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Poema e Poesia de Fernando Namora

No casulo: 
uma mesa quatro cinco estantes 
livros por centenas ou milhares 
tijolos de papel onde as traças 
acasalam e o caruncho espreita 
sólidas muralhas de elvezires onde 
a rua não penetra 
uma máquina de escrever olivetti 
com a tinta acumulada nas letras mais redondas 
cachimbos barros estanhos medalhas fotos 
bonecos marafonas lembranças 
retratos alguns gente ida ou vinda 
gorros usbeques gorros bailundos leques 
japoneses arpões açorianos sinos de não sei donde 
ou sei esperem sinos da tróica em natais nocturnos 
marfins africanos óleos desenhos calendários 
feitiços da Baía a mão a fazer figas 
tudo do melhor contra raios coriscos mau olhado 
retratos dizia Jorge o de Salvador Júlio o da Morgadinha 
Berglin o cientista Kostas o dramaturgo 
e outros e outros 
Afonso Duarte o das ossadas pórtico 
destas lamúrias o sorriso sibilino e rugoso 
que matou no Nemésio o bicho harmonioso 
mais de agora o Umberto Eco barbudo 
a filtrar-me com medievismo os gestos tontos 
e outros e outros 
suecos brasileiros romenos gregos 
e ainda aqueles em que a Zita foi escrevendo 
a minha sina de andarilho 
Tolstoi patrono obcecante um pastor a tocar 
pífaro algures nos Balcãs sinais da Bulgária da Polónia 
da Finlândia sinais de tantas partes onde 
fui um outro de biografia aberrante 
sinais da minha terra também 
a minha de verdade e não as outras 
a que chamam minhas por distraído palpite 
o Lima de Freitas num candeeiro alumiando 
a mulher verde-azul em casas assombrada 
mestre Marques d’Oliveira num esquisso 
de alto coturno a carta de Abel Salazar 
que o sol foi comendo não se lendo já 
o que a censura omitiu 
aqui a China também representada 
um ícone de Sófia as plácidas cabras 
do Calasans o tinteiro de quando 
se usavam plumas roubaram-se o missal do Cicogna 
um almofariz para esferográficas furta-cores 
a caixa de madeira floreada veio da Rússia 
deu-ma a Tatiana sob promessa (cumprida) 
de a pôr bem em frente das minhas divagações 
anémonas nórdicas da Anne 
miosótis búlgaros da Rumiana 
o poster é alemão Friede den Kindern 
nunca pedi a ninguém a decifração 
dois horóscopos face a face 
cangaceiros nordestinos 
o menino ajoelhado do Tó Zé 
num gesso já sem braços nem rosto 
objectos objectos o pote tem as armas de não lembro 
                                                    [quem 
embora o nome que venha por de cima 
seja o meu e eu também no óleo carrancudo 
do Zé Lima há um ror de anos 
melhor não saber quantos 
o molde para o bronze é um perfil onde 
desenganadamente me reconheço 
tanta bugiganga tanto bazar tanto papel 
branco ou impresso uma faca para 
apunhalar alguém a cassete de poesias na voz 
da Maria Vitorino as esculturas astecas 
do Miguel medalhas medalhas outra vez lembranças 
agendas sem préstimo canetas gastas mais papéis 
letras miúdas ou letras farfalhudas 
depende da ocasião 
um livro de filigrana 
as paredes mal se vêem estantes copiosas já disse 
quadros em demasia e ainda 
as rendas de minha mãe em molduras destoadas 
ela no retrato de cenho descontente 
fitando-me até ao miolo dos desvairos 
o bordão de régulo justiceiro 
obliquando no trono de cactos 
amuletos africanos o mata-borrão que foi 
de um pide deu-mo o fuzileiro no pós-Abril 
uma bela cabeça de mulher do João Fragoso 
jarras de sacristia candeias de cobre 
sem pavio um samovar de madeira um samurai de 
                                              [veludo 
os painéis de São Vicente em miniatura 
a áurea trombeta do troféu lusíada 
de parceria com o Manuel Cargaleiro 
áureos pesados troféus o marasmo branco 
de Pavia na tela sem idade 
livros livros os correios não páram 
de mos trazer para maior sufocação 
cartas a granel por responder relógio não há mas ouço-o 
sem falhar um segundo há cordas cordões medalhas 
                                              [medalhões 
armas lauréis proibições 
perfumes em minaretes levantinos. 

Esquecia-me de uma coisa porém 
na gaveta um passaporte para a vida 
com data há muito ultrapassada. Caducou. 

               Porque será que nunca o revalidei? 

Em 'Nome Para Uma Casa'

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