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Raízes - Rita Vilela


A Tempestade

2011-09-28 00:00:00

A Tempestade

- Nuno, as redes. Depressa, estamos todos à tua espera.

Aquelas nuvens não prometiam coisa boa. A experiência do mestre José dizia-lhe que de tarde haveria mau tempo, era melhor despacharem-se para conseguirem regressar antes que as coisas piorassem.

- Estou quase! Estou quase! – gritou o Nuno, acelerando o passo com a rede nos braços, sem reparar que havia um obstáculo no seu caminho.

- Cuidado!

O aviso foi tardio, as redes que ele transportava foram projectadas para dentro de água, enquanto o rapaz se estatelava no chão do cais. As gaivotas levantaram voo, como que para apreciar de cima o resultado do incidente. Os gritos delas juntaram-se aos risos que vinham do barco.

- Será que não consegues fazer nada em condições, Nuno?

O mestre José já não sabia o que fazer com aquele rapaz.

- Apanha as redes, dobra-as e trá-las de volta. E vocês, em vez de estarem para aí a rir-se, vão ajudá-lo.

Os seus antigos companheiros já não estavam com ele, uns haviam comprado os seus próprios barcos, outros tinham trocado o oceano pela terra, o António… bem, o António fora um dos melhores que o mar não devolvera. E o mestre José via-se agora obrigado a trabalhar com rapazes, rapazes que não sabiam sentir e respeitar as redes, o peixe, o mar. E o Nuno era o pior deles… não fosse filho do António e já o teria mandado para casa há muito tempo.

A última rede foi recolhida, dobrada e colocada dentro do barco, que abandonou o porto, fazendo-se ao largo.

Estavam já a terminar a faina quando o tempo mudou bruscamente. A promessa de mau tempo que algumas nuvens anunciavam, concretizou-se num céu negro, vento forte e mar agreste… A tempestade antecipara-se.

O mestre olhou a sua tripulação. Nenhum deles tinha alguma vez enfrentado um mar em fúria, e, vendo o ar apreensivo naqueles rostos jovens, ele temeu que não estivessem ainda preparados.

A tempestade adensava-se, agora. O mar brincava com a embarcação como um gato brinca com um rato, sem pressas, sabendo que ela não poderia fugir. Por fim, parecendo cansar-se do jogo, atirou-a contra uma rocha, abrindo-lhe um lenho por onde a água se apressou a entrar.

- Todos para o salva-vidas – ordenou o mestre.

Os homens obedeceram de imediato.

Estava difícil manter o salva-vidas junto ao barco, não havia tempo a perder.

- Depressa – gritaram os homens, incentivando-se uns aos outros.

Já estavam todos, só faltava o mestre. Perceberam então que o José não iria com eles.

- Eu fico! – afirmou ele, com aquele tom que não admite discussão. No fundo alimentava a esperança que a ajuda que pedira pelo rádio ainda pudesse chegar a tempo.

O barco salva-vidas já se afastava quando Nuno se atirou à água. Deu um impulso, mergulhou, e o seu corpo esguio cruzou as águas, aproximando-se do barco. Agarrou a corda que ficara pendurada e começou a trepar. Não iria deixar o mestre sozinho.

Posso ter muitos defeitos, mas não sou cobarde”, pensou.

O Nuno e o José estavam agora, costas com costas, lutando juntos contra a tempestade. Poderiam falar, mas não o fizeram, o momento era de acção…

As frases limitavam-se a ordens, a avisos.

- Cuidado, agarra-te!

- Mestre, a rocha…

- Segura o leme, Nuno.

José queria agradecer ao rapaz, àquele jovem que protagonizara um gesto tão bonito ficando junto dele. Queria dizer tanto, mas não sabia como…

Quase que agradeceu a agitação das águas à sua volta que o impedia de conversar, que o obrigava a deixar para mais tarde uma conversa que lhe era difícil.

Ele avaliara mal o rapaz, mas agora ainda não era o momento para lhe confessar isso.

E então o barco virou-se e José deu por si cercado pelas águas. Tentou nadar como tantas vezes fizera, mas o seu corpo reagiu como nunca tinha reagido antes. O frio impedia-o de respirar, o ar, que tanta falta fazia, entrava em pequenas doses, doses demasiado pequenas.

Sentiu que se afundava, que tudo aquilo que deixara pendente nunca seria concluído. E, numa reacção que lhe era também nova, pareceu aceitar, aceitar que é o destino de um mestre morrer com a sua embarcação, que não era uma má morte para um homem do mar.

Sentiu-se então agarrado por mãos fortes, que o içavam para cima do barco, do que restava dele.

Estava tonto, gelado, continuava a ter dificuldade em respirar. Nunca se sentira assim.

Nuno, ao seu lado, tentava animá-lo, aquecê-lo.

O fundo da embarcação, de momento prisioneira entre as rochas, constituía agora uma superfície relativamente estável que os mantinha seguros.

As ondas começaram a acalmar, já não os cobriam quando passavam, apenas salpicavam. E, por fim, deixaram de salpicar.

José sentiu-se melhor, arranjou forças para se sentar e observou o Nuno, que de momento parecia dormitar, de olhos fechados, recuperando do esforço.

Como conseguira aquele rapaz salvá-lo do mar revolto? Como conseguira?

Quis agradecer-lhe, mas um nó na garganta impediu-o de falar.

José nunca chorava, aprendera em criança que os homens não choram. O que lhe saía dos olhos não poderiam ser lágrimas. Não podiam! Devia ser água do mar que escorria do cabelo. Pelo sabor salgado, só poderia ser.

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