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Uma carta a D. Amélia


Há muitos meses que a morte se concentra entre os meus demónios. É sobretudo uma voz que nega a esperança para disseminar, na sua possessiva eloquência, trevas por todo o lado. Essa voz envenena-me os pensamentos com imagens de sombra onde reina uma paz plena. A névoa da intenção suicida que tem por destino uma sepultura modelada em terra húmida, não me larga. E quer os meus instintos de amor, quer a minha aversão às intrigas mundanas, se afastam desta alma há muito desenganada das questões da fama, das falsas honrarias, e de toda a aparência de poder e êxito.
Nem a minha mulher nem D. Amélia irão perdoar o meu suicídio. Por instantes penso em Maria José, que me acompanhou nos tempos mais difíceis de Moçambique. Ela, que sempre me desculpou as excentricidades, as palavras desagradáveis, a falta de atenção e de cuidados porque achava que eu fora chamado para grandes coisas, será que irá conceder-me o seu perdão quando vir o meu cadáver? Esta dúvida sobressai, e traz-me algo mais, um enervamento mais subtil, uma culpa mais intensamente dolorosa que se ramifica no meu desespero.
Detenho-me um instante, com a cabeça virada para uma das janelas do clube, como se a minha mulher fosse aparecer. Claro que uma pessoa, mesmo a horas de cometer o mais definitivo dos actos, não está tão louca que não veja como foi dominada pelas forças malignas da melancolia. Mando vir um cognac para reflectir mais claramente, apesar de não querer ir para o outro mundo embriagado. Por uma imperscrutável lei do meu espírito, a deslealdade sempre me pareceu intolerável. Por isso parto, hesitante, mas altivo, sentindo uma dor indigna na sensação de que vou trair as duas mulheres que mais amei, seguro, porém, de que fiz o melhor que pude pelo meu país e que Portugal me virou as costas.
Por inacreditável que pareça, a partir de hoje, nunca mais entrarei na vida de ninguém, por isso preciso que o rei, a rainha e a minha mulher não vejam a minha morte como uma cobardia, uma fuga que demonstraria como havia perdido todo o juízo. Escondo os olhos nas folhas de carta que pedi ao empregado e espreito rostos de homens que se cumprimentam para me distrair destes pensamentos. As cabeças inclinam-se profundamente e erguem-se quase ao mesmo tempo. Sinto-me tão perto da morte que todos aqueles gestos banais de cortesia, os mesmo que tantas vezes repeti, me parecem ridículos.
Cautelosamente, estendo a caneta sobre a folha de papel em branco. Não levo mais de dez minutos a escrever a D. Amélia. Não há uma rasura nem uma única palavra borrada:
“Minha Senhora:
Perdoe-me Vossa Majestade e não me ache cobarde pelo que fiz. Mas ser tido em mau conceito, ser desprezado é mais do que posso. Não creio que o suicídio nestas circunstâncias não seja um direito. Minha Senhora! Vossa majestade nada perde senão um homem que no seu serviço fazia tudo e tudo era capaz. Mas não pôde ser. Paciência. Perdoe-me Vossa Majestade e reze por mim, se acredita que existe alma. Eu não acredito. Beijo as mãos de Vossa Majestade cheio como sempre de reconhecimento e dedicação. Seu maior criado. Mousinho de Albuquerque.”
Depois de escrever, sinto lágrimas a assomar-me aos olhos. Baixo a cabeça, ninguém pode vislumbrar esta fraqueza. Esta carta ilustra bem os caminhos tortuosos com que o amor contraria o amor. A única coisa que persiste chama-se saudade. Nunca aconteceu nada entre nós, mas os nossos corpos trocaram sinais de desejo, muitos mais do que o que seria permitido entre uma rainha e um súbdito. Era uma sensação atravessada por traços de dedicação, de culpa, um elemento inconfundível de nervosismo e uma pura e imaculada esperança sempre que nos olhávamos nos olhos. Há que reconhecê-lo, entre mim e D. Amélia a paixão era impossível, mas, por vezes, tornava-se perceptível. Recosto-me, abandono-me num certo estado de enlevo, em que me vejo a dançar com a rainha. Enquanto rodopiamos, dançam todas as janelas do salão dourado, todas as cortinas brancas esvoaçam sob um vento abrasador. No meio da valsa, as minhas mãos pousam na sua cintura e sei que vou beijá-la. O peito explode-me de ansiedade quando aproximo os lábios dos seus. Aquele beijo enche-me até ao último resquício do meu ser, sinto que morro e sou feliz. De súbito, a música interrompe-se e algures na minha mente emerge, como uma miragem, a expressão zangada de Maria José.
O momento de êxtase termina abruptamente. Não devia trair a minha mulher, nem em pensamentos. Imagino a dolorosa perplexidade de Maria José depois de ler o bilhete em que lhe peço perdão pelo suicídio. A dor tremenda que lhe cobrirá todo o corpo sobrepõe-se ao rosto querido de D. Amélia. As memórias do passado vão mais longe. Recordo o momento em que a pedi em casamento, a forma como ela perscrutara a minha sinceridade e a sua concentração, tentando não se confundir. Era praticamente uma criança quando de repente, pôs de lado o bordado e as suspeitas, soltou uma gargalhada e aceitou o pedido. Já na altura tinha uma certa presença, aquela preciosa segurança que lhe permitira enfrentar com a mesma sobriedade um salão na corte ou um hospital no meio do mato.
Chegou a vez de redigir a carta para a Maria José. Curiosamente, custa-me bastante mais justificar porque razão todas as minhas palavras irão ser devoradas pelo silêncio. Levanto a cabeça, esperando uma inspiração que não chega. Um tumulto de ideias comprime-se vertiginosamente na minha cabeça. Faço várias tentativas e outras tantas rasuras, rasgo várias folhas. A certeza de que o seu amor não foi suficiente para me manter vivo, irá magoá-la. Não é isso que pretendo escrever, mas é desta maneira que ela vai ler esta missiva. Quero apenas dizer-lhe que ela fez coisas maravilhosas, que é uma mulher forte e extraordinária. A urgência do tempo que se acaba enche de intensidade as últimas dedicatórias de ternura.
Lembro a tenacidade com que Maria José se batia pelos seus feridos quando ajudava as irmãs de S. José de Cluny, no hospital de Sangue em Gaza. A sua alegria nos momentos em que fui homenageado. Por vezes quase parecia honrar um Mousinho que apenas se assemelhava ao verdadeiro, tão elevado era o seu orgulho no marido. Esse outro Mousinho tinha grandeza, uma genuína inteligência e um honesto modo de pensar ao ponto de não o reconhecer de todo em mim.
Compartilháramos uma vida, a nossa única vida. Para além de todos os argumentos, para além de todas as súplicas, pressinto o olhar de condenação da minha mulher, os seus olhos cheios de lágrimas. Termino a escrita do bilhete para ela e começo a escrever ao rei. Com este limito-me a lamentar esta deserção com fórmulas banais. O rei não vai entender, mas também não irá perder muito tempo a examinar as minhas razões.
Meto os envelopes no bolso, pego no chapéu e esqueço-me de pagar. Na minha mente lateja uma só pergunta: “Porque custa tanto morrer se não custa nascer?” Não reconheço o chapéu, de facto não reconheço nada em mim próprio. No entanto, ajeito-me ao espelho, mas o homem que me devolve cegamente o olhar parece-se mais com um desconhecido. O meu coração segue com ele, mas está inteiramente vazio. O tempo desvaneceu-se do horizonte dos dias como a neve no degelo.

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