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Poema e Poesia de Manuel Lopes da Fonseca

Vida: 
sensualíssima mulher de carnes maravilhosas 
cujos passos são horas 
cadenciadas 
rítmicas 
fatais. 
A cada movimento do teu corpo 
dispersam asas de desejos 
que me roçam a pele 
e encrespam os nervos na alucinação do «nunca mais». 
Vou seguindo teus passos 
lutando e sofrendo 
cantando e chorando 
e ficam abertos meus braços: 
nunca te alcanço! 
Meu suplício de Tântalo. 
Envelheço... 
E tu, Vida, cada vez mais viçosa 
na oscilação nervosa 
das tuas ancas fecundas e sempre virgens! 
À punhalada dilacero a folhagem 
e abro clareiras 
na floresta milenária do meu caminho. 
Humildemente se rasga e avilta 
no roçar dos espinhos 
minha carne dorida. 
E quando julgo chegada a hora 
meu abraço de posse fica escancarado no ar! 
Olímpica 
firme 
gloriosa 
tu passas e não te alcanço, Vida. 
Caio suado de borco 
no lodo... 
O vento da noite badala nos ramos 
sarcasmos canalhas. 
Não avisto a vida! 
Tenho medo, grito. 
Creio em Deus e nos fantásticos ecos 
do meu grito 
que vêm de longe e de perto 
do sul e do norte 
que me envolvem 
e esmagam: 
— maldita selva, maldita selva, 
antes o deserto, a sede e a morte! 

Manuel da Fonseca, in "Rosa dos Ventos"

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