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Folheando com... Margarida Paredes


Histórias de vidas modernas

2006-06-22

Margarida Paredes e o seu "O Tibete de África" - um romance onde histórias de vidas modernas, complexas e inovadoras unem pessoas oriundas de espaços culturalmente diferentes.

Entrevista a Margarida Paredes no âmbito do seu romance O TIBETE DE ÁFRICA.


Até que ponto é que o livro TIBETE DE ÁFRICA tem resquícios autobiográficos? O que é que a moveu quando decidiu escrever este livro?

O Tibete de África é uma história inventada. Não é a minha autobiografia mas permitiu-me dar sentido às diferentes realidades que vivi. A escrita é muitas vezes uma história inventada à volta da nossa vida. Diverti-me e sofri imenso a forjar encontros e desencontros às personagens por esse mundo fora. Vivi intensamente e descobri que não se escrevem livros com bons sentimentos. A maldade tem muito mais densidade que a bondade! Eu sei que os leitores procuram o autor por trás de cada palavra e é verdade que eu recorri a algumas vivências pessoais. Mas, apesar de ter uma história de vida movimentada, não sou nenhuma personagem de romance! O leitor atento descobrirá se apareço, ou não, na narrativa...

O Tibete de África

Em 1974, a Margarida Paredes largou o curso universitário na Bélgica para lutar pela independência de Angola ao lado do MPLA. Quais são as lembranças mais fortes que guarda desse tempo, e que relações mantém hoje, com Angola, agora que estão transcorridos mais de trinta anos após a independência?

Vivo da memória do encanto e da paixão. Paixão por um ideal que abracei, a luta de libertação e independência de Angola e encanto pelo romantismo de ter lutado por algo em que acreditava. Aos vinte anos a vida era um deslumbramento e todas as utopias faziam sentido, até a guerra fazia sentido. Foram esses momentos que vivi intensamente, contra a corrente, que hoje me aguentam e dão ânimo. 
Trinta anos depois Angola é um país soberano mas o meu amor não é incondicional. Para o bem e para o mal, temos uma história em comum. Gostava que existisse um relacionamento de reciprocidade. 

Os leitores de TIBETE DE ÁFRICA vão ser confrontados com três personalidades distintas. Uma delas, Ana, viveu em Angola, até perto da independência. Até que ponto é que a vivência e as memórias da Margarida influíram na criação da personagem e história de Ana?

Se influíram foi um trabalho feito ao contrário. Tive que fazer alguma pesquisa para construir a personagem da Ana, uma retornada atípica. Ela nasceu e viveu em África os mais belos momentos da sua vida. A relação com o criado “o meu Aguiar” vai abrir-lhe um corredor transcultural através do qual olhará o mundo. Também viveu os momentos de sofrimento, amargura e derrota do fim do Império Colonial. Eu vivi os momentos da vitória e glória da Independência. A Ana tem problemas identitários, diz: - “Não pertenço a lado nenhum. Portugal é um país emprestado! Vou ser sempre uma sem terra...”. Eu não tenho problemas de identidade, sou uma portuguesa que lutou por Angola. Como escritora estou numa posição privilegiada para convocar a memória do colonialismo e da descolonização, sem complexos. A Ana vai tentar matar África dentro dela e depois em adulta, vai viver, com um engenheiro angolano, uma paixão marcada pelo choque de culturas. O meu olhar sobre aquela paixão não coincide com o de Ana. Essa descoincidência é o grande desafio de quem escreve.

O TIBETE DE ÁFRICA é também a história de um capitalismo selvagem e global que marginaliza indivíduos, países e continentes. Até que ponto a terra onde Ana cresceu faz parte desse Tibete?

As personagens do livro evoluem de ruptura em ruptura. Rupturas históricas, são apanhados, ao serviço de uma empresa de telecomunicações, pela violência e genocídio do Ruanda. Rupturas pessoais, exílio e desemprego. Rupturas sentimentais amores proibidos, infidelidade, traição e divórcio. Personagens e países são discriminados pela desgraça. Mas como o Tibete remete para renascimento, vão lutar contra a adversidade. “- A desgraça é uma força que empurra para trás, mas às vezes empurra para a frente.”

Tem certamente recolhido reacções ao seu livro. Houve alguma inesperada que nos queira relatar?

O mais surpreendente é todos os leitores dizerem, sem uma única excepção, que a leitura é fluida, que leram o livro de uma ponta a outra sem parar. Parece que a maior virtualidade desta história é não chatear o leitor! Há quem refira “a memória de África”, a “filosofice” da autora e o “erotismo” como elementos que seduzem! Mas o que me tem espantado são as diferentes leituras que as pessoas fazem conforme o contexto cultural em que se inserem. Quando mergulho na “condição africana” e no olhar que o “outro” derrama sobre “nós”, mudo de perspectiva cultural e parece que isso induz leituras diferentes.

E agora, o que é que vem a seguir, perguntam certamente os seus leitores? Quer falar-nos dos seus projectos?

Estou a escrever duas histórias diferentes ao mesmo tempo. Não sei qual das duas se resolverá primeiro. Uma delas é história optimista virada para um pequeno estado do Atlântico e exige muita pesquisa histórica. A outra é mais intimista e estou a escrever na primeira pessoa para me divertir e perturbar! Vou continuar na linha da literatura da interculturalidade. Mas vou precisar de muito tempo para trabalhar as ideias, as palavras e as frases! Para se escrever é fundamental ter tempo! Escrever é um luxo!    

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