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Notícias



Novidades Edições Colibri para Dezembro

07 Dez, 2018

Conheça aqui as novidades das Edições Colibri para o mês de Dezembro.

Mundo(s) – (Livro 2)
Coletânea da Poesia Lusófona – 20 Poetas
Coord.: Ângelo Rodrigues

Um agradecimento muito especial aos vinte autores que dão corpo, voz e alma ao Livro 2 desta nova coletânea poética das Edições Colibri. Bem hajam pela partilha e pela coragem de se exporem como poetas e, acima de tudo, como grandes humanistas e mulheres e homens de cultura e de bem. O vosso exemplo é inspirador e oxalá consiga comunicar ao Mundo que o Amor, a Beleza e o Bem é de facto o mais importante. Em nosso entender, estamos perante um conceito literário diferenciado, ousado e absolutamente necessário no sentido de se sensibilizar consciências para a grande importância da Poesia neste nosso conturbado e “mecanizado” Mundo.

 

No Comboio Ascendente – Contos e Contas Pendentes
Maria do Vale Cartaxo

No início era só esperança sumarenta, balbucios, perdigotos, risinhos, e a família encantada. De começo gatinhamos, a seguir caminhamos titubeantes em hesitantes passinhos trémulos após cambalearmos, depois andamos firmes, ora já avançamos rápidos, corremos e até saltamos, para logo adiante tropeçarmos e em breve encalharmos, e aí claudicamos: então a visão desfoca-se, a audição reduz-se, um músculo atrofia, um ombro dói, um braço magoa, um cotovelo emperra, as costas vergam, um joelho estala, uma perna encrava, um artelho trava, um pé resiste, uma mão desiste, um dente quebra, o cabelo encanece, a grenha escasseia, o pescoço afrouxa, o peito descai, o estômago dilata, a barriga lassa, a anca desmonta, a nádega amolece, o traseiro fenece, o tornozelo engrossa, a pele encarquilha, o rosto enruga, a digestão reluta, o fôlego encurta, a circulação escangalha, o coração destrambelha, a energia abranda e, após um outro cambaleio, novamente titubeamos em hesitantes passinhos trémulos, já que o corpo definha... e a memória enfraquece, o entendimento elanguesce, o raciocínio esmorece e a esperança desvanece.
... – Todavia, no futuro que nos está aqui tão perto, entre o raiar da alvorada e o tombar do ocaso, há um dia inteiro pela frente, e só ele importa: o que dele fazemos e até onde o levamos, como o iremos prolongar até ao seu limite, até ao último raio do sol poente...
"– ... para mim você é a Xerazade, e hoje eu não preciso de outro nome. Amanhã, veremos. Ainda que eu esteja bem longe de ser o Xariar, aquele sultão cruel e misógino, com a desculpa de ter sido traído – e já reparou que os misóginos sempre tentam arranjar uma desculpa para odiarem mulheres? E nunca, por nunca ser, se atrevem a perguntar-se por que teriam sido traídos. Mas comigo, você pode ser a Xerazade à vontade e sem quaisquer receios, pois nunca correria o risco – como a das "Mil e Uma Noites" – de ver cumprida a sentença de morte ao amanhecer.
- Esperemos bem que não. Porém, durante estas longas horas de viagem (do Algarve ao Porto) totalmente ociosas, arriscávamo-nos ambos à abjeta e mesquinha morte quotidiana que é o tédio (outra forma da "apagada e vil tristeza" camoneana), que reduz a nossa humanidade e nos aniquila a alma. Para não soçobrarmos à monotonia de várias horas sem nada que fazer e ao enfado daí resultante, essa chateza – uma mortezinha lenta, insípida e insonsa, pindérica e sem dignidade – é que eu me dispus a contar estórias para nos entretermos."

