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Folheando com... Raimundo Narciso


«Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via»

2007-06-21

Entrevista a Raimundo Narciso no âmbito do seu livro "Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via". Leia a entrevista pelo Portal da Literatura.

Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via, é um livro com dados e factos da história recente do PCP. Começamos por lhe pedir, Raimundo Narciso, para quem ainda não o conhece, que nos fale um pouco de si: em que ano aderiu ao PCP, ainda na clandestinidade, quantos anos lá esteve, como recorda o 19 de Novembro, dia em que foi expulso do PCP.

Era estudante no Instituto Superior Técnico quando, por razões de luta contra a ditadura, passei à clandestinidade, em Agosto de 1964, como funcionário do Partido Comunista Português para proceder ao levantamento de uma organização de “acções especiais”, na realidade acções armadas, e que veio a ser a Acção Revolucionária Armada cuja história detalhada é contada no meu outro livro de memórias com aquele nome (Editorial D. Quixote 2000). Fui membro do comité central de 1972, ainda na clandestinidade, até 1988 altura em que participei com outros membros do partido num processo de rotura com a linha política oficial. Em 1991, na sequência dos protestos contra o apoio da direcção do PCP ao golpe de Moscovo que depôs Gorbatchov, foi expulso do PCP com Barros Moura e Mário Lino. Ingressei no mercado de trabalho aos 50 anos e trabalhei como gestor, no sector privado, nos sete anos seguintes, até Outubro de 1995, quando fui eleito deputado à Assembleia da República, como membro da Plataforma de Esquerda, nas listas do PS ao qual aderi em 1999. A minha área de especialização no PCP e também na AR estava relacionada com a defesa nacional, forças armadas e relações internacionais.

O momento que tem grande impacte na minha vida é a rotura com o PCP em 1988. Ela representou então uma rotura também no plano pessoal com quase 30 anos de um estilo de vida e com os amigos de muitos anos, muitos dos quais sabia que se sentiriam na obrigação de deixar de me falar. A expulsão em 1991 (ou a demissão) era um momento aguardado e representou mais uma libertação do que outra coisa.


« – Óh camarada, não percebi o que querias dizer com aquilo de que não entendi nada da nossa revolução! Que queres dizer com isso?

Mas Álvaro Cunhal disse-lhe que não era nada consigo! Consegue imaginar o que teria acontecido na história recente do PCP se Álvaro Cunhal aceitasse que a Terceira Via exercesse o direito à discussão?

Cita uma passagem do relato de uma reunião do comité central em 1988, em que eu defendi a substituição dos rituais dos congressos do partido para glorificação das intervenções no congresso pelo debate livre de ideias. Álvaro Cunhal numa intervenção a seguir, sem nunca me referir, considerou que quem fazia afirmações daquelas é porque não tinha percebido nada da “nossa revolução” o que motivou a que eu o interpelasse da forma reproduzida na pergunta.  O problema não era dar o direito de discussão à Terceira Via. O problema era o direito à discussão a todo e qualquer militante ou grupo de militantes que se quisesse opor à orientação da direcção. Esse direito estava consagrado desde que de acordo com o colete-de-forças do centralismo democrático que na prática o inviabilizava matando-o à nascença.
Se por absurdo admitíssemos esse direito, ou seja a liberdade de discussão dentro do PCP, naquela ocasião, provavelmente o partido cindir-se-ia, como sucedeu por esse mundo fora, numa parte que manteria a ortodoxia e se conservaria como é hoje o PCP e outra, com contornos impossíveis de avaliar, eventualmente constituída pelos muitos milhares de militantes e eleitores que se afastaram do PCP. Seria com certeza uma experiência que procuraria conservar o que havia de bom na experiência do PCP, militância política, ideais, combatividade, organização, mas que não poderia deixar de evoluir para o abandono do marxismo-leninismo, do comunismo, da ideia do partido hegemónico, para a consagração da liberdade como algo inegociável e fundamento do progresso humano. Seria uma experiência que faria a incorporação de princípios há muito estabelecidos nos outros partidos, democracia, liberdade de divergir sem ser apenas no segredo da sua célula e submetido ao controlo do centralismo democrático. Seria também a busca de novos caminhos políticos e novas metas para uma sociedade mais justa, mais equilibrada e mais livre em Portugal.


