loading gif
Loading...

Raízes - Miguel Real


NAUFRÁGIO DO NOVA ESPERANÇA NO NATAL DE 1609

2010-05-19 00:00:00

Naufrágio do Nova Esperança no Natal de 1609

Uma mesnada de pó voluteava na estrada de el-rei. Há dois dias que se vislumbrava uma nuvem terrosa de poeira sacolejando lenta pelos caminhos de Joboatão em direcção à portela de Maratucá, onde, alertada, a guarnição de guarda-reais do Governador do Pernambuco demarcara a fronteira. Das alturas de Maratucá, não se percebia se, enquadradas por boieiros eram manadas de vacas que avançavam, se uma chusma de homens maltrapilhos, de cabazada às costas e balaios à cabeça. Pousados nos braços da cruz do campanário da igreja da Madre de Deus, dois gaviões discutiam à compita, o mais velho apostava que eram récuas de vacas, seguem para o trapiche do Recife para, transportadas em barcaças, darem com as ventas no açougue do Varadouro de Olinda, é gado que vem fornir de carniça fresca o Pernambuco, algum partirá para os engenhos dos mazombos, afiançava o gavião mais velho; o outro não, aquele remoinhar de poeira na estrada só pode ser feito por patas humanas cansadas, rastejando, arrastam as palmas das solas dos chapins e bebem pó porque a esperança já se lhes foi, insistia o segundo gavião; vamos lá ver, conclamava o gavião mais novo, intrigado; não, não, ficamos aqui, por Maratucá, aqui há abundância de lagartos por comer e lá, se forem homens, despedaçam-nos com setas, amanhã a chusma de gente ou de animais chegará à portela e logo veremos se são bestas ou homens; olha, olha, comentou o gavião mais novo, parece que a diferença é grande.

Das igrejas de Olinda tangem os sinos as vésperas, convocando os pernambucanos à celebração da festa da Natividade do ano de 1509. Em curtos cortejos, transporta-se o pezinho do Menino, beijado de porta em porta. A cada beijo, o prior, barba raspada, mão festejada, brande a sineta campaneta, sinal de expurgação e purificação, uma alma que esta Natividade se embeleza na pureza da graça de Deus. Pirralhos galhofeiros e festivos, afogueiram o tronco entre a frontaria da igreja de Nossa Senhora do Carmo e o palácio do Governador. Nos altares das igrejas de Olinda, folhas de laranjeira e caneleira atapetam as lajes, inebriando os crentes de um odor doce e pacífico. Murmura-se pela boca das velhas beatas – Deus está connosco!, Deus está connosco! À entrada do altar-mor, uma palhotinha improvisada com uma vaca e um burroque verdadeiros relembra a nascença nascença humilde do Menino na manjedoura de um estábulo, que a todos veio salvar. Em cada igreja, como em cada lar cristão, soltam-se a alegria e o riso mansos da promessa de um novo mundo justo e sereno, feliz para todos.

A mesnada que pela estrada avançava era um magote de 200 judeus sobreviventes do naufrágio do Nova Esperança, resto de 300 judeus que, de avós fugidos de Castela, pais fugidos de Portugal, estanceados em Amesterdão, tinham decidido fugir de vez da Europa, pátria de perseguições e malquerenças. Entres eles, nenhuma família havia que não tivesse sofrido auto-de-fé em Toledo, em Sevilha ou em Lisboa, e que não trouxesse no sangue o espasmo de uma garganta degolada ou a braseira de fogo de um corpo ardido. Queriam esquecer, apagar da memória triste a lembrança das noites acossadas, das fugas alvoroçadas entre chamas de lampiões e sombras escondidas, recomeçar uma nova vida nas terras áridas mas claras da Patagónia, abaixo do La Plata. Nenhum sabia onde era e o que era a Patagónia, era o país dos Patagões, homens de vastos pés, a isto se resumia o seu conhecimento, mas não era a geografia e a história que lhe interessavam, sim o ideal de fraternidade que consigo levavam e com ele banhariam os sertões desérticos e ventosos da Patagónia, criando as premissas do ?into Império do profeta Daniel.

Isaac Moisés, nascido no Recife, filho de judeus toledanos que traficavam açúcar com Veneza durante a ocupação bávata, fiado na retórica de Montesinos, judeu português que atravessara a América, de Sacramento a Lima, conduzira os 300 judeus sefarditas. Fora Isaac que recolhera os florins holandeses, mandara comprar e reparar a nau S. José, velha carcaça da Carreira das Índias, que logo rebaptizara com o nome de Nova Esperança, e que excitara as mais cépticas famílias de Harlem a abandonarem definitivamente a Europa. Até avistarem terra brasílica, tudo correra bem ao longo da travessia do oceano Aqui, aportariam em Espírito Santo, fazendo aguada, trocando prata por víveres e calafetando o Nova Esperança.

