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Raízes - Miguel Real


O Imperador do Mundo

2010-12-29 00:00:00

No terreiro, ao corrido do rio Mearim, em São Luiz do Maranhão, norte do Brasil, rabiava-se o bumba-meu-boi, uma armação de ripas presadas por embiras escondendo no seu bojo avantajado um homem curvado compondo um boi de madeira; a armação cobria-se de veludo escuro donde sobressaía, como uma avantesma, a máscara de focinho descomunal de um touro negro, de língua pendida, armada de algodão amassado tingido de vermelho; estrelinhas luzentes de flandres e latão, imitando pedras preciosas, adornavam a coberta de veludo, e franjas de fitas de chita colorida arrastavam-se pelo chão tapando os pés do homem-boi; entre os chavelhos do animal, de pontas douradas, invocando prosperidade, uma estrela prateada reluzia aos clarões da fogueira; na traseira, cabriolando, puxavam às risadas o rabicho de piaçaba do mostrengo um bando de molequinhos pretos-pretos, filhos das irmãs pretas da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, que só pretas-pretas acolhia, pretas casadas com pretos, todos da mais pura raça preta.

Os cavaleiros-vaqueiros, de montadas ajaezadas de faixas de chita franjada, de múltiplas cores, simulavam picar o touro com as varas, dançando este no terreiro, em torno da fogueira, fugindo das investidas dos cavalos. As zabumbas adiantavam o ritmo sob as mãos invisíveis dos escravos e as macarás fremiam pesadas de sementinhas ruidosas, as velhas negras ruflavam pandeirões e os moleques negrinhos silvavam apitos de pau-brasil ensurdecendo o ar. Um menino branco-branquinho, louro, de pele lívida, olhos aguados de azul, descendente da antigos holandeses conquistadores do Maranhão, alojava-se erecto no trono - um cadeiral espaldado, marchetado e pregueado, dosselado com folhas de palmeira bacabeira, de leque único -, ostentando na cabeça a coroa de latão áureo do Divino e na mão direita o ceptro do novo poder, um bastão de pau de ipê com um rubi olho-de-pomba no topo. À cadência galopante dos atabaques, negras, cintas de búzios nos braços e profusos colares de conchinhas do mar tombados do peito em ondas sucessivas, ritmavam uma dança veloz, adiantando-se de pernas e braços abertos, os seios gordos pulando, pés rasos ao chão, como se o calcassem, o umbigo suado respirando, arrastando o cortejo, os cavaleiros-vaqueiros brancos à frente, com o Amo dirigindo, compassando o andar ao som do macará índio, as zabumbas abraçando a dança frenética, furiosa e delirante, o homem-touro, de frangidos alisando o chão, entre os cavalos, baloiçando o corpo másculo e preto para a frente e para trás, escapando das picadas dos varapaus de ponta aguçada, fustigava a garupa das montadas com os chifres fulvos, e à frente de todos a criança loura, o Imperador do Mundo, ornado da coroa de lata dourada do Espírito Santo. Solto, endiabrado, o cazumba, o mascarado demoníaco, de cabeça descomunal, desproporcionada, gigantácea, boca de riso de exu, cornichos de bode do bosque, bunda prodigiosa, o corpo enrolado em panos de múltiplas tiras, cada uma mais colorida do que a outra, restos de restos cerzidos e costurados formando uma feira de cores, que a luz dos lampiões das fachadas do sobrados recortava contra a luz da fogueira, dentes descomunais de ogre, dispostos a trinchar crianças traquinas, e olhos desabalados que tudo sabiam do que se passara em S. Luiz durante o ano transacto, e o cazumba ia clamando pelo terreiro, o coronel Severo Severino Silvino Silva matou o escravo Tobias no relho, furou-lhe o coração com um punhal mourisco, herança do seu pentavô, o alcaide Severo Severão Silvino Silvão, o mata-mouros e fura-louros, da vila de Panela, o paneleiro Severo Severão Silvino Silvão fugiu de Panela para o Maranhão sob acusação de ter matado um cigano no relho, furou-lhe o coração com um punhal visigodo, herança do