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Poema e Poesia de Alberto Caeiro

Poesia
Alberto Caeiro

Li Hoje Quase Duas Páginas

Li hoje quase duas páginas 
Do livro dum poeta místico, 
E ri como quem tem chorado muito. 
Os poetas místicos são filósofos doentes, 
E os filósofos são homens doidos. 
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem 
E dizem que as pedras têm alma 
E que os rios têm êxtases ao luar. 
Mas flores, se sentissem, não eram flores, 
Eram gente; 
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não 
eram pedras; 
E se os rios tivessem êxtases ao luar, 
Os rios seriam homens doentes. 
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios 
Para falar dos sentimentos deles. 
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios, 
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos. 
Graças a Deus que as pedras são só pedras, 
E que os rios não são senão rios, 
E que as flores são apenas flores. 
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos 
E fico contente, 
Porque sei que compreendo a Natureza por fora; 
E não a compreendo por dentro 
Porque a Natureza não tem dentro; 
Senão não era a Natureza. 

em "O Guardador de Rebanhos - Poema XXVIII"

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