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Raízes - Tiago Salazar


TOURO ENRAIVECIDO

2018-02-22 11:09:18

Carta ao Pai

Estava na cama, como estou muitas vezes depois de acordar, no limbo entre o sono e o sonho, e pensei o que penso muitas vezes, sobretudo quando o meu filho me aparece com cara de grou mal disposto. Pensei o que é a relação de pai e filho e se o sangue importa. Lembro-me de ti com o teu pai, e como lhe eras devoto. E enquanto crescia era isso que queria para nós, uma relação como a tua com o teu pai. Lembro-me quando dormias no divã da casa da Leite Vasconcelos e o consolo que me dava ir acordar-te, tocar-te na pele, dar-te beijinhos. Lembro-me de te admirar por seres forte e teres voz grossa, e de crescer com a ideia de um pai destemido que me iria aparecer sempre que estivesse frágil, doente ou em apuros. Lembro-me de outras coisas, como aí pelos 12 anos estar a olhar-me ao espelho vaidoso por ter um rol de namoradas e por a pila me ter crescido mais uns centímetros. Houve coisas que nunca percebi, como porque tinhas sempre que aparecer com namoradas e falar dos teus feitos. Ou de um dia me teres dito que um homem é uma ilha. Mais tarde, quando pensei nisso, imaginei-te numa grande solidão. Gostava de ter falado contigo sobre isso, sobre o teu pai, sobre porque foste meu pai, porque dizes que foste tu a querer que eu nascesse quando tudo indicava que era um erro de juventude. Agora já nada disso importa. Devo-te esta vida, e se eu gosto dela, mesmo que tema a morte, como todos tememos, mesmo os que dizem que não. Esse buraco negro onde o ser passa a nada. Um dia zangámo-nos e foi dos dias mais tristes da minha vida. Pensei no Salvador Dalí que ofereceu ao pai um saco de esperma e lhe disse “isto é tudo o que te devo”. Na verdade, cruamente, é isso a nossa história de pai e filho. E só deixa de ser isso quando um pai está disposto a dar a vida por um filho. Quem no seu egoísmo está preparado para isso? Tu andaste na guerra e isso deve ter sido o mais próximo que um homem pode estar de um animal. Matar ou morrer. A lei do mais forte. E isso, imagino, perpetua-se como uma gangrena no espírito. Nunca vou saber o que é - é o mais certo. As guerras da minha geração são outras, como a de entender e aceitar os pais que foram à guerra e se perderam na vida. Imagino-te como alguém que venceu na vida, não como um perdedor. Imagino-te como um homem corajoso, frontal, anarquista à tua maneira, corajoso a ponto de se marginalizar. Fiz de ti um alfarrabista, um livreiro, no meu romantismo de ter um pai admirável. Fiz de ti o “Touro Enraivecido”, o Jack, La Motta, como se aí estivesse o meu próprio espelho, inevitavelmente partido.

Admiro o teu instinto de sobrevivência e liberdade e acho-me próximo dele. Agradeço-te ainda a força que tenho na verga e não posso dizer-to de outra maneira, porque é aquilo que mais me faz sentir vivo, como se quisesse morrer no acto quando fornico, já que tem que ser. Imagino que seja esse o teu sexo ou que tenha sido muitas vezes. Pouco falámos e a vida afastou-nos. Não és de grandes conversas. Parece que estás sempre de partida com algum encontro marcado mais importante. No outro dia, quando te quis a falar sobre a ideia que tens de mim para o programa de televisão, onde falei sobre ti como o meu primeiro tutor literário a par da minha avô, a quem devo muito do que sou, era para ver como falarias de mim, já que nunca te ouvi dizer nada, a não ser que sou um sagorro. Sabes, eu nunca tive uma mesada. Mas por um lado ainda bem. Foi isso que me refinou o instinto de sobrevivência, e a noção de que ser generoso de verdade é para muito poucos, que somos condicionados na nossa grandeza por essa falha do gene egoísta, eu incluído. São os filhos que mais nos ensinam. É aqui pela primeira vez que aprendo isso, e continuo a falhar. Gostava de ter um pai a quem escrevesse e me escrevesse de volta, sem minas e armadilhas, sem truques, sem outras intenções a não ser falar do que possa ser a alma e o amor incondicional. Porque afinal parte da incógnita está aqui, nesta ligação, que não sabemos explicar porque a vida ultrapassa o entendimento. Gostava de ter um pai com quem falar de tudo, de igual para igual. Um pai filósofo. Não um pai provedor. Para isso há a auto suficiência. Um Pai. Foste o pai que podias ser. Fui o filho que consegui ser, e acredita que até ao fim sempre te procurei como alguém inspirador, apesar de todas as contradições, apesar de seres indecifrável, apesar de muitas revoltas por ter que me fazer à vida desde cedo, sem saber ler nem escrever como se habitasse num ringue.

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