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Raízes - Filomena Marona Beja


ERAM TODOS HOMENS COM JEITO

2011-12-06 00:00:00

ERAM TODOS HOMENS COM JEITO

Estava uma tarde fria. E o cesto da lenha já viera para o pé da salamandra.
“Quem tem jeito para acender isto?!”
Os homens tinham-se juntado na sala de convívio. Chegara-lhes a novidade do Encontro de Teatro Amador, e discutiam se era de participar ou não.
“Claro que sim!”
Consideravam-se todos com jeito para récitas. Para acender o lume, não.


“Portanto, está decidido...” Iam.
E representavam o quê? Que peça? “Bem...”
Avizinhando-se o Natal, a peça teria de condizer. “Mas isso, a gente logo decide.”
Antes de tudo, calma. “...e vamos lá pensar no que realmente nos falta.”
Faltava-lhes o encenador. O tipo que se encarregaria da marcação do texto e dos movimentos dos actores. “Ensaiador!... como se dizia dantes.”
Ninguém se tinha lembrado do encenador.
“E a salamandra?...”
“...não há mesmo quem a consiga acender?!”

 

A dona Lina veio da cozinha, e tratou do assunto.



“Voltando ao ensaiador...”
Quem se sentia com jeito? “Bem...”
O melhor seria ir à Câmara Municipal e pedir ao Banco de Voluntariado que lhes arranjasse um.
E se não os atendessem?
Não atenderiam por quê? Afinal, pertenciam ao Centro de Reformados do Concelho. Tinham direitos. Ou não tinham? E até um vereador!
Poderia o Vereador invocar que o regulamento obrigava os Grupos de Teatro a apresentarem-se completos. Com encenador e tudo.
Mas não! O regulamento estava ali, e não obrigava a nada disso.
Iriam à Câmara.



“Bom dia, caros amigos!... Sou o professor Lua, e venho do Banco de Voluntariado.”
Tinham conseguido!


Lua também já estava reformado. Fora professor na antiga Escola Industrial e Comercial. A que mais tarde passara a Secundária.
Orientara, então, a Trupe Pró Pátio do Recreio. Saíra-se bem. E ficara-lhe a fama: “Tem um jeitão para ensaiador!”
“E agora aqui estou, para vos ajudar! Mas está frio. Não está?...”
A lenha ao lado da salamandra. E não se acendia o lume porquê?

 

Veio a dona Lina, e acendeu.

 

“Já nos sentimos melhor!... Dizia eu que aceitei, com todo o gosto, trabalhar com o vosso grupo que se chama...”
Quem é de Cena.
Palmas para a escolha do nome!
Por acaso, quem escolhera fora a dona Felícia. “...mas agora, ela está lá para dentro.”
Na sala de trabalho, ajudando a rematar quadrados de fazenda com um picô de lã. Final de mais uma manta em patchwork.
Quem é de Cena. Ideia interessante, a da dona Felícia.



“E quanto à peça?...”
Bem... Ainda não se escolhera. “Pensámos numa coisa de Natal...”
“E?...”
“O Fernandes tem jeito para escrever!”
Teria. “Mas...”
O professor Lua sentia-se constrangido, tendo por perto o autor do que encenava. “É uma porra!...”
Por exemplo: vinha-lhe a inspiração, e punha uma miúda a despir-se enquanto dizia um monólogo. “Aparece logo o escriba, e...”
Protesta. Grita que não resulta. “...ah estafermo, que me pervertes a cena!”
E a ele, encenador, não restava mais que dizer à intérprete: “Pronto!... Não continues a esfarrapar-te.”



Entre murmúrios, levantou-se uma onda favorável à liberdade de encenar.



“Na minha opinião, para este Centro fazer boa figura no Encontro...” Não podia apresentar-se com um texto qualquer.
“...escrito em cima do joelho.”
“E o que propõe, professor Lua?”


Gil Vicente!

 

Sim. Mestre Gil.
A Visitação, o Auto Pastoril, os Reis Magos, Sibila Cassandra. “...as primeiras coisas que ele fez e representou, a pedido da Rainha Velha.”
“Rainha Velha?...” Olharam uns para os outros. Havia quem soubesse de quem se tratava. A maioria, não.
“Bem...” O professor Lua ficou de lhes trazer o livro onde vinham os autos daqueles Natais passados.



