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Folheando com... Baptista-Bastos


Baptista-Bastos

2007-08-02

Ensaio, ficção, cinquenta anos de jornalismo, muitos livros e muitos prémios. E se o livro As Bicicletas em Setembro não for ainda sobejamente conhecido, já em relação ao autor, não há quem não o conheça.

Como é que lhe surgiu a ideia de escrever «As Bicicletas em Setembro»?

- Queria escrever um texto que fosse, simultaneamente, uma metáfora do País e uma espécie de educação sentimental. Possuía uma ideia muito vaga de como desenvolver a tese e o tema. Não sabia muito bem até onde eu iria. Como começar? Surgiram-me várias hipóteses, todas elas colocadas à margem. Até que, certa tarde, a memória dos sons fez ressurgir o tropel dos cavalos da tropa, escutados na minha infância, na Ajuda. E assim foi. A mulher, Jesuina, personagem central do livro, aparece porque nela começou a concentrar-se a maioria das mulheres que, de uma forma ou outra, me protegeram, me educaram e me amaram. É um texto sobre a grandeza da mulher, sobre a sua inabalável integridade. Este meu livro, como, aliás, creio, todos os outros, é um romance, ou uma novela, como se queira, de situações que se entrelaçam. Levei alguns anos a escrevê-lo e a dá-lo por concluído. Sou um escritor pausado, com uma exigência de rigor que atinge, amiudadas vezes, as áreas do fanatismo. Talvez por isso não aceite, de bom grado, as mistificações feitas, pelo marketing e por uma Imprensa acrítica, acerca de livros e de autores de terceira e quarta ordem.

Afectos, vinganças, intrigas, mágoas, lembranças de amor, mentiras, memórias e muito mais. Baptista-Bastos, esta é a imagem do país que tínhamos ou é, ainda, a imagem do país dos nossos dias?

- Os sentimentos e os comportamentos das pessoas não mudam por decreto. A democracia não extirpou, nem o poderia fazer, a pequenez do nosso espírito, o qual, ocasionalmente, explode em grandeza e em assombro. Levará gerações a admitirmo-nos como somos, para tentarmos melhorar as amolgadelas de que sofremos. Creio, modestamente embora, que «As Bicicletas em Setembro» fala de sentimentos eternos, das contradições e complexidades da nossa condição, e da imponência e da majestade da mulher.

«O ser humano resiste e habitua-se a tudo, nunca à dor causada pela solidão». A questão da solidão é um tema delicado e que, de resto, é estudado por vários especialistas. Há alguma história subterrânea para ter agarrado este tema? Em caso afirmativo, quer relatá-la ao Portal da Literatura?

- O homem existe numa solidão povoada. Cada homem transporta uma pessoal e singularíssima solidão. Sempre escrevi sobre a solidão humana, sobre a procura de um peculiar silêncio que a explicasse ou a justificasse. Todos os livros falam de solidão. E aquele que pouco fala se solidão é, paradoxalmente, o «Só», do António Nobre: fala, sim, de melancolia, de nostalgia e da grande dor de ser português. O Mário Cláudio escreveu sobre o «Só» e o Nobre melhor e mais dramaticamente do que qualquer outro escritor. Quanto a mim, nada tenho a esconder: nem sequer os meus medos: estão todos nos meus livros.

Os seus livros, sejam eles romances, crónicas, ensaios ou mesmo reportagens, estão traduzidos em muitas línguas. Há algum que, para si, tenha tido um significado especial?

- Obedecem, todos eles, a estações da minha vida. Quando terminei «As Bicicletas em Setembro» reparei que, olhando retrospectivamente, as personagens iam tendo a minha idade. A Jesuina tem a minha idade actual. Gosto de todos os meus livros. Mas não os releio (a não ser num caso: «O Secreto Adeus», porque o remanejei e quase o reescrevi), porque tenho receio de descobrir dislates e tolices no que escrevi.

Cinquenta anos de jornalismo dão-lhe certamente autoridade para opinar sobre o jornalismo dos nossos dias. Para além de uma panorâmica geral quer dar-nos alguns bons exemplos de como do bom jornalismo pode resultar boa literatura?

- O jornalismo actual afastou-se das pessoas, traiu a grande tradição da Imprensa latina e, servilmente, copiou, em péssimo, um certo tipo de jornalismo anglo-saxónico, com o qual pouco temos a ver. A grande fraude da «distanciação», do jornalismo «descomprometido», chega a ser insultuosa. Todo o jornalismo, sobretudo o da tal «distanciação», está comprometido, neste caso deplorável, com o desprezo pelo humano, com o desdém pelas causas. O compromisso com o humano possui um carácter ético, moral. Leiam-se os grandes textos jornalísticos de Artur Portela Pai, de Jaime Brasil, de José de Freitas, de Mário Ventura, do próprio Urbano Tavares Rodrigues. Reside neles uma inesgotável fonte. E ponha lá também o Albert Camus, o Malraux, o Vailland, o Claude Roy, o Joseph Kessel, o Albert London. Eles nunca temeram a «aproximação», a simpatia com o leitor. Nunca recearam o «compromisso» porque lado humano era o seu lado. Chego a ter repulsa, náusea, pelos paladinos da «distanciação». Talvez sem o perceber estão ao serviço de interesses sórdidos. E quando me nomeiam alguns «professores» de jornalismo, como caução ao que defendem, esclareço que quase todos nunca foram jornalistas, nem mesmo simpatizantes. E tomo de mão o conceito de Bernard Shaw: «Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina».  Já agora, como estamos em maré de citações, faço uma paráfrase do grande Almeida Garrett, e aplico-a, por inteiro, à «distanciação», ao «descompromisso», à «neutralidade» jornalísticas: «Quer dizer tolice e asneira sistemática debaixo de diversos nomes».

Os visitantes do «Portal da Literatura» não nos perdoariam se não lhe pedíssemos para nos falar sobre os seus novos projectos.

- Retomei um texto memorialístico, iniciado há catorze anos. Estou a organizar um volume de crónicas. No final do ano, a Oficina do Livro vai editar um conto meu, «A Bolsa da Avó Palhaça», ilustrado por um grande desenhador. E estou a embalar a ideia para um outro romance. Complementarmente, leio, leio, leio. Neste momento, dois grossos livros: «Les Droites Françaises - De la Revolution à nos Jours», um belíssimo e rigoroso ensaio escrito por diversos historiadores e sociólogos, e dirigido por Jean-François Sirinelli. E, também, «Vaincu par l’Amour», do imenso poeta irlandês Patrick Kavanagh. Um texto inclassificável: grande jornalismo, grande poesia, grande vituperação ao mundo em que vivemos. Leio-o em francês porque não sei gaélico, a língua que gostaria de conhecer e de frequentar.
 

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