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Raízes - Ana Cristina Silva


O amor do meu marido

2016-03-30

O meu marido abriu a porta da rua e o seu estrondo, ao fechar-se, estendeu-se até ao meu quarto. As botas vão subindo as escadas. Fazem ranger a madeira e o ruído propaga-se até ao palpitar do meu coração. Cada passo encena a cadência de um exército em manobras de marcha. Mais um degrau transposto e reduz a distância que o separa de mim. Passo a passo, a turbulência das botas vai-se afirmando num troar incessante e ameaçador. A minha casa é uma vivenda de dois andares, e, por instantes, deixo de o ouvir. Imagino que terá ido à cozinha. Mentalmente, passo em revista cada uma das minhas acções, as que fiz, ou as que poderei eventualmente ter deixado por fazer. Tento enumerar os gestos que poderão desencadear a sua fúria. Terei deixado alguma caneca fora do lugar? Haverá migalhas no chão? Todos os dias me esforço por evitar a cólera, por acalmar o seu ímpeto em me bater. Procuro a todo o custo não lhe dar pretextos. No entanto, tenho consciência de que é inútil. É sempre precário o equilíbrio entre o que está certo ou errado para o meu marido, entre o que ele quer e o que não quer. Por mais que tente acabo por confundir as coisas. A latitude da sua vontade muda de demasiado depressa para que consiga antecipar-me ao que ele pretende. A raiva que o domina torna-se livre para desferir os seus golpes no meu corpo. Quando acaba de me bater curva-se sobre si próprio. O rosto afogueado exprime uma espécie de cansaço selvagem. Os olhos brilham, atiçados pelo tropel furioso da emoção do poder.

Passo em revista tudo o que fiz depois do jantar. Arrumei a loiça no armário depois de lavada. Não deixei nenhum copo no lava-loiças. A sandes que ele come antes de dormir ficou arranjada num pires em cima da mesa. Ao lado, está um guardanapo, impecavelmente dobrado. Não me esqueci de colocar a sua cerveja no frigorífico. As migalhas do chão foram varridas e os bancos estão debaixo da mesa. Não há perigo de ele tropeçar. Então, apavorada digo para mim própria que não me recordo de ter verificado se o meu filho deixou algum brinquedo no chão.

Oiço-o de novo a subir as escadas que conduzem ao nosso quarto. Fecho os olhos. Encolho o corpo como se me pudesse esconder na rigidez de uma estátua. Comprimo o peito, tento ocultar-me num inaudível respirar. Ainda assim existo. Não sei como fazer para não ocupar espaço. Se fosse capaz de diminuir até deixar de ter volume, se conseguisse retirar-me de mim para ser completamente nada, tudo seria mais fácil. Mas não! Estendida nesta cama mantenho-me à espera de um punho desferido contra as minhas costelas. Para me disciplinar, ao longo dos anos, as mãos do meu marido transformaram-se em garras fechadas. As marcas negras do seu amor abandonaram há muito as palmas abertas, esquecendo os gestos de outrora em que os dedos ainda conheciam o toque das carícias.

Repouso o rosto na almofada à espreita, os olhos semi-cerrados. Acabou de entrar no quarto. O rumor daquele vulto a abrir a porta oprime-me os ouvidos e todos os sinais dos seus movimentos fazem soar um alarme. O meu marido acende a luz do tecto. Despe-se metodicamente sem olhar para mim. Tira a camisa e as calças. Dobra-as pelo vinco com perfeição. Coloca de seguida a roupa sobre a cadeira, parecendo conceder aos gestos a instabilidade do nevoeiro. De seguida, como sempre faz, derruba a cadeira com espalhafato.

“Puta de merda, pensas que me enganas”- grita ele. Não abro os olhos, mas um fio de transpiração escorre-me pela cara como uma lágrima. A voz do meu marido é forte, com picos de ódio. Não importa o que realmente diz, porque só deseja espancar-me.

Os olhos, o escuro a proteger-me sobre as pálpebras cerradas, são agora a única barreira entre mim e o meu marido. Dirige-se ao interruptor da parede para apagar a luz. Pelo canto do olho vejo que desferiu um pontapé na roupa que deveria vestir no dia seguinte. As peças esvoaçam pelo ar, descrevendo círculos até poisarem no chão. Amanhã, antes de ele acordar, tenho de passar de novo as calças e camisa a ferro. A roupa deverá ter um aspecto imaculado e sem nenhum vinco porque ele irá examiná-la peça a peça, em particular a camisa para ver se o ferro terá deixado o colarinho com rugas. Dirige-se agora para a cama e a distância vai diminuindo. Aproxima-se e senta-se à borda da cama. Calmamente, como se fosse dizer-me um segredo, debruça-se sobre mim.

Faz sempre isso antes de me bater. Mantenho os olhos fechados. Não lhe vejo a cara, mas imagino-o a sorrir de prazer com o meu pânico. Demora alguns instantes, faz quase sempre uma pausa, antes de me abanar como se eu fosse uma boneca. Mas hoje deitou-se. É quase um milagre. As molas do colchão rangem e depois relaxam, um ruído de descanso. Logo de seguida adormece e começa a ressonar. Mesmo os seus sonhos devem estar cheios de ódio. Às vezes chego a imaginar que sonha com novas maneiras de me agredir. Encosto-me o mais longe possível do meu lado da cama. Fixo o escuro da noite de olhos abertos, tentando manter-me acordada.

Recordo o dia do meu casamento. A cerimónia foi perfeita. Nunca imaginei quando a mão do meu marido se estendeu para agarrar a minha ao pé do altar, que, um dia, essa mão só seria reconhecida pelos seus ímpetos de fúria. Estendi a minha mão para agarrar na dele. Não podia ter adivinhado que aquela mão triunfaria sobre mim, batendo-me, esmurrando-me, abanando-me até eu ficar estatelada no chão. Aquela mão poisada sobre a minha durante a cerimónia celebrava comigo um pacto de morte. A mesma mão com que ele me enlaçou para me beijar após o “sim”, a mesma mão que me conduziu a dançar uma valsa diante de todos os convidados, a mesma mão que segurou na minha para cortarmos o bolo, é a mão que o meu marido usa para me ameaçar: “Se desobedeceres ao teu Senhor, mato-te”.

Tímidos raios de sol vão deslizando como serpentes pelas frinchas dos estores. Amanhece. A cor da aurora é para mim uma cor fúnebre. Pouco dormi. Levanto-me com cuidado para não acordar o meu marido. Apanho a roupa que ele espalhou no chão, furtivamente. Vou passá-la a ferro antes que acorde. Quando ele abrir os olhos a roupa estará pronta e o pequeno-almoço na mesa. É assim todos os dias. Por isso, a luz da manhã vai-se espalhando como um tempo de crepúsculo.

 


Em homenagem às 29 mulheres mortas por violência doméstica em 2015.

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