Peças que nem sequer estavam em português?! “Raios partam isto!...”
“Reparem!...” Alguns dos textos eram mesmo em português. No português daquele tempo. Transcrito tal como se falava, pois Mestre Gil escrevia para Teatro. Para ser ouvido.
“E não lido... “
De princípio, era ouvido na corte. Por rainhas, princesas, damas, cavaleiros e outras gentes sempre a chegar de Castela. “E de Léon!”, garantia o professor Lua.
Assim, diziam-se autos em castelhano. “...outros, em saiaguês.”
Um ah de admiração: “Saiaguês?!...”



Puseram-se a ler.
Leitura desalmada, aportuguesando algumas frases. Folheando o dicionário para palavras que pareciam sem significado.
E assentaram no Auto Pastoril.
“O Fernandes faz de Gil.” O Zé Silvestre, de Silvestre. Os outros seriam Brás, Lucas, Mateus.
Havia papéis para todos.



“Agora, é bater o texto”, mandou o professor Lua. Já não dispunham de muito tempo, até aquilo ir à cena.
Mas havia ainda um alerta: não se podia espalhar qual a peça que tinham escolhido. “...o efeito surpresa conta muto para o êxito final.”
O patrocinador, que era uma empresa distribuidora de bebidas, haveria de querer saber. “Claro... mas a gente diz-lhe outra coisa!”
Podiam mesmo ensaiar umas cenas alternativas. Se aparecesse alguém levava, por exemplo, com os Reis Magos. “Nada de descuidos, meus amigos...”
Não lembraria nem ao Diabo.



Mas nada escapava ao professor Lua.
E assim, recomendava que até das senhoras dali, do Centro de Reformados, teriam de se resguardar. “Não comentem nada, porque mulheres...”
São mulheres.
E provavelmente, ficando de fora do elenco, a dona Felícia e outras estariam despeitadas. “Isso, porém...”
Não havia maneira de se compor. Todas as personagens do Auto Pastoril eram masculinas.
Serem todos homens, contudo, não implicava menos qualidade de encenação. Pelo contrário. “...terei de ser mais exigente quanto à interpretação. O que não me preocupa, tendo em conta que todos vós, meus amigos, desempenham os vossos papéis com muito jeito.”
Quanto às senhoras, o professor tinha uma estratégia: levá-las a acreditar que participavam. “...e de caminho, a gente convence-as a tratarem-nos do guarda-roupa.”



Dona Felícia, com efeito, presumiu-se logo de Cassandra. “...yo te digo / que comigo/ no me hables en casamento.”
E sentava-se à máquina de costura, transformando toalhas, camisas e calças velhas em alforges, coifas ou bragas de pastores.
Zé Fernandes, sempre por perto, dava-lhe as deixas. Não as autênticas. Mas as do Auto da Visitação que não existiam por se tratar de um monólogo. O do Vaqueiro.



Dona Lina vinha acender o lume. E ficava a ouvir.



Ensaiavam.
Traduziam palavras. Repetiam falas. Às vezes cantavam, e com bastante jeito.
“Bem...”
Uma vez, iam a meio de uma cena, sai-se o Zé Silvestre: “Ora terrible placer / teneís vosotros acá”
Acabavam de entrar o Vereador e a Coordenadora do Banco de Voluntariado. Como ia a récita? Podiam assistir ao ensaio?
Era o que lhes faltava!
Ficaram sem saber como dizer “não” a tais intrometidos.



Teriam de lhes revelar o segredo?
Agora? Depois de terem conseguido enganar tanto os participantes no Encontro como o patrocinador? E também a dona Felícia!
Lá se furtaram com umas falas atabalhoadas entre o pastor Gregório e o Ermitão. Auto dos Reis Magos.
“Vão bem!”
“Muito bem!”
A senhora Coordenadora e o senhor Vereador até gostariam de ficar, para ver e ouvir um bocadinho mais.
Acudiu a dona Felícia, oferecendo café. E a dona Lina com uma torta de laranja.
Lembraram-se os figurões que deviam, ainda, visita a outro grupo. “Mas se Quem é de Cena precisar de alguma coisa...”
Não se esquecesse o Vereador do mini-autocarro, na véspera da representação.
Saíram.
E eles continuaram a ensaiar. A ensaiar.



