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Poema e Poesia de Antero de Quental

Alma
Antero de Quental

Disputa em Família



Sai das nuvens, levanta a fronte e escuta 
O que dizem teus filhos rebelados, 
Velho Jeová de longa barba hirsuta, 
Solitário em teus Céus acastelados: 

« — Cessou o império enfim da força bruta! 
Não sofreremos mais, emancipados, 
O tirano, de mão tenaz e astuta, 
Que mil anos nos trouxe arrebanhados! 

Enquanto tu dormias impassível, 
Topámos no caminho a liberdade 
Que nos sorriu com gesto indefinível... 

Já provámos os frutos da verdade... 
Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrível. 
Não passas d'uma vã banalidade! — » 

II 

Mas o velho tirano solitário, 
De coração austero e endurecido, 
Que um dia, de enjoado ou distraido, 
Deixou matar seu filho no Calvário, 

Sorriu com rir estranho, ouvindo o vário 
Tumultuoso coro e alarido 
Do povo insipiente, que, atrevido, 
Erguia a voz em grita ao seu sacrário: 

« — Vanitas vanitatum! (disse). É certo 
Que o homem vão medita mil mudanças, 
Sem achar mais do que erro e desacerto. 

Muito antes de nascerem vossos pais 
D'um barro vil, ridículas crianças, 
Sabia em tudo isso... e muito mais! — » 

Antero de Quental, in "Sonetos"

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