Desgraçadamente, na antevéspera da noite de natal dos nazarenos, uma cerração que unia mar e céu aproximara excessivamente o Nova Esperança dos arrecifes infelizes do Pernambuco e quando de novo prestavam a quilha para mar aberto veio o descoroçoamento da “fatalidade”, era assim que se referiam à tempestade, a “fatalidade”. Primeiro, despontara um vento doido, nascido do nada, que dissolvera o nevoeiro, mas encapelara o mar, arribando uma onda colossal e tamanhal, uma vaga espumosa e nublosa, que apanhara a nau de través numa pancada de viés capaz de ensurdecer o mundo; a descomunalidade do jorro de água fez o Nova Esperança girar, dançando entre mar e vento, aos sacões e repelões, quebrando o leme e rebentando o mastro grande pelo tamborete, que o mar fundo parecia sugar, arrastando a nau; jovens judeus acabaram-no à machadada pela enxárcia, desligando-o da sua base no porão; os golpes do mar furibundo, ecoando medonhos estampões, acompanhavam os ribombões dos trovões e os clarões dos relâmpagos; uma chuva direita, continuada, correu dos céus negros, juntando-se ao bramido das águas, que marravam contra o convés, esfacelando velas e expulsando deste os tonéis, as pipas, os fardos, as caixas, as barricas com os víveres e os haveres dos passageiros; estes, uns afincados ao madeirame fixo, às pranchas do chapitéu, outros, amarrados às travessas do convés, ora eram arrastados pelos vagalhões, tentando fixar entre os braços uma grossa tábua que, flutuando, lhes servisse de jangada, ora eram submersos ou alevantados pela fúria inaudita do mar; viroteando liberto, o Nova Esperança, cercado por ondas alterosas, rangia, gemia, resistindo aos embates da torrente; Isaac Moisés urrava que se descesse a chalupa e que mulheres e crianças nela embarcassem, mas nenhum dos homens, bailando entre os sacotões do vento e os balanções do navio, conseguia desprender o escaler, e se o conseguisse de sus o batel se viraria entre mar tão inavegável, tão fundo de abismos profundos quanto de líquidas montanhas tamanhas; o furor das ondas, vomitadas em golfadas, media-se pela força avassaladora com que marravam contra o Nova Esperança, sacudindo-o e arrojando do convés cubos de pedra basáltica da altura de três braças, esmagando homens e mulheres; entre a agitação das águas, soerguia-se triste um braço em riste, prendendo-se ao vazio do ar, atroava-se o derradeiro e morteiro relincho de um cavalo ou o gemido de uma criança clamando pela mãe antes do mar a ambos afogar. Ao urro de um homem que rolava grudado a um sacado, Isaac Moisés recordou a promessa que todos tinham feito a Adonai no cais de Amsterdão - na Nova Terra, fastos ou nefastos, ou nos salvamos todos ou morremos todos -, e entristeceu-se mais, não por a jura não vir a ser cumprida, mas por terem ousado desafiar o Senhor, exigindo para eles total salvação ou total danação -, não o deveríamos ter feito, Deus sabe do princípio e do fim de cada homem, estamos pagando a nossa ousadia. Isaac mal teve tempo de se abrigar sob a arcada da lançada antes do mastro da mezena tombar a seu lado, violentamente quebrado. O Nova Esperança, agitado desordenadamente, baloiçado tumultuariamente, arrombado no costado, esbarrou contra um baixio de penedos, era o fim: por cima e por baixo uma furiosa água invadia-o, penetrando-o do porão ao castelo da proa, rilhando-lhe o carvername; da amurada desfeita, Isaac Moisés vislumbrou a linha de arrecifes de Joboatão que, como cintura sólida, transmitia a única esperança de salvação. Temeroso mas sempre rabi, passou a palavra, a nau vai afundar-se, cada um engula as suas jóias e amarre ao peito o ouro e prata com tiras de couro, finque-se a um estilhaço de madeira como única jangada e prepare-se para o pior. Fora mesmo a tempo, uma nova vaga, vinda do mar alto ou do céu baixo, volumosa como uma montanha, carnuda como uma lagoa, impetuosa com um vento suão, desabou sobre o Nova Esperança, quebrando-o em dois blocos íntegros, os castelos de um lado, o chapitéu do outro, enrolando homens e mulheres, arrastando-os contra os recifes, a uns ferindo-os, a outros esmagando-os mortalmente. O Nova Esperança afundou-se, arrastando cem passageiros para o fundo do mar, deixando duzentos homens, mulheres e crianças, esfarrapados e golpeados, submersos entre os penedos dos rochedos, amarrando-se de unhas de pés e mãos vincadas às saliências pedregosas. Os duzentos sobreviventes, roxos de frio, foram arrancados um dia depois pelos pescadores de Jaboatão, que os trouxeram em batéis para a praia quente, recolhendo do mar os destroços da nau, e, com a madeira inchada de água, ressequida pelo sol de um dia, armaram vastas fogueiras onde assaram bois, ovelhas e cabritos afogados, desconhecendo que os preceitos religiosos proibia os judeus de comer carne afogada, mas estes fizeram de conta que não sabiam de que carne comiam e dela se alimentaram durante uma semana. Satisfeito, o mar ia devolvendo, esventrados, os engradados de roupas e haveres, as alfaias de madeira, os tonéis vazios, os arreios de couro, os fardos de peles endurecidas.

