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A Opinião de Paula Mota


Artigo 353

2025-07-08

O rosto cada vez mais ilegível, como se agora me tivesse deixado a sós com a palavra, com a desordem da palavra e mil pensamentos embocassem num funil cujas leis internas de selecção ele tentava compreender.

De início, “Artigo 353” não estava a prender-me pelo seu estilo expositivo. Recorrendo a um huis clos muito semelhante ao de “O Quarto Azul” de Georges Simenon, vemos Kremeur, antigo operário do arsenal de Brest, a prestar declarações a um juiz de instrução pelo crime de que nos dá conta nas primeiras páginas.

Por vezes, o juiz, quando me olhava, quase se diria que tinha um machete nos olhos e que, com ele, abria caminho dentro de mim, como se visasse um ponto central que eu próprio não conhecia, qualquer coisa a que simplesmente teria chamado “os factos” e porque pensava que no interior destes “factos” estava a verdade. Como se ela, a verdade, viesse à superfície por si própria, seca e sem rugas.

Em traços largos, já que se trata de uma obra muito breve, um dia chega a uma pequena cidade estagnada do litoral da Bretanha um especulador imobiliário, o típico pato-bravo…

Talvez baste um tipo chegar com bastante energia e um livro de cheques mais gordo do que a média para que toda a gente diga que é ele o enviado de não se sabe que deus para nos tirar do pântano.

…que com falinhas mansas e um projecto de encher o olho, convence meio mundo a investir num empreendimento que, passada meia dúzia de anos, não passara ainda do papel. Com o avançar do relato sobre esta “banal história de vigarice”, “Artigo 353” começa a tornar-se mais introspectivo e com uma prosa mais reflexiva e estilisticamente interessante. Sempre na primeira pessoa, Kremeur transmite a frustração que sente e tenta disfarçar fechando-se sobre si mesmo, de como isso criou uma barreira entre ele e o filho, que cresceu e se foi apercebendo do mal provocado por esse forasteiro que exibe mais sinais de riqueza a cada dia que passa.

E então, lá no fundo, descobre a única coisa que necessariamente o preocupa: que o pai dele sou eu e só eu. É isso que descobrimos aos 18 ou 20 anos. Que teremos o mesmo pai toda a vida. Que passaremos toda a vida com os mesmos fantasmas. Os mesmos cantores de rádio. Os mesmos políticos. A mesma infância às costas.

É só quando o jovem comete um acto tresloucado de vingança que Kremeur decide fazer justiça pelas próprias mãos, pois “nem sempre podemos esperar séculos por uma qualquer justiça natural que se calhar nunca chegará”.

É um revoltante caso de toda uma população ludibriada por um homem sem escrúpulos que o juiz, que em toda a narrativa mostra ser uma pessoa empática, tem em mãos; mas é na lei, no artigo para que aponta o título do livro de Tanguy Viel, e não no crime, que se encontra o desenlace desta obra. O artigo 353 não existe no código penal francês, mas interpreto-o como o símbolo da subjectividade e controvérsia de muitos veredictos que, por vezes, parecem depender da vontade e da capacidade de alguns interpretarem as leis como lhes convém. Aquele que parece ser potencialmente um final feliz, dependendo do nosso sentido de justiça, é também matéria para cogitação.

E o facto é que certas pessoas são desprovidas disso, como outras nascem sem um braço, outras nascem com atrofia de, não sei, de…

E o juiz disse: De humanidade?

Sim, no fundo talvez seja isso, de humanidade.

 

Artigo 353, de Tanguy Viel, Antígona, Maio de 2024, tradução de Luís Leitão

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