.

Eu era o filho mais novo, o mais frágil, o mais doente, o mais medroso e, em geral, as mães protegem as crias mais frágeis, os que lhes parecem ter menos probabilidades de sobrevivência.

A minha mãe colocava aquela massa fluida, de cor acinzentada, sobre o meu peito e, de quando em quando, levantava-a por alguns segundos do meu corpo, porque nos primeiros minutos a papa estava muito quente, e eu não suportava o calor. Depois, à medida que os minutos passavam, deixava de ser necessário ir levantando o pano, porque a massa arrefecia. Ela apertava a minha mão dentro da dela com força e, por vezes, adormecia na minha cama, de tão cansada que estava. E eu afagava-lhe os cabelos e cantava-lhe uma canção de embalar e acabava por adormecer junto ao seu corpo, apaziguado, sem sombras de pieira no peito e sem medo de nada.

No dia seguinte, no regresso da escola, encontrava o meu pai a fazer os pespontos, a coser, a descoser, com as lentes muito grossas quase a roçarem os tecidos em que trabalhava, a vista cada dia pior, e, na caixa de lata vermelha, com desenhos Art Deco, que em tempos passados fora uma caixa de café e que, nesses dias, assumira a função de mealheiro comunitário, não se acumulava dinheiro suficiente para consultar um especialista, e não havia dinheiro para armações novas ou para lentes novas, e o meu pai a ficar cada dia “menos perfeitinho” e a perder clientes e a minha mãe a trabalhar ainda mais, a trabalhar de dia e de noite, a dormir cada vez menos, a andar mais e mais cansada. E enquanto ela trabalhava na máquina durante a noite, eu, encolhido na minha cama, em posição fetal, ludibriava o medo, ao som ritmado da máquina de costura.

Mas havia uma hora da noite em que a máquina de costura deixava de se ouvir, em que a minha mãe finalmente adormecia e em que os fantasmas regressavam, desconcertantes e insistentes, dançando boleros ao som da respiração compassada dos meus irmãos. Eu, muito quietinho, a esperar que as horas passassem depressa e que, finalmente, o som infernal do despertador de corda ecoasse no quarto.

Por entre as sombras das trevas, erguia os olhos dos lençóis e procurava a fotografia da minha mãe em cima da mesa de cabeceira. A escuridão em que o quarto estava mergulhado não me permitia vislumbrar um só milímetro da imagem, mas ela existia no meu pensamento e exercia sobre mim uma espécie de efeito relaxante. Conhecia-a ao pormenor, e, se acaso soubesse desenhar, reproduzi-la-ia sem custo.

O corpo de Vera estremece. Estará a sonhar?

De manhã bem cedo, a minha mãe subia as escadas com o pão quente. Como era bom aquele pão acabado de sair do forno, ainda quente, em que a manteiga se derretia lentamente! Saboreava aquele pão com manteiga, depois das noites sem dormir, muito quieto na mesa, e os meus irmãos a apressarem-me, a dizerem-me que assim iria chegar atrasado à escola e que ainda teríamos que apanhar o eléctrico e que tinham mais que fazer e que eu era sempre a mesma coisa. A minha mãe, entre a gritaria doméstica, a preparar as sanduíches, até à hora em que os meus irmãos ou o meu pai me iam buscar à escola, e regressávamos a casa de eléctrico, quase sempre pendurados na parte de fora, para não pagar bilhete, fazíamos os TPC, uns ajudando os outros, a minha mãe com os seus poucos estudos, sem nos saber ajudar, o meu pai a olhar-nos, com o ar pesado e infeliz de quem carrega o mundo às costas. E depois, ao jantar, comia-se sopa e uma peça de fruta, e o padeiro da porta ao lado da do nosso prédio, que era um bom coração, uma “alma santa”, segundo as palavras da minha mãe, levava-nos restos de bolos que sobravam e não nos levava mais nada, porque os meus pais eram orgulhosos e não queriam viver da caridade dos outros. Depois do jantar, como não havia televisão, vivíamos a nossa vida sem espreitar as dos outros. Enquanto o meu pai passava os fatos a ferro, porque não conseguia coser sem a luz do sol, a minha mãe prosseguia, curvada, as suas encomendas, todas elas urgentes. As clientes tinham sempre um casamento ou um baptizado ou tinham de ir à terra na semana seguinte ou era Páscoa ou era Natal ou era Carnaval. Queriam impressionar os parentes, os amigos, os conhecidos e os desconhecidos, queriam mostrar-se pessoas que não eram, mas que tinham visto em revistas e que tinham sentido vontade de ser.

