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Folheando com... Miguel Real


Dividido entre o ensaio e a ficção

2006-09-13

No romance A Voz da Terra, Miguel Real descreve-nos as aventuras de Julinho pela cidade de Lisboa, antes, durante e depois do terramoto de 1755. Leia aqui a entrevista feita pelo Portal da Literatura ao escritor.



Fale-nos de si, Miguel Real: da iniciação à escrita, do seu primeiro livro, da influência que hipoteticamente a filosofia exerce na sua escrita.

Estou, de facto, dividido entre o ensaio e a ficção. Preciso de ambos, o primeiro como motor do entendimento, o segundo como prazer da sensibilidade. No entanto, desde Memórias de Branca Dias (2003) distingo claramente os dois planos. Desde então deixou de haver influência da filosofia no campo da ficção, o contrário dos meus primeiros livros. Adoptei o método de escrever simultaneamente um romance e um ensaio, vencendo a tentação de imiscuir a teoria na ficção e garantindo, assim, a independência de ambos os géneros.

Como é que surge a ideia de escrever este livro?

Por motivos académicos, fui forçado a estudar a cultura portuguesa do século XVIII. Quando dei por mim, tinha abundantes materiais sobre o terramoto de 1755. Um dia, no Brasil, não me lembro bem porquê, decidi escrever um romance sobre o terramoto, tentando sintetizar ficcionalmente o sofrimento de uma cidade de cem mil habitantes.


Houve certamente muita investigação neste romance. Que pesquisas fez e quanto demorou a escrever o livro?

Um ano de investigação e seis meses de escrita. A relação de passagem entre os dois momentos é a mais difícil, tão difícil que, não raro, se desiste. Habitualmente, o material carreado transforma-se numa montanha de documentos históricos, que a ficção não pode integrar na sua totalidade sob pena de ficar esmagada pelo rigor da História. No romance histórico tem de existir um equilíbrio harmonioso entre ficção e história, no qual a primeira confere unidade de forma e a segunda fornece elementos para o conteúdo.


Com o lançamento de A Voz da Terra houve alguma reacção inesperada dos seus leitores que nos queira relatar?

Fiquei surpreendido por ter já praticamente esgotadas duas edições. Mais me surpreendeu que o ensaio “O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa” tivesse esgotado a primeira edição em menos de um ano.


Sabemos que recebeu o Prémio Revelação de Ensaio Literário da APE e o Prémio LER/ Círculo de Leitores 2000. Que projectos tem em curso, o que é que vem a seguir Miguel Real?

Dois livros que serão publicados em Novembro próximo pela Quidnovi: um romance, “O Último Negreiro”, ficção sobre o último grande escravocrata português, Francisco Félix de Sousa, residente entre São Salvador e Ajudá, no Benim, e um ensaio, “O Último Eça”, sobre os últimos dez anos de vida de Eça de Queirós.


Como é que vê a literatura em Portugal? Há alguma obra que queira destacar?

No campo da ficção, Portugal atravessa uma idade de ouro, tanto editorial quanto autoral. Existe hoje cerca de uma trintena de romancistas que publicam regularmente com um mínimo de qualidade. O desaparecimento de grandes autores de anteriores gerações foi normalmente substituído, sem dramatismo nem hiatos culturais, por autores das gerações seguintes. Entre estes, salientaria as obras de José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares e Inês Pedrosa como três jovens romancistas cujos estilos marcarão indubitavelmente a ficção portuguesa da primeira metade do século XXI. Do mesmo modo, num campo etário superior, destacaria a obra de Francisco José Viegas.

Um grande abraço para os leitores do “Portal da Literatura”

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