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Raízes - Fátima Faria Roque


A Ofensa, de Ricardo Menéndez Salmón

2010-04-28 00:00:00

A Ofensa, de Ricardo Menéndez Salmón

A Ofensa, de Ricardo Menéndez Salmón

Mais tarde compreenderia que o homem é o único animal que precisa de se atordoar para manter o juízo e que às próprias portas do Inferno não é incongruente a figura de um jovem dançando um foxtrot, enquanto as gadanhas se agitam e um pelotão de ratazanas famélicas, de longas caudas e olhos amarelos, afia os seus dentes na tíbia de um cavalo morto. Ao fim e ao cabo, até a filosofia mais trivial ensina que a vida se parece mais com um quadro de Bosch do que com um bucólico almoço na relva.

Sinta-se agredido. Com violência. Física e psicologicamente, sem que consiga determinar qual a dor maior. Sinta-se invadido por uma onda de mal-estar, que não mais o vai abandonar. Sinta-se, acima de tudo, impelido a reflectir, a interrogar-se acerca do que estará por detrás de tamanho horror. Sinta que jamais olhará um ser humano da mesma forma. Sinta-se envergonhado pela sua condição de ser humano e recorde as palavras de Primo Levi. Sinta-se ofendido.

“A Ofensa”, de Ricardo Menéndez Salmón, é um verdadeiro murro no âmago da consciência colectiva. É também um grito de alerta, uma súplica pelo que reste ainda de humanitário, de moral e cívico no espírito de cada um de nós, um louvor à dignidade do Homem, uma homenagem aos que, tendo feito parte integrante e crucial dos momentos mais marcantes da História da humanidade, são invariavelmente relegados para segundo plano, ou mesmo para plano algum. Avivar a memória, procurar saber mais sobre os factos do passado para melhor entender o presente, saber escutar quem tem outros lados da História para nos contar, são, por isso, fundamentais. Muitos o têm feito, mas gostaria de aqui deixar nomes como o do escritor José Saramago e o do historiador António Borges Coelho que, com estilos e propósitos diferenciados – o primeiro através do romance e graças à sua marca pessoal de oralização da escrita; o segundo através de uma narrativa histórica, cujo cunho é o de quem procura ver mais fundo a realidade que lhe é apresentada – têm sabido dar voz aos que, sendo personagens anónimos do devir da humanidade, são quase sempre actores principais, ainda que esquecidos, em prol de uma História que privilegia mais a retórica dos heróis do que a sabedoria dos sofredores.

Neste domínio e no ano em que assinalamos em Portugal o Centenário da República, vale a pena ler autores como Ricardo Menéndez Salmón, ou os atrás referidos e outros que se têm dedicado a não nos deixar esquecer que o monstro está dentro de cada um e que, em determinadas circunstâncias, facilmente desperta e nos transforma. Vale a pena também olhar para as imagens-testemunho das atrocidades que alguns cometeram em nome de ideais totalitários e fundamentalistas. Uma dica apenas: a Exposição “Memória do Campo de Concentração do Tarrafal, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. Visite-a, observe o olhar daqueles homens que um dia se viram despidos de vida mas que não perderam a dignidade. Percebe-se então que não podemos esquecer, nem deixar esquecer.

E talvez seja a arte da escrita – quer na sua faceta de narrativa literária quer enquanto forte complemento de imagens –, o poder da palavra, o verdadeiro impulso para um despertar efectivo perante determinadas questões que, ao longo dos séculos, têm manchado o percurso de seres (supostamente) racionais.

O jovem Kurt Crüwell, a quem o destino parecia ter destinado a mestria da arte de alfaiate, numa continuidade natural dos negócios do pai, é intimado a integrar o Exército, na sequência da eclosão da II Guerra Mundial. Meio anestesiado pela onda de fervor e alucinação geral junto dos seus colegas-soldados, relativamente a tudo o que tivesse a ver com o III Reich – Os comandos militares, que desfilavam pelos corredores de madeira norueguesa e pelas ruas enlameadas com idêntico ímpeto, e que em serões de metais wagnerianos e quartetos de Shubert conciliavam a devoção a um Adolf Hitler majestático com a doçura dos nardos no decote das virgens… excitavam a sua tropa com um arsenal de verbos atroadores, mergulhados no brilhantismo da sua palavra como no nimbo de uma aura alucinada, tocados certamente pela mão de um deus vingativo -, os primeiros tempos apresentam-se-lhe como uma novidade na sua pacata vida de jovem de província. A guerra existe, é certo, mas Kurt não sentiu ainda necessidade de evocar os conselhos (sábios) do pai.

O que Kurt não pode saber, porque ninguém o informou, é que tudo faz parte da imensa estética propagandística do “varrasco” nazi que, a 2 de Janeiro de 1941 o devastaria de modo irreversível e fatal. Recrutado para motorista de um oficial alemão, de seu nome Löwitsch, Kurt assiste, nessa data, ao episódio que desfaz todo o seu mundo, todo o seu ser. A sua mente, como que enviando uma mensagem de comando ao corpo – ou seria o contrário? – recusa que os sentidos do jovem sejam submetidos ao espectáculo mais atroz e decadente da condição humana. A partir desse dia, Kurt nada sente. É um monstro para os seus “iguais”, um projecto científico para o médico que o acompanha, um vegetal para o Exército nazi, que o esquece por completo e lhe devota todo o seu supremo desprezo.

A fronteira corpo/mente é aqui objecto de dissecação exaustiva, transformando-se em principal personagem do romance, que nos transporta para a vida de um homem-objecto, que tenta voltar a viver quando o amor de uma mulher o traz de volta à realidade, mas cujo corpo não responde jamais a sensações de qualquer tipo. E a marca, a mancha, a ofensa, está lá, para sempre gravada no seu íntimo, ao ponto de não lhe permitir voltar a ter uma existência comum.

O corpo de Kurt, essa fronteira que nos distancia e aproxima, em simultâneo, do outro, parece agir de moto próprio, reagindo à brutal agressão com que foi confrontado, com a apatia total. Se esse é o mundo, se esses são os seres que o habitam, então não é aí que me quero situar, diz o corpo de Kurt, insensível à dor e a todas as emoções que nos formam e enformam.

Envolto neste casulo protector, reforçado pela manta aconchegante da paixão, Kurt parece ter conseguido alguma paz. A música, a leitura, preenchem os espaços necessários neste recato algo plástico a que o seu corpo o levou: Ao fim e ao cabo, nenhuma revolução é tão profunda como a das coisas quotidianas e nada tão sensato como repetir, todos os dias, alguns pequenos gestos. Até ao momento em que ferida ulcerada se reabre. Estamos agora no campo da vontade humana, esse outro universo insondável, inexplicável que, no caso de Kurt, o leva ao ponto de partida.

Num cenário surreal e dantesco, do qual Kurt não faz intenções de fugir, como se soubesse há muito ser aquele o seu lugar, como que numa tentativa derradeira de entender o seu semelhante e o seu próprio corpo, Kurt é, mais uma vez, transportado e confrontado com os acontecimentos do seu tempo de soldado ao serviço do exército nazi.

Uma lágrima escorre do seu rosto, resquício do seu sentir, sopro último da fronteira que o abrigava e que, não tendo conseguido expiar o passado, oferece ao monstro que o gerou o cadáver do jovem alfaiate. Essa mesma lágrima é sugada por esse mesmo monstro, que dela se alimenta, assim evocando “o mundo perdido da besta loura.”


Fátima Faria Roque

Abril de 2010

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