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Raízes - João Leal


Excerto de «Terra Fresca»

2016-07-01

Sobre a montanha de ar fresco, o branco puro de nuvens altas recortava o azul numa lentidão de grande distância. Amélia desejou estar lá em cima, numa bolsa de silêncio em que a sua identidade não existisse. Bastariam uns minutos, ela a sós com o vento, longe o suficiente para ver tudo com a calma e frieza que a pareciam ter abandonado.

Os dois últimos anos tinham sido terríveis. Ao educar as raparigas para a liberdade, permitira-lhes a possibilidade de revolta que, no caso de Teresa, tinha sido alimentada por todo esse incrível número de livros que viriam a tornar Amélia só mais um entre os muitos mundos da filha. Passara, aos poucos, a ser uma espectadora da vontade férrea de Teresa em se tornar escritora. Era uma obstinação que não parecia permitir qualquer contraditório e que fora a razão principal para nunca lhe ter contado que nascera com o braço inerte. O interesse da filha por tudo o que fosse diferente, essa procura de episódios fora do comum, a eterna demanda por boas histórias e a forma como estas reverberavam, fizera com que Amélia omitisse tudo, desde a fita benzida em Jerusalém à participação sobrenatural da mística Alexandrina. Sequiosa por encontrar um significado maior para a sua existência, um selo de singularidade que certificasse o seu estatuto de artista, ao conhecer esses factos extraordinários acerca de si, Teresa poderia vir a enveredar por um caminho sem retorno. Talvez um dia, quando ela fosse uma mulher madura, e a pretensão intelectual desmesurada já a tivesse abandonado, lhe pudesse contar tudo.

Ligou o motor e iniciou a descida da montanha. Estava a oito horas de casa e seria esse o tempo qua a passaria a separar das duas raparigas. Desviava-se do centro da sua vida e o próximo par de anos iria ser um longo deambular pela periferia, cuja vastidão iria agora começar a cartografar. Tinha quase 40 anos de idade. Ainda teria curiosidade para explorar novas coisas? Os negócios tomavam grande parte, mas não queria que a totalidade do seu tempo. Vira isso acontecer com o seu pai, a cada minuto do dia escravo e senhor dos seus investimentos.

A viagem seria longa e pensava agora que deveria ter pedido a Roberto que a acompanhasse para conduzir. Embora o mais prático, no momento de decidir não achara sensata essa possibilidade. Roberto e Maria tinham vindo a aproximar-se aos poucos e Amélia sabia que se ela não fosse a filha da patroa, e ele o caseiro, era provável algo já ter acontecido. Contra as suas expectativas, a conversa com a filha adotiva acerca do assunto não tivera o desfecho esperado. Pela primeira vez, Maria manifestara a sua vontade, recusando afastar-se e sendo bastante clara acerca do tipo de sentimento que a ligava a Roberto.

Todas estas preocupações serviam de entretenimento a Amélia e eram como que uma cortina de fumo para o que não queria encarar: a possibilidade de a tuberculose levar uma das suas filhas.

Todavia, seria uma outra forma de sofrimento que chegaria, não logo, mas a dois meses do final da terapia. A forma aguda dessa dor iria fazer Amélia pensar muitas vezes que teria sido melhor a morte do que os dias de aberração que as passariam a consumir.

 

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