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Raízes - Joaquim Murale


Todas as árvores dão sombra

2018-02-15 10:31:09

O rapaz parou na frente do portão de ferro com os cães a ladrar do outro lado. A casa ficava ao fundo do caminho, uma casa velha envolta por arvoredo, sombria como um dia enevoado. O portão rasgava um muro alto que corria ao longo da propriedade encimado por agulhas de vidro e arame farpado de aspecto intimidatório.
— Que queres daqui?
— Trabalho.
O rapaz sentiu-se olhado de cima a baixo. Por fim, o outro mandou calar os cães e abriu o portão. O caminho até à casa foi percorrido sem perguntas, o visitante atrás e, a toda a volta, uma guarda de honra de cães ameaçadores.
— Com que então, queres trabalho…
O visitante acenou afirmativamente com a cabeça. O homem que tinha na sua frente examinava-o com um olhar desconfiado. Rondaria os sessenta anos, de compleição forte e modos brutais. Sentava-se numa cadeira larga e fumava lentamente enquanto completava o exame cuspindo para o chão. Atirou para longe a beata acesa e continuou:
— Que idade tens?
— Quase dezanove.
— Dezanove!... — E quedou-se num prolongado mutismo de olhos brilhantes, incómodo, agarrado ao corpo franzino expectante. Um e outro enfrentaram-se demoradamente, com o silêncio de permeio estabelecendo as cláusulas do acordo.
— Nunca vi a tua cara. Não és daqui…
— Sou de longe. Tenho andado por onde calha.
Estava escuro no interior da casa. Uma janela entreaberta deixava passar uma estreita nesga de claridade que se diluía na sujidade das paredes.
— Trabalho há muito, dinheiro é que não tenho. — E o velho fitou o rapaz de forma autoritária, quase ao ponto de lhe impor que acreditasse. — Trabalharás pelo pão e pela cama. Farás o que for preciso, a qualquer hora, dia ou noite. — Rematou: — A idade não te dá direito a desculpa, serei exigente contigo e não serás poupado a esforços. — E, fitando o rapaz em tom de pergunta: — São estas as condições.
— Estou pronto. Quando começo?
— Chico! — Ao berro do velho a porta abriu-se e o homem do portão entrou com dois cães atrás. — Este é o novo empregado. Vai ensinar-lhe os cantos da casa e dizer-lhe o que tem de fazer.
As silvas e as roseiras bravas haviam tomado conta do que fora um antigo jardim. Situado nas traseiras da casa, era agora um lugar de desolação onde os recantos para repouso e as ruelas entre os canteiros haviam dado lugar a mato denso e forte crescendo por toda a parte.
Um pouco mais afastado, prolongando as ruínas do jardim, destacavam-se à vista as ramadas de um pomar. Invadido por toda a espécie de ervas daninhas que quase escondiam por completo o tronco das árvores mais baixas, revelava no entanto vestígios de algum cuidado, porventura ditado por razões de maior proveito. Os frutos eram escassos e raquíticos, prenúncio de que o fim não viria longe.
Samuel arrancou um daqueles frutos engelhados e apertou-o na mão sem conseguir esmagá-lo. Assemelhava-se a um objecto de borracha, flácido, descaracterizado, sem seiva.
— Dormes aqui. — E o capataz apontou-lhe um canto da cavalariça, no extremo oposto da manjedoura onde duas mulas estavam presas. Embora não fosse agradável dormir nas noites de verão sobre a palha quente, Samuel encolheu os ombros.
Dois carvalhos de grande porte faziam uma sombra enorme e proporcionavam abrigo a ruidosos bandos de pássaros ocultos pela folhagem. A sua imponência ofuscava as figueiras e os eucaliptos dispostos ao correr da frontaria daquela casa de um só piso. Ao centro ficava a zona de habitação, ladeada pela cavalariça a uma ponta e, no outro extremo, pela arrecadação das alfaias. Arados, charruas, grades, ancinhos, enxadas, encontravam-se ali a enferrujar e em quantidade tão grande que dava clara indicação do movimento de outrora.
— Aqui tens tudo o que precisas. — O capataz só falava o indispensável. Samuel reparou na empena, rasgada de alto a baixo, por um raio talvez, avisando ruína iminente.
— E aqui? — perguntou o jovem quando passavam defronte duma porta larga e alta. O capataz olhou-o de mau modo mas não respondeu e abriu a porta. Samuel espreitou para o interior. Vários carros de tracção, para um e dois animais, destinados a transporte de cargas e um trem encontravam-se ali a apodrecer, meio desconjuntados já, decerto saudosos dos tempos de antigas viagens.
A velha Dolores pouco mais fazia do que os trabalhos de cozinheira. Arrastava-se pela casa, impotente para fazer face ao desarranjo que o tempo ia acumulando.
Era bizarro o aspecto da mesa quando os quatro se juntavam ao almoço e ao jantar: um jovem, quase imberbe, ladeado por três velhos inválidos e aranhas remendando e acrescentando as teias aos cantos da casa num cuidadoso vaivém. Só as colheres batendo no fundo dos pratos não deixavam que o silêncio fosse absoluto. A porta estava sempre aberta porque as aranhas zelavam para que não houvessem moscas e outros insectos no interior.
