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Raízes - Ana Margarida de Carvalho


Posologia: Ritalina, antes das refeições

2013-10-28 00:00:00

«Querida irmã:

 

Mando-te este mail para não te preocupares mais comigo. As vozes foram-se. Ou melhor, ainda estão aqui, sinto-as agora mesmo, mas são mansas, quase dóceis, às vezes penso que já gostam de mim. Falam-me baixinho até, para eu ouvir o coração e perceber que estou viva. São as minhas vozes, tenho-as, afagam-me por dentro, como um gato que me vem roçar as pernas, e molda-se, entrega o corpo inteiro ao desvelo, com aquela corcunda benigna que se ergue e desenrola, até ao último centímetro de cauda que ainda se enrosca, onda lânguida de pêlo.

Tricobenzoares em estado puro, antes da regurgitação.

Os gatos fazem festas com o corpo todo. Há pessoas assim. Que fazem festas com o corpo todo. As minhas vozes são assim, bolas de pêlo, tão macias que já não me arranham por dentro.

São as minhas vozes de estimação.

Duas vozes, de mulher. Aos pares, como nós.

Agora não se esganiçam como dantes, daninhas, escarninhas, iradas, estilhaçadas… Aqueles guinchos eriçados, acelerados, simultâneos relatos de futebol, sempre femininos e estrídulos, na minha cabeça, sempre à beira da histeria, desgovernados, mas, por favor, parem, porque é que nunca vocês as duas nunca param, a clemência de um golo por favor, uma pausa, nestes falatórios agudos que sobem de tom mais e mais e mais…

e eu não posso mais, irmã.

Agora percebo, a culpa era minha, não as sabia alojar, às vozes, na minha cabeça, e desenfreavam-se desavindas, as duas ao mesmo tempo, tumultos de vozearia por dentro de mim, numa aflição de animais encurralados num estábulo que arde. Aos coices.

 

Ou então aquele restolhar áspero de papéis, um rumor de folhas e folhas amarfanhadas com raiva, porque nunca era aquela a página certa, portanto era preciso folhear mais rápido, depressa, até dilacerar o papel, desfaze-lo em fiapos, despedaçá-los com os dentes, engolir-lhe as fibras e a celulose com as linhas e as palavras que gritavam pela garganta abaixo.


Eu sufoco, irmã, em engasgo de urros, em expectorações de bramidos roucos. Insanos.

Agora sinto-as, à noite, a caminhar, em zumbidos de vespas moribundas, vindas desde o fundo do corredor, a esgueirar-se por baixo da porta do nosso quarto, a marinhar pelas franjas da colcha, a chegarem já a rosnar sibilantes do esforço e da escalada, a arrepelarem-me os cabelos para se alojarem, cá dentro, as duas vozes da minha cabeça.

Agora já não preciso das gotas de Ritalina que a mãe me dava ao pequeno-almoço para me acalmar, os médicos prescreviam sempre Ritalina para concentrar os meus olhos errantes e hiperactivos, e estar sentada sossegada nas aulas, como tu, querida irmã, que pousavas os teus no quadro e copiavas o sumário. Mais Ritalina, não mãe, por favor, agonia as minhas vozes, arreliadas com a intrusão do metilfenidato nas suas altercações infinitas. Às vezes imaginava que as vozes eram gémeas idênticas como nós, a Rita e a Lina só que malquistadas como dois olhos estrábicos. A mãe nunca apreciou o nosso nascimento duplo, o mesmo DNA distribuído por duas irmãs monozigóticas, a Rita e a Lina – a mãe nunca gostou de redundâncias. Uma duplicação impertinente, duas células fendidas, algo tão acidental, para uma pessoa que estimava tanto o controlo.


Eu era a cópia defeituosa. Há sempre uma cópia defeituosa.   

Lembras-te, irmã, como ela detestava pleonasmos, por isso quando morreu não esteve com rodeios. Num momento tinha os olhos abertos, no outro tinha-os abertos na mesma, mas esvaziados de brilho.

Para onde vai o brilho dos olhos quando as pessoas morrem?

A Rita diz-me que são as luzes no tecto da piscina, quando a gente se punha a boiar, de barriga para cima, os ouvidos imersos, no intervalo das aulas de natação. A Lina enerva-se com estes momentos contemplativos, afoga-a, afoga-a, a mãe da berma da piscina a olhar-me com um ar sobressaltado, a cópia defeituosa.

Obrigada pela tua preocupação, mas eu estou bem. Desde que me deixaste sozinha no quarto, sozinha na piscina, sozinha no mundo, depois de casares, as vozes e eu enchemos a casa. Fico-te muito grata por mandares cá o teu marido para me mudar a bilha de gás… Apesar de eu ter pulsos fortes de tenista, músculos nos braços de lançadora de pesos, golpes fortes de espetadora de ferros, em torso de touro sangrento.

Se soubesses a quantidade de atoalhados que eu já pus a embeber o chão. Eu e as vozes rimo-nos muito hoje. Continua a intrigar-me para onde vai o brilho dos olhos que já morreram. Mas agora temos de ir descansar. Foi muita agitação para um dia só. Amanhã limpamos esta imundície toda.

Ah, a propósito, querida irmã, não esperes pelo teu marido para jantar.


Um beijinho cheio de brilhos de nós, as três».

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