Em determinada parte do seu livro diz textualmente o seguinte: «lembro que votar contra os estatutos do PCP ou tão-só torcer o nariz a algum dos preceitos identitários é o equivalente, na Igreja, a atentar contra a hóstia ou o cálice com o vinho, sangue de Jesus Cristo». Não acha que à luz da sua opinião, as iniciativas da Terceira Via estavam condenadas ao insucesso?

Nunca me passou pela cabeça (nem aos outros membros do grupo identificado no livro «Álvaro Cunhal e a Dissidência da Terceira Via» agora publicado pela Âmbar) que a contestação tivesse a mínima oportunidade de vencer e substituir a direcção tendo em conta as nossas posições, à partida muito minoritárias na direcção, e o excessivo controlo de riscos oferecido pelas regras do centralismo democrático. Os objectivos eram mais limitados. Era defender outras posições políticas, revelar a impossibilidade de oposição, a falta de liberdade, mesmo dos membros do CC e criar um movimento de opinião dentro do PCP contra a linha seguida com as consequências que daí decorressem e que não poderiam ir muito além de uma saída maior ou menor, mais organizada ou mais inorgânica.

 

São díspares os caminhos seguidos por alguns dos elementos da Terceira Via: houve quem aderisse ao Partido Socialista, quem aderisse ao Bloco de Esquerda mas também houve quem aderisse ao PSD, o que para a opinião pública não deixou de ser uma surpresa. Como é que o Raimundo Narciso vê a opção de alguns dos seus camaradas? O que é que o fez aderir ao Partido Socialista?

Dos milhares de militantes que abandonaram o PCP nos anos de 1991/92 só conseguimos organizar cerca de mil na Plataforma de Esquerda. Sem dinheiro nem outros apoios poderosos não era credível a criação de um partido. A dificultar tal iniciativa estava também o facto, nada negligenciável, de a saída em massa de militantes ter a uni-los a recusa do PCP mas não um projecto de futuro. O fim do comunismo não chegava para criar um programa. A certa altura uma parte dos ex-comunistas optou por uma aproximação com o PS e por fim pela adesão a este partido e outra parte optou por uma posição mais radicalizada que acabou na aliança de partidos e grupos que deram o Bloco de Esquerda.
A adesão ao PSD aconteceu apenas, creio eu, com Zita Seabra. Estava no seu direito como todos os outros que fizeram outras opções.

Eu pretendia continuar a ter uma intervenção política. Em Portugal, mais do que nalguns outros países, a intervenção política pressupõe a militância num partido e a minha escolha do PS foi por uma razão muito comum a quem adere a um partido, escolhi o que me parecia melhor. Claro que, provavelmente como sucede com muitos dos aderentes do PS e de outros partidos, não estou de acordo com tudo, e por vezes até, com a maior parte do que o PS ou o seu Governo defende. Mas na impossibilidade de ter um partido exactamente à minha medida… escolho o que mais se aproxima.
Lembro uma observação que me foi feita por um velho quadro do PS antes ainda da minha adesão. A minha “sensibilidade” (o grupo de amigos do partido com ideias mais próximas) nunca está de acordo com a direcção. E eu raramente estou de acordo com a minha “sensibilidade”!

Alguns anos se passaram entretanto. Como é que vê o quadro político actual? Como é que vê o PCP? Acha que o espírito «discutir mais ideias e menos pessoas» tem sido absorvido ainda que paulatinamente pelos principais partidos portugueses?

