loading gif
Loading...

Folheando com... Lídia Jorge


A demolição do mundo arcaico

2008-02-25

Em O Vento Assobiando nas Gruas, a portuguesa Lídia Jorge fala do fim de culturas milenares. Com O Vento Assobiando nas Gruas, a escritora portuguesa Lídia Jorge conquistou há cinco anos o grande prêmio de romance da Associação Portuguesa de Escritores.

Entrevista a Lídia Jorge por

Estado de S.Paulo
Antonio Gonçalves Filho


A demolição do mundo arcaico

Em O Vento Assobiando nas Gruas, a portuguesa Lídia Jorge fala do fim de culturas milenares. Com O Vento Assobiando nas Gruas, a escritora portuguesa Lídia Jorge conquistou há cinco anos o grande prêmio de romance da Associação Portuguesa de Escritores . Lançado agora no Brasil, o livro, um ambicioso trabalho literário com quase 500 páginas, leva o leitor à aldeia de Valmares, cenário fictício de outros livros da escritora que remete à terra onde ela nasceu, no Algarve. Nesse oitavo romance da autora, o vento mediterrâneo do título sopra e ameaça uma cultura ancestral, resistente ao avanço das gruas que remexem a terra do mundo globalizado. No livro, Milene, neta de uma mulher encontrada morta em frente a uma antiga fábrica de conservas de Valmares, conhece Antonino, um viúvo operador de gruas com quem estabelece uma relação. Por meio da história dos dois, Lídia Jorge mostra o confronto entre um mundo arcaico, representado pela velha fábrica onde se instala uma família pobre de Cabo Verde, e a modernidade. Sobre o livro, a escritora concedeu ao Estado a entrevista a seguir.

O Vento Assobiando nas Gruas tem uma mulher mentalmente perturbada como personagem. Combateremos a Sombra tem um psicanalista. Como a psicanálise, para você, vira instrumento de criação ficcional? Será por conta de que ambos, escritor e psicanalista, transportam uma multidão de gente na cabeça?

Todos os livros servem de aprendizagem para os que lhe seguem, mas O Vento Assobiando nas Gruas desenvolveu-se como um projeto autônomo, em torno de uma figura muito particular, a 'inocente' Milene. A palavra oligofrênica, esse palavrão clínico que a define, só aparece já quase no final do livro, porque ela é personagem que veste a pele da pessoa comum, e não da pessoa anormal. Este livro entra na interioridade da figura, lentamente, para que se tome conhecimento por dentro, pouco a pouco. O livro abre devagar, exatamente para ficarmos ao lado da figura, entendendo-a por dentro, e assim tomarmos o seu partido e perceber o ponto de vista desta mulher que pensava e agia como uma criança. O que pode existir de comum entre o escritor e o psicanalista é o fato de ambos estarem do lado da vida interior, sem punir, mas para compreender. O que os separa é que o psicanalista quer curar, e o escritor quer dar a ver.

Você reconheceu numa entrevista que Milene Leandro, personagem de O Vento Assobiando nas Gruas, é um ensaio para o Osvaldo Campos de Combateremos a Sombra. Considerando que o último tem uma vocação irrefreável para o fiasco, diria que sua literatura é marcada pelo ceticismo da faca de Caravaggio (sem medo, sem esperança) ou pelo pessimismo que marca a literatura portuguesa?

Milene, tanto quanto Osvaldo Campos, contam a sua história de perdição. Mas não se trata de um fiasco. O fiasco acontece na vida, se eles vivessem e as suas vidas fossem assim. Mas, uma vez que as suas vidas são contadas, as suas histórias reclamam a reposição da 'justiça' que não é feita dentro das páginas. Um bom livro é aquele que tem a força suficiente para continuar a existir na nossa cabeça, quando fechamos a última página e a força da história é tanta que nos deixa para sempre atraídos pela sua beleza e incomodados pela imperfeição do que acontece. Só assim as figuras literárias ficam nossas irmãs e os livros podem ser nossos companheiros para sempre. Caravaggio gravou na lâmina da sua faca a máxima 'Onde não há esperança, não há medo'. Essa é a perspectiva do criador - indiferente ao remate fácil, o caminho deve ser o do desassombro. Poucos de nós atingem essa altura, mas vale a pena tentar. Nos livros, não vale a pena outra coisa. E não estou de acordo com a idéia de que a literatura portuguesa é pessimista, embora reconheça que tradicionalmente ela aposta sobretudo no campo da profundidade. E aí, torna-se difícil e, por vezes, elitista. Mas hoje em dia é variada e múltipla, como por todo o mundo. Aliás, sem querer corrigir a sua percepção, que entendo, eu só divido os livros literários em duas categorias - os belos e os não conseguidos.

Você costuma dizer que O Vento Assobiando nas Gruas lhe deixou uma impressão muito forte. O livro traz reminiscências de sua vida no Algarve? A figura de Milene é baseada numa pessoa real? Valmares é uma projeção de sua Boliqueime?

Todos os países têm as suas regiões-síntese, e o Algarve funciona como tal em relação a Portugal. Ali, uma pessoa sai à rua e vê a síntese da cultura portuguesa dos últimos trinta anos. Os seus vícios e virtudes estão visíveis nos traçados das estradas, na configuração dos imóveis, na derrocada das cidades, na recuperação de lugares, na forma como a terra é comida, diariamente, na forma como se tentou evitar. Sobe-se ao terraço de um hotel, olha-se em volta, e tem lá o mapa de toda essa saga, tão mediterrânica, tão própria do Sul de Europa. Como em outros dos meus livros, essa região tem-me oferecido o campo para a ação. Valmares é essa região, vista a partir de cima, uma perspectiva à altura do olho do pássaro, como os ingleses diziam. Nasci ali, tenho raízes ali. Mas não é por esse laço autobiográfico que escrevo sobre aquele espaço. É porque ele me permite transfigurar a realidade e colocar entre a realidade e a transfiguração, os planos do meu desejo.