Dois dias depois da noite de natal, receberam o enviado do Governador do Pernambuco, o escrivão do desembargo do paço, Porão Escorço, que os avisou que em breve três urcas partiriam com povoadores açoreanos para S. Luiz, à boca da Grande Amazónia, os duzentos sobreviventes seriam repartidos pelos três barcos e levados para esta cidade, sede da capitania do Maranhão e Grão-Pará. Para custear teres, haveres e comeres, cada judeu pagaria 9 cruzados. Quem não aceitasse ou se revoltasse, viraria escravo de família cristã.

As palavras do enviado da governadoria tinham sido como espalhar azeite a ferver em cima de feridas em sangue, as mulheres, de palmas abertas das mãos, joelhos quebrados no rés da terra, suplicavam por Adonai, interrogando-o do mal que sobre as suas famílias caíra, primeiro o naufrágio, Senhor, agora a extorsão, no fim – quem sabe - a escravização, amaldiçoando o dia em que nasceram, clamando misericórdia d`Aquele Que É, o que no Sinai se revelou, Eu Sou O Que Sou, aquele que o patriarca Moisés apontara dizendo, Ele É O Que É, outro Ser não há, Outro Deus não adorarás, e do seu nome não abusarás; os maridos, homens de barbas brancas entrelaçadas que sobre os ombros esqueléticos pousavam, dançando sobre as opas escuras, simulavam rasgar a túnica e a camiseta branca, apontando violação e sacrilégio sobre a consciência do povo, e imploravam a Yahvé, Velho Deus das Cinco Letras, Pentagrama cabalístico excelso, que ali mesmo fendesse a terra, a esmurrasse e a rachasse e a todos esta engolisse com sua bocarra monstruosa; outros homens, imberbes de cara e glabros de peito, de esperança em riste e fé no olhar, invocavam ancestrais saberes justificativos da ira divina que sobre esta geração do povo eleito se abatera, tal o filho trata o Pai assim o Pai trata filho, murmuravam, e recordavam aos velhos Cohen e Manzanar que a usura e o agiotismo a juros de 20 % teriam desagravado a ira do Senhor, que vira a sua nação trocar a lavoura arcaica pelo aforro do dinheiro, o Pai fora desagravado e agora trata o filho como o filho tratara o Pai; uma Sara já genária, que perdera filhos e netos no naufrágio, orava a voz gritante súplicas de perdão, Senhor, Não me castigues com a tua ira, clamava ela, antes levanta-me com a tua benção, bem sei, Senhor, que por minhas obras mereço ser castigada, mas tu és o Deus da Piedade, descansa Deus na minha alma, não nos castigues, Senhor, Sara e outras mulheres besuntavam as palmas das mãos com terra e cinza, cuspindo nestas uma saliva seca gordurosa, manchando os pómulos das faces, e, de cabeça a dar a dar, berravam lancinantes urros de compaixão; jovens judeus juravam promessas de raiva, escondendo entre as mãos desprendidas as adagas mouriscas com que prometiam cortar orelhas e narizes aos nazarenos se um dia fossem livres, ah, se Adonai, Deus das Milícias, lhes desse liberdade e ocasião ver-se-ia então quem era o ladrão.

Nas igrejas de Olinda, os sinos retumbam as completas. Na praça de Nossa Senhora do Carmo, os mozambos pernambucanos, de barriga a roncar, ossos doridos pela estranha chuva de Natal trazida do mar, a língua salivada pelo resto dos doces da Consoada, recolhem a suas casas de taipa, pedra e telha portuguesa, abençoando a Cruz altaneira da torre da igreja. Sentem-se bem consigo próprios, reconfortados pela dupla safra da cana-de-açúcar, que lhes engrandecerá a “burra” do dinheiro. O Governador desabafa com Porão Escorço: - Era o que faltava, duas centenas de braços brancos a fazerem-nos concorrência no açúcar, despachamo-los para a Amazónia e lá cada um que se safe. Porão Escorço, rafeiro e melífluo, esfrega as mãos: - E ainda embolsámos 9 cruzados por cabeça. Que belíssimo Natal, melhor não podia haver.

Miguel Real,

Azenhas do Mar, Sintra, 4 de Dezembro de 2009.

Comentários


Ainda não existem comentários para este questionário.

Mais raízes

Voltar

Faça o login na sua conta do Portal