loading gif
Loading...

A Opinião de Paula Mota


A Tua Promessa, de Camille Laurens

2026-10-26

Representamos o papel junto dos outros, tu, para dominares, eu, para ser amada; tu, para fazer da sua infelicidade a condição da força vital, eu, para fazer da sua felicidade a condição da minha. O teu ódio estendeu-se a todas as mulheres; a minha esperança, a todos os homens. Falhámos os dois. […] A ficção continuava a escrever-se, mas tu fingias na vida enquanto eu fingia num livro. Isso fazia toda a diferença.

Sabem quando uma pessoa é boa de mais para ser verdade? Pois, geralmente, é. Narcisismo é um termo com que me familiarizei apenas em adulta, mas em retrospectiva, quando me lembro de rapazes e raparigas que comigo ou com as minhas amigas tiveram relações tóxicas, gostava que alguém me tivesse chamado à parte e explicado o processo mental das pessoas que sofrem deste transtorno. Ou, então, que livros como “A Tua Promessa” já tivessem sido escritos e me tivessem aberto os olhos na altura, como tantas outras leituras o fizeram. “A Tua Promessa” é como um manual, está aqui tudo, passo a passo: o love bombing, a manipulação, a mitomania, a destruição do carácter e, em última instância, a violência psicológica.

Não és parvo a ponto de confundir o prazer com o amor, embora murmures sempre “Amo-te” quando te vens, para ligar a sensação e o sentimento, precisamente, e também para a tua parceira ficar mais descansada. “Amo-te” é um artifício infalível, não há melhor do que isso, nem sequer nos mais belos livros.

Para quem leu o livro anterior de Camille Laurens, “Menina”, encontra neste como que uma continuação, desta vez protagonizada por Claire Lancel, também ela uma célebre escritora, filha de progenitores egocentristas, mãe de Alice e de um bebé morto, divorciada de um homem infiel. Quando conhece Gilles, não por acaso um mestre bonecreiro, tudo parece um mar de rosas, até que deixa de o ser. É nessa altura que se quebra uma promessa e, consequentemente, a outra que dá origem a este livro.

Naquele dia, há sete anos, gracejáramos sobre a questão de saber se estávamos libertos de uma palavra dada a partir do momento em que o outro não respeitava a sua. Eu defendia que sim, que era como um contrato, um casamento, um acordo, que o incumprimento de um anulava o compromisso do outro. Ele diz que não, que o compromisso é connosco.

“A Tua Promessa” apresenta-se como uma análise de uma relação temporária e aparentemente feliz e, mais tarde, como uma desmontagem dos escombros da mesma. A nível de estrutura - fora a inclusão de poemas que, enfim, lamento, mas não o são - resulta muitíssimo bem, sobretudo quando percebemos o âmbito em que surgem as declarações da protagonista e dos seus amigos, mas não sendo as relações amorosas o meu tema preferido, creio que a primeira parte poderia ter sido abreviada. Quanto às lamechices desnecessárias na capa - “A voz que transforma o amor em palavras” e “O amor guarda memórias” – se forem leitoras/es incrivelmente românticas/os, elas servirão certamente de íman; no entanto, se o cinismo for o vosso veneno de eleição, vejam-nas apenas como um equívoco: o conteúdo comprova todas as vossas teorias derrotistas.

“Sofrer passa. Ter sofrido não passa.”

A Tua Promessa, de Camille Laurens, Particular Editora, Fevereiro de 2026, Tradução de Maria Ana Matta

Mais críticas literárias

Voltar

Faça o login na sua conta do Portal