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Poema e Poesia de António Gedeão

Cidade
António Gedeão

Poema da Memória

Havia no meu tempo um rio chamado Tejo 
que se estendia ao Sol na linha do horizonte. 
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia 
exactamente um espelho 
porque, do que sabia, 
só um espelho com isso se parecia. 

De joelhos no banco, o busto inteiriçado, 
só tinha olhos para o rio distante, 
os olhos do animal embalsamado 
mas vivo 
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes. 
Diria o rio que havia no seu tempo 
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte, 
onde dois grandes olhos, 
grandes e ávidos, fixos e pasmados, 
o fitavam sem tréguas nem cansaço. 
Eram dois olhos grandes, 
olhos de bicho atento 
que espera apenas por amor de esperar. 

E por que não galgar sobre os telhados, 
os telhados vermelhos 
das casas baixas com varandas verdes 
e nas varandas verdes, sardinheiras? 
Ai se fosse o da história que voava 
com asas grandes, grandes, flutuantes, 
e poisava onde bem lhe apetecia, 
e espreitava pelos vidros das janelas 
das casas baixas com varandas verdes! 
Ai que bom seria! 
Espreitar não, que é feio, 
mas ir até ao longe e tocar nele, 
e nele ver os seus olhos repetidos, 
grandes e húmidos, vorazes e inocentes. 
Como seria bom! 

Descaem-se-me as pálpebras e, com isso, 
(tão simples isso) 
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada. 

em 'Poemas Póstumos'

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