seu pentavô, Severus Severones Silvinus Silvone. Caboclos juntaram-se ao maralhal, penetrando atrevidamente na procissão, uma dança de pernas e de corpos compôs-se como um bailado celeste, tão velozes os pés que desapareciam figurando no ar o movimento ritmado do conjunto de pernas, ora por ora um dos bailarinos salteia e cambalhoteia, tão leve e ágil como uma gazela e tão exacto como o salto da onça, o bando de caboclos a todos surpreende, corpos etéreos girando uns entorno e por cima de outros à luz esconsa mas precisa da fogueira e das tochões, reflectida no curso do Mearim em laminazinhas de prata. Cazumba não se detinha, vomitando de casa em casa a sua fala viperina, justiceira, cazumba era a justiça dos pobres, essa noite não havia meirinho que o prendesse nem acusado que se rebelasse. Os caboclos trajavam cocares verdes, vermelhos e amarelos, as cores das araras e dos papagaios, os peitorais de missangas e lantejoulas, rebrilhantes às chamas dos archotes, as pernas e os pés dos índios cobriam-se de penas e de enfeites de chocalhos e todos eles, alçando arcos e flechas, igualavam, em sonido, o sibilar da serpente; de repente estancavam, imóveis, perfilados e serenos, apenas o eco da caixaria das zabumbas e das pandeiretas vibrava pela noite de S. Luiz, e logo retornavam à dança, juntando ao som primitivo o chincalho das sementes nas maracás, vibradas pelos seus corpos gingantes, e o repicar dos badalos dos sininhos que adornavam os cavalos e o homem-touro. O menino louro coroado, de ceptro na mão e túnica aveludada tombando-lhe sobre as costas, avançava entre o povo, cercado do Amo, dos vaqueiros-cavaleiros e dos pajens; destacados, um preto, um índio e um branco rodeavam-no como séquito nobre. O auto ia começar e a maralhada estendeu-se pelo chão, as mulheres brancas, de vestido de pano-da-holanda, sentavam-se nos muretes que apartavam o terreiro do leito do Mearim. Um dos vaqueiros-cavaleiros, de cara contrita, encaminhou-se para o Amo, braços amplos, boca pesarosa, o Senhor disse, voz empastada de maioral, Rudolfo Vaqueiro, desembucha, o que tens que a cara se te contrita?, Rudolfo Vaqueiro returque sobre o rufar das zabumbas e o tremido das macarás, Meu Amo, o touro de prear que a maralha ia comer na festa, sumiu-se, deve ter sido furto, o Amo comentou, O que me dizes, quem foi o filho da égua que me levou o boi?, Siô, nun sê, não, respondeu Rudolfo, Quero toda minha gente buscando o boi fujão, e se ele não aparecer haverá um filho da égua que pagará, se calhar tu, Rudolfo Vaqueiro. Do outro lado do terreiro, rente a um corrido de casinhotos de cana de bambu e coberta de sapé, arrastando o boi de ripas por uma corda esgarçada, assoma uma parelha de negros da roça, mal-ajeitados, ela grávida de bastos meses, ele avelhado de trabalho, é Pai Francisco e Mãe Catirina (Catarina), Mãe Catirina vem achacando o estofo da barriga entre a túnica larga de pano-da-costa, consoante avança os panos da barriga tombam-lhe aos pés, a risota é geral, o poviléu ri-se desbragadamente de Mãe Catirina, o nariz desta está empoado de vermelho e o lenço da cabeça deixa ver a carapinha pequena, é um homem travestido; o négô Chico ou Pai Francisco rabuja com Mãe Catirina, ele vem aprumado, descalço mas polido, de gibão verde acetinado sobre o tronco negro nu, de calções rotos de algodão tingido de vermelho, na cabeça o chapéu de palha desfiada, sem acabamento, com fitinhas deslaçadas presas a sininhos de lata que tilintam a cada passo. Mãe Catirina pede a Pai Francisco língua de boi, é um desejo que tem, ah, Chico, se não cumpres meus desejo, sê filhinho vai nascer estropiadinho, e Pai Francisco repete a recusa, mas já sem força, Mãe Catirina busca o facalhão entre os panos da barriga e dá-o a Pai Francisco, sê Chico, corta a língua da besta para mim, e também para sê filho, senão ele amaldiçoa sê. O cornúpeto, pressentindo o corte da