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Raízes - Miguel Real


(O 25 DE ABRIL)

2019-04-16 15:55:48

Rachando o alcatrão, massas esverdeadas de ferro, de mira apontada para a madrugada, sulcavam as ruas irregulares de Lisboa, escoltadas por cáfilas desordenadas e esfuziantes de braços endemoninhados, gargantas ululantes festejando a Revolução, viva a revolução, viva a revolução, viva a revolução, clamava-se, os tanques cobriam-se de mãos ofertando cravos vermelhos aos soldados, que, desarvorados, as mãos libertas, prevenindo possíveis ataques, os depunham na ponta das espingardas inactivas, empregados de escritório recatados faltavam ao trabalho, soltando impropérios velhacos contra antigos patrões, caixeiros de armazém, despidos das batas azuis de ganga, juravam vingança sobre humilhações recalcadas, um oficial das finanças, atarracado e corcovado, vociferava de punho alçado e pernas tensas contra o malvado capitalismo, filho da injustiça e neto da opressão, pai da desigualdade, bancários pernaltas e janotas, de calças à-boca-de-sino, ameaçavam entregar o dinheiro da “caixa” ao povo explorado, professores, de boca salivada, óculos pretos quadrados e longa cabeleira suja, praguejavam contra os reitores dos liceus, hospedeiras da TAP denunciavam os comandantes, relembrando abusos na pernoita de hotel, operários siderúrgicos, as mãos apretalhadas de fuligem, sequestravam os administradores em salas alcatifadas, apaineladas a folha de nogueira, furtando-lhes o uísque e o gim do minibar, jornalistas descobriam inesperadamente a verdade, expondo-a em títulos matinais para educação do povo, cobradores de impostos recusavam receber o dinheiro dos contribuintes, reclamando justiça do Estado, soldados despromoviam capitães e capitães generais, alunos ocupavam a sala de aula, operários as fábricas e famílias casas vagas, sindicalistas apoderavam-se do aparelho produtivo e comissões de trabalhadores de indústrias e máquinas, ceifeiras invadiam propriedades agrícolas e os passageiros autocarros, comboios e cacilheiros, reivindicando-os para o povo, doentes controlavam os hospitais, professores as escolas, trabalhadores as empresas, soldados os quartéis, marinheiros os navios, mercantes e de guerra, e o povo todo o país, Portugal era do povo como o ar do céu, a água do mar e as árvores da terra.

