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Poema e Poesia de Guerra Junqueiro

Amor
Guerra Junqueiro

Evolução

Arde o corpo do sol, brotam feixes de luz: 
O que é a luz? 
Sol que morreu. 

Dardeja a luz, dardeja e pulveriza a fraga: 
Vai nesse pó, que há-de ser terra, 
A luz extinta. 

Gerou a terra a seara verde: 
Hastes e folhas da seara verde 
Comeram terra. 

A seara é grada, o trigo é loiro: 
Deu trigo loiro, 
Morrendo ela. 

O trigo é pão, é carne e é sangue: 
Sangue vermelho, carne vermelha, 
Trigo defunto. 

Em carne e em sangue, eis o desejo: 
Vive o desejo, 
De carne morta. 

Arde o desejo, eis o pecado: 
Que são pecados? 
Desejos mortos. 

Queima o pecado o pecador: 
Nasceu a dor; findou na dor 
Pecado e morte. 

A alma branca, iluminada, 
Transfigurada pela dor, 
Essa não vai à sepultura 
Porque é já Deus na criatura, 
Porque é o Espírito, é o Amor. 

Na vida vã da terra sepulcral 
Só o amor é infinito e só ele é imortal. 

Morreu a luz, pulverizando a fraga, 
Morreu a poeira, alimentando a seara; 
Morreu a seara, que gerou o trigo; 
Morreu o trigo, que deu vida à carne; 
Morreu a carne, que nutriu desejo; 
Morreu desejo, que se fez pecado; 
Morreu pecado, que floriu em dor; 
Morreu a dor, para nascer o Amor! 

E só o Amor na vida sepulcral 
É infinito e é imortal! 

Guerra Junqueiro, in 'Poesias Dispersas'

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