Achei curiosa sua definição de autor português como um escritor que se auto-traduz em português, como se resistisse à vocação narrativa, criando um labirinto barroco de palavras como Saramago, para ficar num exemplo mais conhecido. Associando a uma declaração sua sobre a resistência que tem ao verbo, como você imagina a literatura portuguesa do futuro?

Sobre a literatura portuguesa do futuro, imagino-a como imagino o país, mais a transfiguração dessa realidade. Porque a realidade, em termos de originalidade, está capitulando, naturalmente. O modelo anglo-saxônico de sucesso está a impor-se por toda a parte. O modelo literário criado pelos anglo-saxões e 'os modelos' diferentes, mas também escolhidos por eles. E desse modo, escrever sobre o homem planetário, em língua planetária, parece ser o caminho mais natural. Não vejo outro. Mesmo as culturas mais afastadas, como sejam as orientais, facilmente se estão adaptando ao modelo ocidental diretamente pensado em inglês, tendo como meta a New York Review of Books. Na minha modesta capacidade de olhar a bola de cristal do futuro, não vejo que os escritores portugueses possam fugir a isso. Para onde iriam? Naturalmente que eu sonho com a diferenciação que a língua portuguesa oferece, e ela anda por aí, pelos cinco continentes, cobrindo realidades que nos são próprias. Enquanto tivermos uma língua essencial, e realidades específicas, as nossas literaturas nacionais serão diferenciadas. Mas isso só acontecerá enquanto essa singularidade nos der força e alegria. Pode não dar. Começa a acontecer que a maior parte dos títulos dos jornais usa termos em inglês. A cultura de proximidade pode deixar de ter encanto.

Em mais de um livro você toca num ponto que me parece uma obsessão sua, a vocação cainita da espécie, como se estivéssemos condenados perpetuamente à traição. Em O Vento Assobiando nas Gruas essa traição vem por meio do crime que se comete contra Milene, uma traição que você mesma definiu como 'escondida na fraternidade'. Não há mesmo saída para os descendentes do irmão de Abel?

No plano histórico, claro que há saída para os filhos de Abel. Se não pensássemos assim, não faríamos nada, nem mesmo arte. É a arte, precisamente, que continua a dizer que a história não tem fim e um pedacinho do bem, pelo menos é alcançável. Mas para dizer isso, e até mesmo para reclamar isso, não é possível ultrapassar a obsessão que é pintar o rosto de Caim. Sim, acho que escrevo muito sobre o processo cainita, é verdade. Gosto das pessoas, gosto da forma como as pessoas criam frases e inventam palavras. Gosto da poesia, gosto da música. Nada me comove mais do que um homem agarrado a uma caixa de madeira, fazendo falar o presente através dumas cordas. E se não sabemos nada sobre o futuro, e temos tantos instrumentos de ligação, por que não somos fraternos? Se é a grande chance que temos de nos parecer com um deus justo? Eu escrevo sobre Caim de mil formas. Quero ir até ele, através das minhas personagens, para lhe estudar o rosto. Não conheço outro tema mais importante nem mais universal.

Fassbinder costumava dizer que a humildade só pode nascer da humilhação, porque, de resto, ela será pura vaidade. Milene é mutilada em O Vento Assobiando nas Gruas. A inocência é quase sempre condenada entre ignorantes e me parece que ela sintetiza uma situação hoje muito comum na Europa, de pobres criaturas humilhadas em razão de sua diversidade, seja ela cultural, sexual ou religiosa. Você considera a cultura da União Européia uniformizadora, homogeneizadora?

A cultura européia mantém uma diversidade apreciável com raízes numa história terrível e ao mesmo tempo fantástica. Hoje, os países europeus, dilacerados há 60 anos, estão a aproximar-se, como se sabe, mas não deveria haver a tentativa de homogeneização que há. Aproximar é juntar os diferentes, acolher os vizinhos, dar-lhes as mesmas possibilidades, oferecer-lhes livre circulação através do espaço, criar um sistema de defesa comum, porta-vozes para os diálogos das grandes causas. Mas a Europa, hoje em dia, está enredada no ridículo de igualitarizações menores, como sejam perder tempo a legislar sobre o tamanho das casotas dos galos, ou o tipo de toucas que os assadores de chouriços devem usar. Não temos cômicos à altura para satirizar esta crise de puberdade.

A literatura contemporânea portuguesa começa a conquistar espaço merecido nas estantes brasileiras. Você citou numa entrevista o nome de Mário Cláudio, autor de Camilo Broca, sobre os antepassados de Camilo Castelo Branco. Quais são os outros autores veteranos que a comovem e, segundo sua opinião, ainda não conquistaram o espaço merecido no Brasil?

Além de Mário Cláudio, no Brasil, conhece-se pouco escritores como Mário de Carvalho, Agustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa, Teolinda Gersão, Almeida Faria, João de Melo ou Hélia Correia, para só falar em alguns nomes. Mas há um naipe de escritores mais jovens que são mais transitivos à cultura brasileira. E isso prende-se com a questão que acima referimos. A verdade é que ser publicado no Brasil é estabelecer uma espécie de parceria única, por razões que naturalmente se entende. O inverso também me parece ser verdadeiro.

Comentários


Ainda não existem comentários para este questionário.

Mais entrevistas

Voltar

Faça o login na sua conta do Portal