Os lojistas, tementes, baixavam os preços da fruta, nada cobravam por um quilo de ameixas-de-Santo-António, o feijão catarino e as batatas-de-hortelã uma coisa de nada, receando que as mães do povo lhes invadissem os cubículos, os comerciantes de roupa ofereciam dois fatos cinzentos com camisa branca e gravata a quem comprasse um, ninguém comprava, fatos cinzentos ninguém comprava, abundantes livros desmascaravam as artimanhas do capital, outros os argumentos capciosos da Igreja e muitos a perfídia repressiva do antigo regime e dos seus capangas, os jornais identificavam assim os funcionários da ditadura, “os capangas”, perseguidos por becos e azinhagas, presos alguns, não maltratados, sacavam-lhes o cinto, as calças tombavam, mostrando cuecas brancas compradas aos pares nos Armazéns do Conde Barão, cidadãos inocentes exibiam o seu retrato no “Diário de Notícias”, garantindo não terem sido torcionários da Legião nem informadores da polícia política, os loucos de Lisboa, estimulados pelo alto vozear ininterrupto da cidade, ocuparam o Miguel Bombarda e o Júlio de Matos e destruíram à machadada os aparelhos de descarga eléctrica por que se tinham sentido torturados, os bancários, reunidos, afiançavam que o dinheiro era do povo e o banco deles, os tuberculosos ocupavam os sanatórios, os escritores as editoras e os jardineiros reivindicavam os jardins e os relvados para si, prometendo flores populares, nada de orquídeas e flores-de-lis, o cravo era o rei da Revolução e a rosa a sua rainha, jurando oferecer a cada família de Lisboa, pelo Santo António, um pé de manjerico e outro de sardinheira, os tipógrafos apoderavam-se das Minervas e despejavam os patrões na rua, as mulheres invadiam as lojas de moda da Baixa e rasgavam os vestidos de Paris e Milão e os chapéus floridos de Londres, nas fachadas brancas das igrejas das aldeias passavam-se O Couraçado de Potenkim e A Revolução Vermelha, jovens actrizes, de instinto no sangue, desnudavam-se nos teatros, apelando a orgasmos contínuos e colectivos, os carecas reviam a calva luzidia na superfície branca da lua e presumiam-se injustiçados por Deus ou pela Natureza, tanto cabeludo pelas ruas de Lisboa e logo nós, pelados como um ovo, olhados de lado pelas jovens actrizes, temos de nos contentar com as prostitutas, estas, em nome da solidariedade sexual, ofereciam uma borla aos clientes das quintas-feiras à noite, os magalas da Revolução gozavam de privilégios, passavam à frente e podiam voltar de madrugada, para uma segunda vez, bêbados, a cheirar a sardinhas fritas e carapaus de escabeche, as mulheres ordenavam aos maridos que lavassem a louça do jantar, a do almoço era com elas, e levassem os filhos à escola dia sim, dia não, os ateus condenavam os crentes, boicotando as missas com megafones potentes, traulitando cantigas do José Afonso e poemas do António Aleixo, os mineiros de Mértola e da Panasqueira exigiam respiradouros suplentes para desceram às profundas da terra, os pescadores condoíam-se da garoupa e do cherne, escassos, e devolviam-nos ao mar, junto com tartaruguinhas apanhadas na rede, vingavam-se na sarda, na sardinha e no sardão, espécies abundantes e populares, criadas por deus para os pobres, os escoteiros laicos boicotavam os acampamentos dos escoteiros religiosos, os empregados de seguros seguravam tudo, o recheio que havia e o que no futuro haveria, quando o núbil casal adquirisse a prestações a máquina de lavar roupa, o fogão e o frigorífico na Fundição de Oeiras, desprezando o ferro germânico, os joalheiros, os ourives e os pratives cavavam fundas covas negras, escondendo os seus preciosos haveres em sacas de serapilheira estufadas em algodão-em-rama, os presos colaboravam na administração das prisões e as comissões de moradores tinham invadido as esquadras, assegurando que a polícia era do povo e os militares o braço armado da Revolução; o Governo, pasmado e embaraçado, concedia o que lhe exigiam, subsídio para nascer e para morrer, para casar e para enviuvar, ajuda na doença e na velhice, na orfandade e na interioridade, da Madeira pediram milhões para aquedutos e viadutos, dos Açores outros milhões, para escolas e hospitais, os cantoneiros das estradas foram transferidos, abriam valas para acolher os canos de esgoto e covas para os postes de electricidade, casas de banho e luz para toda a gente, a água borbulhava nas torneiras e o interruptor e a lâmpada de 40 watts substituíam o petromax e o candeeiro a botija de gás, declarou-se o burro um quadrúpede em vias de extinção, penalizaram-se os ciganos, que os matavam e os comiam, e as câmaras, solicitadas, abriram burrarias, o povo juntava-se no adro da igreja ou no salão da sociedade recreativa e especulava sobre as injustiças do mundo e passava aos actos, decretando a morte da iniquidade, da arbitrariedade, da prepotência, do despotismo, da opressão, gritavam viva a revolução, viva a revolução, viva a revolução, reivindicando paz, pão, saúde, habitação; os padeiros, evitando a