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Raízes - Mário de Carvalho


Uma bandeira na varanda

2019-04-22 11:06:42

Todos os anos, pelo 5 de Outubro, o meu pai punha uma bandeira portuguesa à varanda. Eu morava numa rua muito inclinada que se chama Rua das Enfermeiras da Grande Guerra e que era então habitada por uma pequena burguesia curvada e timorata. Mais nenhuma bandeira era hasteada na rua, nem noutras em redor, nem no bairro. Por um lado, aquela bandeira ao vento dava-me algum orgulho, porque, mesmo miúdo, sentia na minha varanda a vibração duma causa importante que — vim a sabê-lo depois — não era necessariamente a republicana; por outro lado, sofria o constrangimento de todos os gaiatos que são expostos à exibição de uma diferença. Os amigos manifestavam-me estranheza, eu não sabia que responder, e os conselhos que trazia de casa guardava-os bem guardados, porque só iriam complicar mais a relação com o meu grupo. Era um caso, aquilo da bandeira na varanda…
Passaram-se os tempos, aconteceu muita coisa, como é obra legítima do decurso dos anos, e o meu pai, certa madrugada, foi preso. Eu teria quinze anos, o meu pequeno mundo desabou, a minha vida levou um grande tombo: passou a incluir rotinas de visitas prisionais, inquietações antes insuspeitadas, mensagens a meia-voz, preocupações com o dia de amanhã, tipos estranhos a vigiar sinistramente nas esquinas, desconhecidos que apareciam em casa furtivamente a dar consolo, a prestar solidariedade, tudo muito soturno, tudo muito tristonho, tudo muito ciciado, tudo muito escondido.
Era uma alteridade que me tinha sido imposta e que me amarfanhava por dentro. No liceu, tive de assumir essa realidade perante os colegas, o que não foi fácil. Metade da turma era declaradamente nazi. Eu não exagero. Confesso que também para mim foi uma surpresa: nunca supus que, naquela altura, em Portugal, existissem nazis, com sinais exteriores disso, mas existiam mesmo e cantavam de alto. Notem: eu não digo «fascistas », digo «nazis», amadores da suástica, do Hitler, leitores do Mein Kampf e d’Os Protocolos dos Sábios de Sião, cheios de bazófias, de tiques arianos, de ferocidades racistas e desconfiados do salazarismo por lhes saber a pouco. A alguns, com o tempo, passou-lhes a fúria mentalmente caceteira. A outros, não. Em todo o caso, devo reconhecer que no liceu não me foi movida alguma perseguição especial por causa da situação do meu pai. As discussões travavam-se sobretudo no plano teórico. A segunda metade da turma era convictamente democrática, e o equilíbrio de forças não propiciava as discriminações. Para completar o estranho microcosmos, havia dois judeus praticantes, que atraíam, em primeira linha, os dichotes dos pobres Oberstürmführer de trazer por casa.
Das circunstâncias ligadas à prisão do meu pai ficaram-me mágoas e revoltas que sobrelevam o que a mim próprio veio a acontecer mais tarde. Foram tempos duros, meus caros, e não lhes digo tudo…
O meu pai passou dias e noites a fio impedido de dormir. Não o deixavam sentar-se nem apoiar-se. Os pés incharam-se-lhe, teve alucinações. A ele, creio que não lhe bateram. A outros, sim. Naqueles oito dias em que o não pudemos visitar sabíamos que ele estava a ser torturado, que o estavam a tratar com crueldade, e nada podíamos fazer a não ser esperar, esperar e ouvir as poucas palavras de consolo que nos vinham dos tais amigos aterrorizados, mas ainda assim com a coragem suficiente para baterem furtivamente à nossa porta.
Mais tarde foram as visitas, no Aljube. O Aljube é um casarão feio, lúgubre e gradeado que fica mesmo ao lado da Sé. De cada vez que por lá passo recordo-me de como eu e minha mãe nos escondíamos entre os contrafortes a dizer adeus aos presos, para umas grades do primeiro andar, onde perpassavam sombras e voejavam uns pombos domésticos. Invariavelmente, um guarda republicano que por ali fazia os cem passos ameaçava-nos e tratava-nos com boçalidade por «estarmos a fazer sinais aos presos». Um dia, curiosamente, o guarda de serviço aproximou-se e interpelou a minha mãe, numa voz baixa e embaraçada: «Ó minha senhora, desculpe, eu compreendo perfeitamente, isto tudo parte-me o coração, mas… são ordens… tenha paciência…» Não me recordo da cara e das expressões dos outros, mas a este fixei-lhe textualmente as palavras, os gestos, a maneira como andava, um pouco curvado, com a Mauser em bandoleira. Um bom homem.
