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Poema e Poesia de Natália Correia

Sofrimento
Natália Correia

A Demiurgia do Riso

E cada vez que celebrei o
Deus Riso floresceu em mim
um novo invento.
 


Cortaram-me os pulsos. Eram feitos de ar. 
Correram-me as veias como linhas rectas. 
E nenhuma espada pôde atravessar 
O ímpeto aéreo das águas secretas. 

Partiram-me ao meio dizendo "é agora!" 
Depois atiraram metade para a lua. 
E eu no luar com um braço de fora 
Erguendo o meu resto caído na rua. 

Se havia uma estátua ela era o tamanho 
De quanta poeira à passagem erguia. 
E eu numa nuvem a ver o desenho 
E a cor duma mágoa que não me tingia. 

E os anjos à volta como círios tesos 
A desenrolar o seu tédio antigo. 
E eu desfraldada nos cumes acesos: 
Bandeira de tudo o que trago comigo.

em "Passaporte"

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