língua, foge de pai Francisco e este dança rabiando o homem-touro, sacudindo os badalos do chapéu num chinfrim tresloucado, Pai Francisco rabuja o animal sob os gritinhos de Mãe Catirina, a besta arrasta Pai Francisco, que salta sobre ela, destrempenhando-se, rabujando sob as patas vigorosas do boi-homem, mas logo se levanta, sacudindo o pó do gibão e dos calções, e arremete furioso para a besta, pegando-o de cernelha até o touro se imobilizar; depois, cuidadosamente, tapando os supostos olhos do boi, ajudado por Mãe Catirina, mete-lhe a mão pela boca, agarra-lhe a língua vermelha e saca-a para fora, saem duas braçadas de língua, Mãe Catirina vai enrolando-a do outro lado, Pai Francisco sobe para o dorso do boi-touro e, com o facalhão espetado, pumba, corta-lhe a língua sob os aplausos do povoréu, o homem-boi reclina as patas e tomba para o solo, morto e finado, e Mãe Catirina apanha uns gravetos para acender o lume sobre uma pedra fina. Aqui assa a língua do boi. As zabumbas e os apitos vibram de novo, chamando os pandeiros e as maracás, e o povotéu volta-se para o outro lado do terreiro, os cavalos rechinando, os cavaleiros-vaqueiros fingindo cansaço e suor, Rudolfo Vaqueiro profere, Meu Amo, só tem um final, é chamar os índios, eles conhecem bem o sertão e não se avexam com cobras de duas cabeças, Chamai-os, meu povo, chamai-os, ou o chicote canta para um de vós, podes ser tu, Rudolfo Vaqueiro, tens costas de leite, és descendente de holandeses, os leiteiros da Europa, o vaqueiro Rudolfo Vaqueiro retoma o diálogo, Meu Amo, nem boi nem vaca, foi sumiço de magia, o Amo retorque, Ah, se não se encontrar esse boi preado tem mecatrefe que vai parar ao pau do chiqueiro, ah, tem sim, tem. Uma velha índia vem chegando, de barriga às cascatas e largos braços flácidos, fala com Rudolfo Vaqueiro, este vira-se para o Amo e diz, Meu Amo, conheço um par de negros posseiros que podem responder por este sumiço, é pai Francisco e Mãe Catirina, Vai chamá-los, intonces. Pai Francisco e Mãe Catirina estão regalados no outro lado do terreiro, deitados no chão, de mãos na barriga, repimpados com a manja de feijão com língua de touro, são chamados e vem Pai Francisco de mãos na cabeça aflita, receando ter sido descoberto, Mãe Catirina vem a chorar, plangendo um choradinho miúdo, de flatos falsos, o Amo pergunta a Pai Francisco, O siô vai-me dizer se viu um touro assim que assim, que sumiu do pasto sem deixar rastro de cocó, Non vi, non, mê Amo, juro que non vi, non, mas Rudolfo Vaqueiro interpôs-se, o rufar dos zabumbas pára, a dança lenta dos caboclos cessa, de pernas fixas, o assobio afilado dos moleques detém-se, as pretas bailando imobilizam-se e ouve-se, sob o expectante silêncio geral, a voz bruta do vaqueiro, Oh, num sei, num, só sei que Mãe Catirina ‘tava cum vontade doida de comer língua de boi, desejo de mulher inchada, meu Amo, Mãe Catirina, que não parara de chorar, um choro miudinho e flautinho, desata numa trapeira rouca e anafada, e o Amo conclui, Ah, intonces ‘tá tudo explicado, Mãe Catirina assoa-se agora à mão num ruído ranhento, expelindo uns bufos ocos que não se sabe se vêm de cima se de baixo, Mãe Catirina reza uma ave-maria santíssima no linguajar negro, desajoelha-se, masca fumo ruidosamente, bota um pé na frente e outro atrás, como se ganhasse coragem, e diz, apontando para os panos descoroçoados da barriga, Num é fio, num, meu Amo, é barriga d‘água, óia, óia só como chocalha, é, num é, mê Chico?, e sacoleja a barriga, despregando os panos que caem todos no chão e ela se apressa a repor, e Pai Chico acrescenta, Vedade, vedadinha, meu Amo, e o Amo irado, Pensm que me enganam?, quero o meu boi preado de volta, igualzinho como nasceu, senão cai porrete; Virgé Maria, grita Mãe Catirina. Rudolfo Vaqueiro arrasta Pai Francisco para o tronco, este é amarrado por um bando de vaqueiros, cresce um silêncio unânime, o Amo