 

O Marinheiro de Fernando Pessoa – Heranças Clássicas no “Drama Estático”
Thiago Sogayar Bechara

Toda pátria, hoje sei, é também uma espécie disfarçada de argonauta. Como todo navio hasteia pelas vagas o sabor pátrio da sua bandeira. Como Odisseu não cessou de buscar regresso até sua Ítaca; como Eneias errou pelos mares até cumprir seu destino de fundar como Roma sua nova Tróia; como Vasco da Gama navegou para além da Taprobana que era o limite conhecido também das nossas almas; como o marinheiro da peça de Pessoa é modo de recriação onírica de uma nação em vias de se refundar, por sermos todos, ante a perspectiva da morte, pátrias inteiras sempre em busca de ressurreição na esperança baldada de compreender algo sobre o porquê de cá estarmos antes do naufrágio; como cruzei anônimo o Atlântico, também em busca de orientes, na terra de Amália – que também esta cumpriu Portugal, não num idealizado Quinto Império, mas na sua maneira concreta e eterna de fundir à voz o sentir profundo do seu povo, “que lava no rio”. Povo do qual Camões e Pessoa fazem parte soberanamente. E também lavam. Assim como a cada renascimento de nós, pomo-nos a velar nossos simbolismos já defuntos, e a velejar por pátrias totalmente reinauguradas após ganharmos e perdermos guerras – assim também se deu este livro. Sair do meu país para achar cá também a minha raiz é o mesmo que navegar do estatismo para o centro tectônico do movimento. 1755 particular. Do acomodado para o felizmente incomodado que me abala a cada dia as certezas e treina, com sismos, meu eixo de equilíbrio. Pelos conceitos de drama e páthos, tragicidade clássica e moderna, estático e extático e pela tensão vibrante gerada pela inevitabilidade de perguntas irrespondíveis – perguntas sagradamente malditas do Homem desde que sua consciência de si próprio fê-lo digno desse estatuto –, pude mergulhar como em tempos sonhava ter ensejo de fazer na homérica e “supracamoniana” obra desta pedra de Lisboa que foi e segue sendo Fernando Pessoa.

 

Os Joelhos do Meu Pai e Outros Contos
António Jacinto Pascoal

Quando descobri que contar histórias era falsear factos, confundir situações, evocar memórias falsas, percebi que apenas o que se escreve despojado de pose é genuíno: nunca me interessei por livros extensos, mas por livros bem escritos. No entanto, só recentemente entendi que livros bem escritos são insuficientes e que livros genuínos são bem melhores. Percebi igualmente que a diferença entre boa literatura e literatura genuína é esta: o que é genuíno engloba não só a qualidade, a realidade, a veracidade e a ficção, como, e principalmente, aquilo que, assumidamente falso, entendemos como outra verdade. O que é genuíno prescinde do realismo e da veracidade dos factos: o que é genuíno transcende tudo isso, e torna verdade aquilo que é ficção e mistificação, torna verdade aquilo em que se acredita. E ser-se genuíno, na escrita, é esta fé no que se escreve. Esta fé inexplicável numa verdade que se ama muito mais do que se prova. Um dos meus contos, aquele que dá título a esta antologia, tem tanto de verdadeiro como de falso, de realidade e possibilidade especulativa. Mas a prova de que é um texto genuíno foi ter-me comovido com ele, no momento em que o escrevi e, mais tarde, o reli. E, ainda melhor, quando o dei a ler às minhas três filhas, em datas diferentes, e cada uma delas não ter resistido a soltar o açude de lágrimas reprimidas pela tensão da escrita. Essa prova de fogo foi, para mim, o melhor julgamento crítico que alguma vez pudesse ser feito sobre a minha obra. E foi assim que intuí que poderia exprimir de uma forma peculiar a minha humanidade.
in nota introdutória do autor

 

Seja um Texto de Paixão
Fernando Belo

“O Ocidente e a Europa são, e apenas eles, no que tem de mais interior a sua marcha histórica, originalmente ‘filosóficos'. É o que atestam o nascimento e a dominação das ciências. É porque elas têm a sua fonte no que a marcha histórica do Ocidente europeu tem de mais interior, entenda-se o encaminhamento filosófico, é por isso que elas estão hoje em estado de dar à história do homem em toda a terra a sua marca específica.” (Heidegger)
Dois motivos ligam entre si os ensaios aqui reunidos, escritos e quase todos publicados na década de 90. Os primeiros nove andam em torno do motivo de texto e de escrita, da paixão de ler, escrever, pensar, compreender. Vão todavia abrindo neles o segundo motivo que ocupará sobretudo os cinco textos finais: os incalculáveis efeitos da Filosofia fora dela. Em última análise, é a Europa como modernidade que é o seu grande efeito.

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