Eu observava a minha mãe na expectativa de que chegasse o momento da sua habitual sequência de gestos, em que me poria ao seu colo, me afagaria o cabelo e me abraçaria com força. Esse momento tão esperado era o mais importante de todo o dia, o mais sagrado, o que me dava forças para continuar a ir todos os dias à escola, apesar do sono e da tristeza que me apertava a garganta, que me tolhia os movimentos. Eu olhava-a e sentia por ela um amor do tamanho do infinito, mas não podia demonstrá-lo, porque, se o fizesse, ela perderia tempo e não terminaria a encomenda e perderia clientes, e depois não sobraria dinheiro. Não o fazia porque era assim mesmo, contido na expressão dos afectos.

Olho o corpo de Vera na cama, ao meu lado e não a toco.

E, nos dias em que ela estava mais aflita com trabalho, eu tentava ajudar, mas ainda era pequeno e só fazia asneiras. As minhas irmãs ajudavam-na nos alinhavos ou a passar a ferro, o meu irmão lavava a louça e punha a mesa, e havia tantas outras tarefas, tantas tarefas, que ninguém ficaria de mãos a abanar. O meu irmão mais velho, depois as minhas irmãs, com um ano de diferença entre si, depois eu, o mais novo, o mais protegido, o mais indefeso, o mais mariquinhas. “Mariquinhas”. Era assim que me chamavam. A palavra ainda hoje ressoa pelos corredores compridos e sombrios da minha memória. “Mariquinhas”, “Anda cá, mariquinhas!” Porque eu tinha medo de tudo, de quase tudo - de andar sozinho de eléctrico, do escuro, da solidão, da tristeza, de perder a minha mãe... e tinha medo de morrer com falta de ar, sempre que as crises de asma apareciam e que a minha mãe me levava a meio da noite para o hospital, eu todo roxo, sem respirar, sem haver bomba que me valesse, a olhar em pânico para a minha mãe e ela a retribuir-me o olhar com um misto de doçura e terror e a dizer-me: “Vais ficar bem, meu lindo, vais ficar bem. Vai passar. Passa sempre, lembras-te?” Eu, à espera que ela me assegurasse que tudo iria voltar à normalidade, que as suas palavras mágicas me salvassem de um destino fatal.

As palavras dos pais têm esse poder. Se nos dizem “Não vais morrer”, nós sabemos, temos a certeza de que não morreremos.

E se morrermos, se morrermos todos os dias um bocadinho, sem que eles o saibam?

E eu a olhá-la, com as lágrimas a turvarem-me os olhos, abraçado a ela, os dois sacudidos na parte de trás da ambulância, eu ligado ao tubo do oxigénio, a pensar nas horas que ela perderia comigo, nas encomendas que não entregaria a tempo, nas clientes que reclamariam, a pensar que não passava de um fardo na vida das outras pessoas, que tudo seria mais fácil se eu não existisse para atrapalhar. E, depois, tal como prometido pela minha mãe, tudo ficava bem, bem até ao dia em que, como as ondas do mar que chegam à praia com regularidade, outra crise de falta de ar chegava e em que tudo se passava de novo. E a minha mãe sem dormir, na ambulância, agarrada a mim sem chorar, com aqueles olhos cor de amêndoa, a olhar-me com a doçura com que mais nenhuma outra mulher me soube olhar, com a doçura que, bem mais tarde, reencontrei nos olhos de Vera. A Vera, que nem sequer sabe nada disto e que, se soubesse, talvez nem se importasse assim tanto.

Olho para Vera, deitada ao meu lado, e penso que, talvez um dia, lhe possa contar tudo isto. Para além das idas ao cinema, das noites de sexo e dos momentos de paz que se seguem, talvez um dia lhe fale das minhas raízes.

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