O capataz comia com a mão esquerda. O braço direito pendia-lhe ao longo do corpo, sem vida. — Foi o coice duma mula. Aquele bicho era um demónio! O patrão, claro, não se ralou, até que um dia a besta lhe fez o mesmo. É por isso que ele coxeia. Abatemo-la logo a seguir.
Eram três velhos à espera da morte numa casa onde a morte se ia instalando aos poucos.
À mesa não falavam de trabalho nem era, rigorosamente, necessário. Só o jovem dispunha do vigor indispensável para mudar o rumo natural das coisas e, diga-se, fazia-o criteriosamente, segundo as prioridades que ele próprio definia como sendo as mais acertadas.
Os cães sentavam-se à volta dos comensais na expectativa de disputar os ossos ou côdeas de pão que da mesa fossem atirados.
O reumático e a fadiga haviam vergado o corpo e a beleza de Dolores. O corpo arqueado usava agora uma expressão sofrida, impaciente, em lenta decomposição.
Samuel notou os olhares que ela lhe deitava, estranhos, talvez temerosos. — Que vieste fazer aqui? — perguntou-lhe ela um dia de surpresa. — Não enganas ninguém; a tua cara é a cara da tua mãe. Vai-te enquanto é tempo. Aqui ninguém poderá valer-te.
Era enorme o empenhamento do jovem. Começou por consertar a empena aberta. Tapou o rasgão como soube, com pedras e com cimento. Quando o Outono chegasse e com ele as primeiras chuvas a ruína não chegaria.
O entusiasmo vê-se nos olhos e no esforço dispendido sem cansaço. Aos poucos o pomar foi regressando à vida. As ervas foram ceifadas, a terra foi revolta e estrumada, as raízes sedentas beberam e as folhas perderam a palidez.
— Um ano mais e os frutos terão o gosto doce do suor.
Nas horas mortas de repouso Samuel procurava a sombra duma árvore. Ficava tempos intermináveis a olhar a cor azul do céu sulcada pelo voo desajeitado dos pardais. Era como que a visita dos enigmas do universo ou, tão-somente, o desejo de não ter de ouvir perguntas a que quisesse escapar. Para quem olhasse de longe, estava apenas adormecido.
Naquela tarde, sentado junto do tronco duma nespereira, Samuel estava tenso. Aproximava-se a hora de assumir os seus compromissos. Por momentos invejou aqueles que, no medo de serem livres, se entregam à invenção de deuses com os quais estabelecem relações de dependência. Samuel estava decidido a não ser escravo dos seus medos porque a obediência à fraqueza, ainda que mascarada com uma capa de divindade, o expunha à mercê do dedo acusatório da sua própria consciência. Seria fácil de mais deixar-se ficar sob a nespereira e permitir que esses deuses decidissem sobre o certo e o errado.
Samuel olhava as maçãs vermelhas, arredondadas, com a pele brilhando ao sol, quando ouviu aproximar-se, atrás de si, o passo arrastado do patrão. Quando os passos pararam não se voltou.
— Vieste para me matar…
Voltou-se então. Fixaram-se longamente até que os olhos do velho se desviaram para o chão. De repente foi como se nada existisse, nem sol, nem frutos, nem aromas. Samuel viu o velho afastar-se devagar, vencido, com as dúvidas transformadas em certeza.
Os frutos estavam ali, pendentes, perfumados, mas o jovem não conseguia fixá-los. A voz do velho repetia-se-lhe nos sentidos: calma, conclusiva, inevitável, estranhamente sem rancor, sem ódio, sem ameaça, sem sinais de qualquer temor. Como alguém serenamente à espera duma morte previamente anunciada.
Quando o jovem voltou para casa encontrou Dolores e o velho capataz de pé, imóveis, à porta da cavalariça. Quando passou por eles, ambos baixaram os olhos. Entrou. Da viga central, com uma corda atada ao pescoço, pendia o corpo do patrão. Os cães guardavam o morto, estendidos, em tensão, e os focinhos colados ao chão ganiam a espaços. Samuel não estremeceu, nem sentiu pena. A crueldade daquele homem fora culpada da morte de sua mãe. Engravidara-a ainda jovem, quando criada da casa, rejeitara-a de seguida e expulsara-a quando recusou abortar. Não conseguia sentir o menor afecto pelo homem que se negara a ser seu pai.
— Isto estava em cima da mesa. É para si. — O tratamento do capataz era, agora, de submissão. Estendeu-lhe um envelope. No interior, Samuel encontrou um testamento em que o defunto lhe legava todos os bens, a terra e as casas que detinha. Nem uma palavra mais. Fechou o envelope devagar e deixou-o cair ao chão:
— Vou juntar as minhas coisas e partir.
— Não, Samuel, por favor, fica… — A velha Dolores, suplicante, agarrou-lhe um braço: — Que será de nós se abandonares estes dois velhos?
Samuel parou e olhou-a demoradamente. Havia dor nos olhos da cozinheira. Aceitou o abraço dela, longo e agradecido.
— Em todas as almas, mesmo nas mais cruéis, pode haver um momento de decência. O que o matou foi o remorso de ter desperdiçado a possibilidade de ser teu pai. — A voz de Dolores chegou de mansinho quando Samuel inspeccionava as árvores de fruto. A velha continuou:
— Tens a alma da tua mãe, grande e generosa. Dele herdaste a força para pôr tudo ao teu jeito. Quem não teria orgulho de um filho assim!...
Samuel pegou nas mãos de Dolores:
— Que sabes tu dessas coisas se nunca tiveste filhos?... Anda, o sol está forte; vamos para casa.
Caía a tarde.

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