A sala de visitas era uma divisão enorme (parecia-me, pelo menos, enorme) com pouca luz, pintada de um ocre já muito encardido. A meio, havia duas redes de aço paralelas, até ao tecto, com um intervalo de cerca de um metro de uma a outra.
Entre as redes, circulava um guarda prisional, um «carcereiro», como preferíamos chamar-lhe. Tiniam chaves, rangiam gradões e, do lado de lá, em cadeiras avulsas, vinham sentar-se os presos. Do lado de cá, circulavam as visitas, cônjuges, parentes, miudagem, numa grande algazarra. As pessoas eram obrigadas a gritar para se fazer entender. Os guardas prisionais ouviam tudo, o que talvez lhes não servisse de muito, por não serem particularmente argutos. Mas era extremamente humilhante para quem tinha de suportar a provação das visitas sentir aquele estranho a passar, a passar…
Quem estava preso com o meu pai? Lembro-me de uns operários da Carris, de uns camponeses de Alpiarça, de um professor de liceu, de um matemático, de alguns empregados de escritório. Enfim, o tipo de pessoas que, no nosso imaginário actual, se casa mal com um ambiente de cadeia.
E porque estava preso o meu pai? Porque fazia parte dum «organismo das cooperativas», perigosíssima ramificação do PCP.
Organismo das cooperativas, imaginem! Pacatíssima gente escriturária e comerciante que conversava, se encontrava, reunia, trocava papéis, tinha livros proibidos, promovia rifas e desempenhava outras «tarefas» que eu calculo deviam ser transcendentíssimas e tão ameaçadoras como estas, no âmbito flamejante do cooperativismo de consumo.
Que estupidez, ser-se preso e brutalizado por isto… No entanto, essa mesma estupidez cruel marcou, ao longo dos anos, muitos lares neste país. Houve pior, não era o fim do mundo, dirão. Foi mais do que suficiente para mim e para os meus. E não apenas para os que foram directamente atingidos. Estas coisas acabam por projectar uma sombra muito maior que elas próprias e que envenena a grande distância. Ou repugna, como àquele pobre guarda republicano que uma tarde nos pediu desculpa.
O meu pai acabou por ser libertado, mais anos dobaram, eu caí na universidade em plena crise académica. Façam agora de conta que há aqui uma elipse cinematográfica, daquelas, por exemplo, em que as folhas de um calendário se vão desprendendo e voando ao vento. Tempo… Tempo… Tempo… Chegou a minha vez de ser preso.
Há muitas maneiras de lhes contar isto, mas importa-me só dizer duas coisas: a primeira é que fui privado de sono por três períodos — um de três dias completos, outro de seis e outro de dois. Durante mais de um dia fui impedido de me sentar. Incharam- me os pés. Desvairei e tive alucinações. Sentia que atrás de mim havia uma escada fundíssima de que eu tinha medo e não sabia a que profundas ia dar. Ouvia toques de clarim e queria ir para a formatura no meu quartel (eu era, então, militar). Vi um bebé envolto numa espécie de rede escura, no meio da sala, e avisei várias vezes o agente que passeava, fazendo ranger as tábuas, para que não pisasse a criança. Caí repetidamente contra uma parede e tiveram de andar comigo suspenso pelas axilas para que me mantivesse em pé. Ainda sinto aquela punhada na mesa a sobressaltar-me quando a cabeça me descaía para o sono. Fui insistentemente ameaçado e insultado. Nunca mais na minha vida dormi bem.
A segunda é que, tanto Salazar, no caso do meu pai, como Marcelo Caetano, no meu, sabiam exactamente o que se estava a passar.
O que é que eu tinha feito? Se me tivessem perguntado na altura, eu dir-lhes-ia, muito à puridade, longe de ouvidos indiscretos, que tinha sido comparte numa luta heróica, como aquele pedreiro da lenda que, sobre alinhar pedras, sabia que estava a construir a Catedral de Chartres. Curiosamente, ao pensar isto, sem querer, estava também a valorizar os outros, os que me maltratavam e a que a História atribuíra o papel antipático de contrariar heroísmos.
Hoje, mais serenamente, abstraindo do lado romântico das situações, poderei anunciar que os meus crimes eram encontrar-me com pessoas, ter reuniões, ler e passar papéis e emitir opiniões que até nem valiam grande coisa. Catorze meses de cadeia cumpridos por isto. Uma filha longe, outra a nascer. E, depois de restituído à liberdade, mais sequelas, que ficarão para outro dia… Tempo, tempo, passou tanto tempo…
Lá muito para trás, aquela bandeira na varanda, rebelde, sozinha, continua a drapejar ao vento…

Março de 1993

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