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Raízes - Lídia Jorge


CASA ABERTA DE PORTAS FECHADAS

2021-07-16 16:39:56



A minha vida é o mar o Abril a rua

O meu interior é uma atenção voltada para fora

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Quem frequenta o campo da Literatura conhece o poder magnético que exerce a figura do tonto no desenrolar da acção. Lembremo-nos do poder avassalador do príncipe Mishkin. A conduta invulgar do protagonista de “O Idiota”, o bom, concebido por Dostoiévski, permitiu que parentes, mulher amada e amigos revelassem carácter e condutas que de outro modo teriam ficado apagados sob o efeito liso da normalidade. De certo modo, o Coronavírus ao longo destes últimos dezoito meses tem funcionado como o idiota universal, o mau, que obrigou cada um de nós, cada nação e cada país, a ir ao espelho e revelar-se como nenhuma das recentes crises o tinham permitido até agora.

E, como se sabe, houve de tudo, a começar pelo embate dos países uns contra os outros, desviando cada um para si o que era possível, num jogo admirável de interesses, fazendo valer como princípio dominante o sagrado egoísmo das nações. Aconteceu um pouco de tudo. Furto de máscaras, desvios de ventiladores, ridículas corridas aos primeiros lugares top de vacinação, dificuldade de partilhar conhecimento, espionagem, fanfarronice sobre os métodos de se atingir imunidade de grupo, negacionismos absurdos de alguns chefes de estado. Enfim, coronavírus, no seu papel de idiota, tornou o planeta num palco escancarado onde cada um veio à boca de cena revelar o seu carácter íntimo através da prestação pública.

Felizmente que a Europa Comunitária, acusada de ingenuidade, inabilidade e lentidão, chega a esta altura com boas contas saldadas. Ainda nos últimos dias de 2019, desconfiados que estávamos de que as vacinas só seriam para alguns, e teriam de ser custeadas por cada cidadão, ficando de lado os mais pobres, muitos de nós assinámos documentos reivindicativos de que teriam de ser gratuitas e universais. Era como se assinássemos um manifesto contra uma desigualdade que nos parecia inevitável. Afinal não foi preciso. A Ciência, a Tecnologia, a Medicina e a consciência de que somos só um povo sobre a Terra, fizeram o que deveria ser feito. Agora, que todas as lesões ainda estão em chaga, não há semântica possível para o elogio, mas por certo, num dia não muito longínquo, a forma como se universalizou o combate, e como os países se encaminham para criar solidariedade com as regiões sem recursos, se assim acontecer, será saudada como uma conquista a reter deste nosso difícil presente. E nesse domínio, o da partilha e do entendimento fronteiriço, Espanha e Portugal, salvo alguns sobressaltos, até agora, entenderam-se bem.

Nós, cá deste lado do Atlântico, forçados pelo idiota universal, também viemos ao palco e aqui estamos a representar o nosso momento de relevação singular. Traços particulares definem estes dias portugueses em que registamos, de novo, o segundo mais alto índice de infecções da Europa. A explicação para esta montanha russa não convence. Fontes oficiais dizem que a presença da variante Delta provém de contágios trazidos por emigrantes do Levante. Dizem ser uma explicação científica, mas soa a diplomática. Como muitos auguraram, os turistas provenientes do Reino Unido, em parte associados a episódios lamentáveis ligados ao futebol, fazem que a população tenha o dedo apontado às Ilhas Britânicas.

Por geografia, Portugal é um país atlântico, aberto aos largos espaços, múltiplas culturas, de forte transacção cultural com os continentes além-mar, e nisso tem encontrado paralelismos com o Reino Unido ao longo da História. Mas neste actual jogo de egoísmos nacionais e complexos de supremacia, Boris Johnson tratou Portugal de forma incompreensível. Por isso, um dos traços do mal-estar português nestes dias, leva a recordar que o mais antigo aliado, sempre que pôde, no decorrer da História, volta e meia trata Portugal como o seu moço de estrebaria. Do lado de cá, não sei se existe ressentimento, eu diria que, pelo menos, existe mágoa. Oficialmente, ela está escondida, mas entre a população, que diariamente convive com britânicos, turistas e residentes, está apenas dissimulada. Mas esta é uma questão menor entre as que os portugueses enfrentam nestes dias Covid. O país que a si mesmo se definiu como The West Side Coast da Europa, está com as portas fechadas.

O principal problema levanta-se no horizonte para o próximo Outono e tem contornos incómodos. É o fantasma do endividamento associado ao fraco desempenho da economia. Portugal não cresce, arrisca-se a ficar para trás entre os seus parceiros europeus. E o idiota em forma de Coronavírus está a provocar um confronto ideológico como há muito não acontecia entre os portugueses. De um lado, interpreta-se o nosso atraso ainda como herança dos tempos do Estado Novo, derrubado há mais de 47 anos, o que é incompreensível. Mas para outros, a dificuldade prende-se com o pendor socialista dos governos de esquerda, e invocam em seu benefício o crescimento pontual que se deu em determinada altura no tempo de Salazar. O confronto tem sido esclarecedor. Mas a discussão não esconde que embora haja verdade em relação a alguns progressos acontecidos em ditadura, essa retórica vem embrulhada num forte desejo de branqueamento da acção do ditador. Mais do que isso, coincide com a necessidade de a nova direita se aproximar da extrema direita, que desde há três anos se revelou de corpo inteiro, surpreendendo muitos.

Mas não tinham que se surpreender. Ela existia escondida no bojo da democracia portuguesa, só ainda não tinha encontrado modo de se revelar. Encontrou e aí está com todos os condimentos próprios dos partidos de extrema-direita europeus. Com pitadas de trumpismo resiliente. E o problema é que o Covid fornece lenha seca para esta fogueira. A linguagem descompôs-se. As palavras vêm carregadas de ódio, como se entre a agressão verbal e a agressão física já só faltasse um fósforo. “Abaixo a direita fofinha” – grita a direita dura. Há pouco, durante uma manifestação extremista, foram penduradas cordas com nó de enforcar no portão do Tribunal Constitucional, em Lisboa, numa réplica à forca levantada em 6 de Janeiro para o pescoço de Mike Pence, diante do Capitólio. São apenas umas centenas de pessoas, os activistas? São. Mas ocupam um esplendoroso espaço mediático. E, mais do que isso, contaminaram o discurso dos partidos conservadores e liberais moderados. Ler o que escrevem os extremistas nas redes sociais é pedir licença para se entrar num açougue.

Mas este é apenas o ruído dos dias.

Porque o grande idiota planetário está a acelerar uma mudança que só pode ter como consequência um mundo mais justo. À margem deste alarido, a Presidência Portuguesa do Conselho da Europa que terminou agora, foi plenamente conseguida. E há espaços serenos para fazer valer junto dos jovens a importância da coesão social e o significado da economia verde. E até mesmo no plano de transição digital, há fóruns e páginas de jornais que chamam a atenção para o valor da cultura, da leitura, da Literatura, da Arte e da Poética para sobrevivermos no futuro como irmãos. Se isto for por diante, nenhumas portas ficarão fechadas.

LJ.
Courelinhas, 6 de Julho, 2021.

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