especulação, controlavam as gramas de farinha branca da carcaça bojuda, alimento do povo, os cervejeiros deixaram de mijar na cerveja, e, de consciência pesada, ofereciam pratinhos de tremoços, o marisco do povo, os médicos despiram a bata e atendiam em calças de ganga, os escriturários abandonaram a gravata, colarinhos abertos, os mais recatados de camisola de gola alta, os operários o fato-macaco, ostentando camisas berrantes aos quadrados, os financeiros, apertados, subiam os juros e retinham o dinheiro, transferindo-o para o estrangeiro, exigindo duplas garantias e hipotecas, quatro famílias juntas no salão da casa do povo consideraram que a terra era de todos, e ocuparam-na, oferecendo sociedade aos antigos proprietários, todos iguais, diziam, contentes, antes havia os que tinham e os que não tinham, agora todos têm, os primeiros têm menos do que tinham e os que nada tinham alguma coisa passaram a ter, a população urbana pobre, alugadora de quartos independentes ou meia casa, construíam habitação na orla do bosque ou rente às dunas da praia, por vezes nos dois lugares, levantavam casinhotos de tijolo e cimento num fim-de-semana, um para viver, outro para as férias da pequenada, os vereadores da educação alegavam que as maçãs reinetas e o leite eram das crianças, combatiam o raquitismo e elevavam a inteligência, forçavam as empresas a doá-los de graça, compensando-as com outros contratos, os actores, uma noite, reunidos e embagaçados, exigiram a nacionalização dos teatros, as orquestras demitiam os maestros, os cineastas ambicionavam realizar o cinema do povo, os artistas condenaram o individualismo burguês, estética egotista, glorificando a arte colectiva, pintavam murais entre as 10 da manhã e as 8 da noite, a que juntavam retoques de Miró riscados pelas crianças do ensino primário, os baladeiros garantiam que as estrelas eram do povo, imitados pelos poetas, que acautelavam serem as flores do povo, como os peixes do mar, as estufas foram de imediato nacionalizadas, o Governo foi forçado a abrir centros de saúde populares, de rompante os hospitais tinham sido acossados por dezenas de milhar de mulheres grávidas, a Revolução tinha estimulado os testículos e os ovários do povo, o champanhe francês e o xerez espanhol foram abolidos, bebidas aristocráticas, substituídas pelo espumante, a ginjinha e o abafado, o uísque escocês e o gim irlandês igualmente, bebia-se bagaço e vodka, que enrouquecia as gargantas, os que tinham sido fascistas viravam democratas-cristãos, apressadamente, postiçamente, apelando ao cardeal, ao bispo e ao catedrático que estancassem o delírio revolucionário, os sempre indiferentes, parasitas de todas as revoluções, um olho na sobrevivência outro no interesse, tornavam-se sociais-democratas ou socialistas e os operários comunistas, debatendo porta fora, à vontade, a necessidade da imposição de uma nova ditadura, agora do proletariado, esta a verdadeira, diziam, os homossexuais, livres, abandonaram as matas fronteiras aos quartéis, onde, atrás das moitas, satisfaziam os magalas, e passeavam à noite com ruído alegre no Parque Eduardo VII, acenando as mãozinhas, gritando que o cu também era do povo, uma brigada de biólogos da extrema-esquerda investigou as células da epiderme dos patrões e dos trabalhadores, concluindo da existência de uma pigmentação especial que enegrava as dos primeiros e avermelhava as dos segundos, aquelas foram designadas por células reaccionárias, estas por revolucionárias, os universitários, de testa académica, ensaiavam teses sobre a beleza e a excelência das mulheres camponesas e pescadoras, trigueiras, mamalhudas, fartas de leite, ancas cavalares, reflexo das formas animais da terra, os filhos contestavam os pais, as mulheres os maridos e os netos os avós, um português baixinho e anafadinho enfiou-se dentro da jaula do “Matias”, o gorila do jardim zoológico de Lisboa, expulsou-o e trancou-se lá dentro, reclamando que, sendo o homem um animal, a espécie humana devia constar do acervo do zoo, voluntariava-se para ser o primeiro, exigindo, em troca do serviço público, alimentação gratuita e variada, própria de um omnívoro, e um televisor, os almeidas da câmara recusavam-se a limpar o lixo das ruas, não o dos caixotes, alegando que cada morador devia ser o limpador de um pedaço da rua, como o morador do andar lavava e varria o seu lanço de escadas, os jardineiros e cantoneiros de Monsanto deixavam crescer os arbustos à beira da estrada, a natureza era livre, o alcatrão, o basalto e o granito reprimiam a vida vegetal como os patrões os trabalhadores, um arquitecto paisagista propôs nos jornais, com ampla aceitação, que se devolvessem os jacarandás de Lisboa ao Brasil, a sua importação para a Europa fora um acto neo-colonialista do regime anterior, que os trabalhadores deveriam contestar, terminava o artigo com fervorosos abaixos a Salazar e à puta que o pariu, assim o jornal o publicou…

(Excerto)

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