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Folheando com... Nuno Júdice


Nuno Júdice

2008-06-16

Escritor, poeta e ensaísta português, é professor da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou em 1989 com uma tese sobre Literatura Medieval. Tem livros traduzidos me meia dúzia de línguas. A Matéria do Poema é o seu mais recente livro. Falamos de Nuno Júdice a quem tivemos o prazer de entrevistar.

O leitor encontra no seu livro, poemas com várias ligações temáticas e musicais a outras obras suas. Como é que surge A Matéria do Poema e o título que escolheu?

Cada livro de poesia faz parte de um work in progress que compõe um fragmento de uma totalidade que é esse longo poema que tenho escrito desde «A noção de poema» de 1972. O título deste livro entra em jogo com esse, e alguns poemas encenam o diálogo com questões que ali coloquei – a poética, o poeta, a memória, o espaço e o tempo da vida. Mas há poemas que correspondem também a uma nova proposta, que se inscreve na libertação de hábitos e vícios que têm vindo a fazer cair a poesia recente numa monotonia de que poucos se libertam. Há um humor que vem da tradição em que incluo um Drummond de Andrade, um Cesariny, um O’Neill, e que vem na linha de outros poemas que surgem em livros anteriores mas sem a consistência que este bloco crítico e satírico adquire neste livro. É óbvio que o leitor não se apercebe por vezes do que está por trás de um determinado livro – aqui, foi também a sequência de «As coisas mais simples», de alguns poemas muito longos, numa linha que vai do classicismo à poesia metafísica. É um contraponto com esse adagio majestuoso, num tom de allegro que, no entanto transporta também alguns núcleos desse livro anterior. Em linguagem figurada, seria a passagem de Brahms a Mozart (descontando a comparação pessoal, claro). Quanto ao título, surgiu quase naturalmente desse poema em que «actualizo» a minha poética.


O Silêncio

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
...

Continua a beber do licor do remorso, Nuno Júdice? Há muitas palavras ainda por dizer?

Não sei se haverá muitas palavras por dizer; há, sim, muitas imagens por descobrir, e é dessa descoberta que nasce a minha poesia. Não ando atrás de palavras – e é por isso que o meu vocabulário terá um leque circunscrito ao que gosto de dizer. A invenção linguística não é algo que me preocupe muito, prefiro jogar nos aspectos da construção do verso e da frase no verso. Quanto a esse «licor do remorso» é algo que faz parte da «inspiração» do poema: a busca de um paraíso perdido, talvez por nossa culpa – não falo tanto do pecado original como de tudo aquilo que existe para além de um horizonte que nunca iremos alcançar. O poema é, muitas vezes, a procura de o atravessar, e talvez a única forma de atingir a visão do outro lado. E é nesse instante que o remorso, o sentimento da perda, é substituído pela alegria da imagem.

 

Que diferenças interioriza entre o jovem poeta que em 1972 escreveu A Noção do Poema, e o poeta que vê as suas obras serem premiadas e traduzidas em meia dúzia de línguas?

Não vejo muitas diferenças. O que acontece à minha obra não me preocupa muito, e é sempre com um misto de indiferença e de espanto que assisto ao percurso que ela tem vindo a conseguir através das traduções. Nunca fiz grande esforço para o conseguir, quase sempre são os tradutores que a descobrem e se empenham na edição. Mas reconheço que isso me liberta, e libertou sempre, de angústias que podem afectar outros poetas, talvez porque não me tenha empurrado para competições e guerrilhas que só impedem quem escreve de se dedicar a esse trabalho.


Fale-nos de si e principalmente do que faz no intervalo dos livros.

Habituei-me também a separar o sujeito real do poeta. O nome que aparece dos livros é uma criação, não direi heteronímica, mas dos próprios poemas que os constituem. No intervalo da poesia o que faço é ensinar, na universidade, e esse trabalho em que a literatura – e, por vezes, a poesia – ocupa um lugar central ajuda-me a reflectir sobre o meu próprio trabalho. Admito que, sem o investimento teórico e analítico nas minhas aulas, talvez não tivesse encontrado muitas das minhas formas e evoluções; mas distingo também os campos, e por vezes oriento a minha investigação em direcções que se afastam muito do meu próprio universo.
Também viajo com alguma regularidade, por obrigações da poesia ou da universidade, e essa actividade tem sido importante para descobrir cidades, museus, pessoas, que de outro modo não conheceria dado que nunca tive grande vocação para turista.

 

Que conselhos daria a quem começa a escrever?

Sobretudo, não aceitar conselhos.

 

Sabemos que Luís de Camões e Fernando Pessoa o influenciaram bastante. E no que toca a prosa? Que livro leu ultimamente que mais o tenha impressionado?


Quase diria, como Gore Vidal, que nenhum livro ultimamente me impressionou. Ele falava do Calvino como o último grande escritor a tê-lo marcado, eu não iria tão longe. O que é facto é que leio mais obras de teoria e crítica, além da História, do que propriamente de criação. Os últimos livros que li foram a biografia de Humberto Delgado – personagem trágico e fascinante que entra no meu romance «Vésperas de sombra»; e tenho duas outras biografias para ler, a de Naipaul («The world is what it is» de Patrick French) e a de Valéry por Michel Jarrety. Também acabei de ler um livro sobre a morte de Freud, com o episódio do seu encontro com Dali em Londres, e estou a ler «Yellow studio» de Stephen Romer, um poeta inglês que trabalha em Tours e que está a ser uma descoberta interessante.

 

Não resistimos à eterna pergunta: o que vem a seguir, Nuno Júdice?

O que vier virá. Não estou muito preocupado com isso. Começo a ter matéria para um novo livro de poesia, e tenho também uma novela a meio, ou quase no fim. Mas não decidi ainda qual dos dois projectos será o próximo.

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