levanta o açoite, o chicote fino vibra no ar, cinco pontas de bola de chumbo, uma vez, duas vezes, três vezes, ajeitando o golpe, e no justo momento em que vai desabar sobre o dorso de Pai Francisco o gesto imobiliza-se, mão suspensa no ar, vergasta caída, cinco pontas adejando - a toada uníssona dos tambores e das pandeiras ressoa plangente pela praça, os apitos uivam de dor, as maracás de cabaça e as matracas de madeira repercutem aos céus o sofrimento de Pai Francisco e Mãe Catirina, mas a vergasta assassina teima em cair, silvando o ar, as pontas boladas de chumbo sibilam e os caboclos índios, irmãos de condição, pranteiam a dor de carne preta retalhada de Pai Francisco, Mãe Catirina esgota-se de choro carpido, lamuriento, não pode mais, Num posso mais, manda parar a azorraga e confessa tudo, declarando-se culpada, Fui eu, fui eu, véias nêgas lacrimejam, recordando marido e filho algemados no pelourinho, Fui eu, fui eu a culpada, diz Mãe Catirina, acusando-se, fora por amor que Pai Chico matara o boi preado, fora por amor, Pai Francisco é libertado do relho, as véias nêgas rodeiam-no, lavando-lhe o sangue fingido, simulando arear-lhe as feridas com cinza, e o cortejo todo, o Amo na dianteira, inicia nova dança, entoando em coro alegre FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, os negros tocadores de zabumbas e os molequinhos das tochas de gordura de baleia insinuam-se entre o povoxéu, agitando-o, os índios dançam sobre o murete do rio Mearim, neste mergulhando, lavando-se de pecados antigos, uma récua de negras avança pelo terreiro mal iluminado, colares de búzios e caracóizinhos-do-mar suspensos do pescoço, sacolejando ao ritmo do tronco bailarino, as negras arremedeiam na dança a batida do pilão, os negros arremetem os braços para cima e para baixo como se cortassem cana, e todos entoam à uma, em subida voz, cada vez mais alta, FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, pretos velhos de barba branca redonda rodeiam Pai Chico, uma velha negra arcaica faz e desfaz feitiços com as mãos, as mãos trancam-se e as supostas feridas fecham-se, Pai Francisco levanta-se, novo e fino, o tronco reluzente de suor, solta-se-lhe o gibão verde, os músculos retesam-se, parecem elevar-se dos braços como recifes do mar, pai Francisco vai buscar o boi-touro morto, arrastando-o pelo rabicho de piaçaba, os cavaleiros-vaqueiros forçam o relincho dos cavalos e oito, dez, doze cavalos empinam-se e relincham, nitrindo os dentes amarelos, os cavaleiros-vaqueiros gritam, imitando a toada do boi, FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, o Amo desmonta, alça os braços irado, sulca a espora no chão, insiste que quer o boi cumo ile ‘tava à nascença, quer um touro vivo, cum culhões de bibo, senão Pai Francisco e Mãe Catirina vão para a enxovia, cu mêrinho vem já ‘i, os cavaleiros-vaqueiros, montados, rodeiam-no cantando, FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, o povodéu de negros e negras rodeia-o dançando e cantando FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, a cablocada rodeia-o dançando e cantando FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, mas o Amo não desiste, quer o boi vivo e cum culhões de bibo, as zabumbas arfam baixo, baixinho, ruflando, os assobios zungam baixo, baixinho, fungando, as pandeiretas correm em surdina, baixo, baixinho, tangendo, as macarás arquejam baixo, baixinho, agonizando, e o choro afligido de Pai Francisco e Mãe Catirina retorna, moribundo, vaqueiros-cavaleiros desmontam entristecidos e rodeiam o homem-touro morto, os índios aproximam-se suplicantes e as véias nêgas rezam sobre o corpo do boi-homem, todos repetem em surdina FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, compassadamente, sincopadamente, como se soletrassem sílaba a sílaba, FOI POR AMOR, FOI POR AMOR. De sus, de uma piroga do Mearim, feita do tronco único de