É um lugar-comum reconhecer que a política, os partidos, os políticos padecem de grandes defeitos. E podemos aceitar que em parte assim é. Mas é necessário não dramatizar nem tirar os pés da terra. A maior parte dos defeitos que apontamos à política e aos políticos, a demagogia, a corrupção, o eleitoralismo, a falta de ideais, a preocupação de tratarem da sua “vidinha” em vez dos interesses dos seus eleitores ou do país, existem em igual medida na vida social e profissional. A aparente diferença está em que a política é, e bem, muitíssimo mais escrutinada. Aquelas pragas são uma consequência da comunidade que somos, do nosso grau de civismo (ou falta dele) da nossa reduzida tradição democrática e participativa. A séculos de Inquisição juntou-se meio século de ditadura salazarista.
Devemo-nos então conformar com a situação? De modo algum. É necessário um combate determinado contra todos estes aspectos negativos. Fortalecer a “sociedade civil”, travar uma batalha séria pela melhoria do funcionamento dos partidos e das instituições democráticas. Maior transparência, maior participação, mais democracia.
Mas é em especial necessário melhorar o “ambiente” que condiciona a vida económica e trava o desenvolvimento. É indispensável criar melhores instrumentos de defesa das camadas mais desprotegidas, os trabalhadores, os marginalizados, os imigrantes, as crianças, os idosos. É intolerável a crescente (e a palavra crescente não é uma flor de retórica) desigualdade na sociedade portuguesa.

Quanto ao PCP desde essa altura até aos dias de hoje, as restrições à liberdade de discussão, o comportamento intolerante e persecutório parece terem-se agravado como o comprovam novas dissidências, mais expulsões e mais afastamentos. Nomeadamente de dirigentes ou altos quadros do PCP como Carlos Brito, João Amaral, Edgar Correia, Carlos Luís Figueira, Fernando Vicente, Henrique de Sousa e dezenas ou centenas de outros quadros importantes.

Agradecendo a sua disponibilidade para esta entrevista, não podemos perder a oportunidade para lhe pedir que nos fale dos sonhos que certamente ainda tem, sejam eles pessoais, profissionais ou até mesmo literários. Depois deste, outro livro poderá surgir?

Sonhos? Com a experiência que a idade vai dando, vou sonhando cada vez menos mas naturalmente que os objectivos que se cimentaram ao longo da vida se mantêm. Objectivos de luta por um país mais desenvolvido e próspero, mais justiça social, mais igualdade, sem prejuízo da recompensa do mérito, dos resultados do trabalho, mais liberdade para a pessoa humana. Particularmente chocante é a desigualdade no mundo (e em Portugal) entre camadas que vivem na opulência, em geral imerecida, e grande parte da população que vive mal ou mesmo esmagada pela pobreza, pela marginalização e é lançada no desespero.
Relativamente a 2004, Portugal é na União Europeia o país em que os 20% mais afortunados são 7,2 vezes mais ricos do que os 20% da população mais mal remunerada enquanto na UE, em média, essa relação é apenas de 4,8. Não se vê o Governo a tomar medidas que contrariem esta situação. Aparentemente porque a actividade privada seria algo de intocável quando no fim de contas é o Estado e são as leis que condicionam a e oferecem maior ou menor capacidade de desequilíbrio social aos poderosos, às grandes empresas, incluindo os bancos.

Nos últimos cinco anos os administradores das 20 maiores empresas portuguesas, cotadas na Bolsa, viram as suas remunerações aumentar 320%, segundo um insuspeito estudo da Comissão de Valores Mobiliários, enquanto a média das remunerações da economia no mesmo período foi de 15,7 %. Vinte vezes menos.
O salário médio mensal bruto de um trabalhador português é de 620 euros e o daqueles gestores anda, em média, sem falar nas mil e uma mordomias e pensões douradas pelos 38.000, cerca de 60 vezes mais (segundo o Público de 2007-05-08).

Os padrões de civismo são baixos em Portugal se comparados com os países do Norte da Europa e a corrupção é um cancro que parece difícil de conter. O desemprego, a fraca qualificação das pessoas e uma segurança social frágil geram grande insegurança e atingem negativamente grande parte da população. No que a mim diz respeito posso-lhe adiantar que os ideais mantêm-se mas os caminhos apresentam-se mais complexos e incertos. Importante é não desistir deles nem de se procurar novos caminhos.   
Tenho projectos de continuar a escrever e participar na vida política ou cívica sempre que a situação o proporcione.

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