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Crítica Literária por Miguel Real


O ALENTEJO COMO UNIVERSO CONCENTRACIONÁRIO

2014-05-19

Carlos Campaniço (n. 1973) tem a sua obra literária dividida ao meio: os seus dois primeiros romances, Molinos (2007) e A Ilha das Duas Primaveras (2009) foram infinitamente superados pelos seus dois últimos romances: Os Demónios de Álvaro Cobra (2013, Prémio Literário Cidade de Almada) e Mal Nascer (2014, finalista do prémio Leya).

Entre o realismo regionalista de Molinos e algum experimentalismo literário de A Ilha das Duas Primaveras, Carlos Campaniço optou, nos dois últimos romances, pela construção atenta de personagens (sobretudo Álvaro Cobra, Albano Chagas e Santiago Bento/Barcelos) e pelo desenho de ambientes menos realistas e mais metafóricos (míticos no caso de Os Demónios de Álvaro Cobra e totalitários e claustrofóbicos, no caso de Mal Nascer).

Assim, libertando-se da sedução do realismo e do experimentalismo, o autor encontrou o seu caminho literário retratando o seu Alentejo de infância menos com a ajuda da razão e mais da imaginação. Face ao menor ímpeto de Maria Antonieta Preto, que não tem publicado nos últimos anos, quem sabe se Carlos Campaniço não será o novo cantor do Baixo Alentejo, prosseguindo o retrato realístico-poético desta região encetado por Ramado Curto na primeira metade do século XX e prosseguido por Manuel da Fonseca na segunda metade. O destaque dado por Carlos Campaniço à "Praça" central parece indiciar a continuação literária de igual destaque dado por Manuel da Fonseca a este topos, retrato sintético da totalidade da vila.

Em Mal Nascer, ora publicado, de intriga decorrida durante o período das guerras liberais do século XIX numa aldeia alentejana, o autor, desenvolvendo uma narrativa menos complexa do que a de Os Demónios de Álvaro Cobra, e abandonando a densidade narrativa deste romance estabelecida pelo imaginário popular, cruza um triplo enfoque (político, amoroso e psicológico) cujo resultado literário constitui o romance propriamente dito:

1. - Um enfoque político - o protagonista, Santiago, é um liberal (um "malhado", na expressão dos absolutistas) que regressa como médico à terra de infância, ocultando o seu verdadeiro apelido (Bento) e tomando o nome do padrinho lisboeta (Barcelos). Aqui, depara-se com uma terra parada no tempo, vivendo sob a mão de ferro latifundiária da família de Albano Chagas, dono e senhor da vila. Neste sentido, Mal Estar aponta igualmente, pela descrição de um universo concentracionário, politicamente fechado e mafioso, e pela morte de Albano Chagas, para o livro de G. G. Márquez, O Outono do Patriarca, embora sem a linguagem barroca deste. O tema do enfoque político é o mesmo: a cristalização pervertida de uma sociedade por via da expressão do desejo de um só homem, neste caso, o de Albano Chagas;

2. - Um enfoque amoroso ou a narração de uma história de amor. A família Chagas intenta casar a filha Maria Luísa com Santiago, que assim se tornaria o novo senhor todo-o-poderoso da vila, mas este apaixona-se pela camponesa bela e rude Sebastiana, sua ajudante no consultório médico. Maria Luísa condensa todo o universo social, histórico e político que Bento combate e odeia, isto é, o Miguelismo como a vertente mais tradicionalista e reaccionária da cultura portuguesa. Nem a fortuna de Albano Chagas, nem o legado do seu imenso poder político persuadem Santiago a desposar Luísa. A sua opção é pelo amor, e, ajudado por Amália, a única habitante que conhece a verdadeira identidade de Santiago, declara-se a Sebastiana... Vencerá o amor genuíno, mesmo contra o casamento de Sebastiana, ou vencerá o calculismo e a malícia? O leitor descobrirá lendo o romance;

3. - Um enfoque psicológico, o mais interessante e singular dos três, o que, verdadeiramente, confere consistência narrativa ao todo do romance. De facto, a tensão dramática de Mal Estar é conferida, na essência, pela biografia de Santiago, Bento em criança, Barcelos em adulto. A vida de miséria com a mãe, as violentações pelo padrasto, maioral de Albano Chagas, que mata a mulher à pancada, a morte acidental do filho varão dos Chagas, a chantagem feita por esta família sobre o pretenso segredo que Santiago deteria sobre a morte da criança Chagas, em contraste com Santiago adulto, médico e liberal, impossibilitado de revelar a sua verdadeira identidade devido à perseguição mortal que os "Corcundas" (os Absolutistas) lhe promovem em Lisboa, constituem o autêntico "sal da terra" do romance, descrevendo, por via de uma vida individual, o todo de uma pequena vila abandonada do tempo no Alentejo, fazendo-nos perceber o húmus social donde nasceu a revolta colectiva da população alentejana na segunda metade do século XX, o sangue histórico donde nasceu a Reforma Agrária.

Mal Nascer,

Casa das Letras, 191 pp, 13,90 euros.

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