uma paineira, evola-se o grito sagrado dos potiguares, e do escuro, pintado de preto e vermelho, escoltado por quatro archotões, assome o pajé, de cocar vistoso tombado pelas costas, a pele curtida do jaguar sobre os ombros como uma túnica, o cabação das drogas e das banhas à cintura, preso por um estilete de osso de onça, o canudo do fumo numa mão e na outra a vara do poder, herança de pentavós, os pés ornados de cabecinhas secas e comprimidas de serpente. A piroga acosta na palafita improvisada da margem do rio, os índios dos archotões ameaçam o ar avançando os braços e os dedos esticados como se fossem serpentes, o pajé sacode dos braços e de cabacinhas neles presas o sibilo da cascavel, avança pelo terreiro de fogueira esmaecida, o povovéu entoa baixo, baixinho, FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, os apitos flatulejam baixo, baixinho, as pandeiretas rouquejam baixo, baixinho, as zabumbas matraqueiam baixo, baixinho, as maracás pulsam baixo, baixinho, o coro do povorréu é quase inane, um ôôôôôôr arrastado, lento, brando, o pajé volteia o terreiro, crava o olhar em cada participante, um por um, de olhos imóveis, cristalizados, como se lhes sacasse a alma, dirige-se ao trono do Menino Imperador, ajoelha-se e estende a sua mão, o Menino Divino levanta-se, dá-lhe a mão, prendem a mão uma na outra e avançam para uma das nêgas véias, uma mãe-de-santo, dão-lhe as mãos, ela recebe-as nas suas e levanta-se, atravessam por três vezes a praça em diagonal e cada um dos três, parando no centro, activa o espírito do seu povo, o pajé desenrola uma folha de fumo, lança-a sobre as brasas da fogueira e aspira o fumo com o canudo, invocando Tupã, a mãe-de-santo lança os búzios, sacode o colo chocalhando os colares, dança três passos arrastados e lança esconjuros no ar, recitando secretas fórmulas de que se entendem sílabas que compõem a palavra “vodú”, e outra, “orixá”, o Menino Imperador ajoelha-se, reza uma ave-maria e um pai-nosso, e os três dirigem-se para o homem-touro morto, o povosséu suspende-se, contrito, expectante, repeso, o pajé sopra o fumo para as ventas fingidas da besta, a mãe-de-santo passa-lhe a mão pelo dorso, destrancando-lhe o coração, e o Menino Imperador abençoa-o com o sinal da cruz, tocando-o com o ceptro, o boi-homem ergue a cabeçorra, ressuscitado por amor, e urra, simbolizando que no futuro todo o desejo será realizado sem a violência da morte, urra por três vezes, o turbilhão histriónico de festa e alegria é geral, todos repetem uns aos outros, ELE URROU, ELE URROU, FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, as zabumbas ribombam furando os céus, as maracás e os pandeiros rebentam ensurdecedores, os apitos estalejam por todo o terreiro, interrompidos pelas vibrações fortes das matracas, os molequoques lançam troncos para a fogueira, que ilumina o povotéu bailador, a fogueira aviva-se, a noite parece tornar-se dia e todos cantam, entoam, soletram, gritam, clamam, bradem, FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, a dança retorna, cada povo com o seu dançar, um açoreano do Corvo estreia uma canção nova ajudado por um bandolineiro, Eu fui à terra do preto, ai meu bem, Eu fui à terra do preto, ai meu bem, e o povolhéu responde FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, improvisou-se uma roda, as mãos davam-se e alçavam-se sobre as cabeças, os corpos avançavam e recuavam soletrando por dez vezes FOI POR AMOR, FOI POR AMOR, e o Amo deu a festa do divino bumba-meu-boi por terminada, o povonhéu dispersava-se, uns dançando, outros cantando, outros tragando bolo de tapioca, os mais alegres sorvendo a botelhinha de cachaça, as crianças jorrando água para fogueira, todos tendo comungado da força espiritual invisível que gratificaria o Novo Ano.

Azenhas do Mar, Sintra, 19 de Fevereiro de 2008,

Miguel Real


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