O tempo voava.



Voou, até ao dia do ensaio geral. Uma quinta-feira, sendo o Encontro de sexta a domingo.
Sexta era logo no dia seguinte.
A Câmara não falhou com o mini-autocarro. E num instante mudaram-se, em peso, para o Teatro do Ateneu. Actores e quem se julgava actor. Guarda-roupa e adereços.



Não lhes saiu mal, o ensaio.
Sim, alguns adereços ficaram fora do lugar. Mas eram tão poucos que, se houvesse público a assistir, ninguém teria dado por nada.
Muito pior acontecera, certa ocasião, com a Trupe Pró Pátio do Recreio.
O professor Lua nem se queria lembrar. Um dos miúdos aos vómitos. Outros a trocar as marcações. “...um horror! A contrabalançar, a tarde da estreia foi uma beleza!”
“Ah!... Mas com a gente há-de ser uma merda!” acudiu logo a dona Lina.
“Breack a leg!” reforçou a dona Felícia.



E começaram a dispor as coisas, para o dia seguinte.



Cada um pendurou o seu fato num cabide.
Verificaram as ilhoses e os esticadores das cortinas que iriam fazer de cenário.
Veio para o meio do palco um velho alguidar de zinco. Armaram-no com ramos secos, achas e pinhas. Apenas uma sugestão de fogueira. Sítio de encontro para os pastores.
Ficaria tudo em boa ordem?
“Sim, meus amigos, a máquina está pronta! E agora...”
Fora de cena!



Nisto, o Fernandes viu-se diante de toda aquela gente.
A coifa escorregava-lhe para a nuca, as osas apertavam-lhe os pés. O Júri logo ali, na primeira fila, mais o Presidente da Câmara e os outros presidentes.
E lá para trás? “Senhoras e senhores” dissera o Vereador, “muito vos agradeço estarem TODOS aqui...”
E ele, onde estava?... Quem era?!
Gil, o Zagalo, procurando bom pasto para o seu rebanho. Mas, de repente, encarnou o Vaqueiro, entrando pelo Paço de Enxobregas. Pela câmara da Rainha acabada de parir.


Pardiez siete arrepelones

me pegaron a la entrada...


E já a dona Felícia estava a seu lado:

Sin mentir

Tú estás fuera de ti...


Entrara muito ligeira e bem ataviada: lenço pelos ombros, cabaz enfiado no braço. E dentro do cabaz, molhinhos de salsa, coentros, hortelã.
Chegou à boca de cena e começou a atirá-los para a assistência.
Houve quem batesse palmas. Outros riram. Os jornalistas e os senhores do júri tomavam notas. Uma televisão local captava imagens.
Nos bastidores já havia pânico.


Em palco, dir-se-ia que os minutos rebentavam, uns a seguir aos outros.
Os personagens ora se chamavam Brás, ora Salomão ou Valério. Saltava-se de cena e de peça.
Dona Felícia inventava as suas deixas, declarando quando se sentia embaraçada:

No te entiendo.


“Corram o pano!...”, clamava o professor Lua.
O pano não corria. Cresciam os porras, sacanas, e coisas piores. Mas, já ninguém se ouvia.

O Fernandes perdera a coifa. Não deixou, porém, de levar o seu Gil para o fim do auto, apelando ao Sol que lhe acudisse com os raios de Maio.
Como? Estava-se em Dezembro!

Dios hace esta maravilla

E nos calienta

“Aquece-nos!” traduziu o Zé Silvestre.


Entrou a dona Lina, e acendeu a fogueira armada no meio do palco.


“Cai o pano!.... Cai o pano!”
“Fogo!... Fogo!”
O professor Lua já não era o único a gritar. “Os bombeiros! Os bombeiros!...” E não havia maneira de o pano vir abaixo.


Entretanto, os actores convidavam:

Cantemos com alegria

qu’en eso después se hablará.

Saltaram para o vilancete que remata Os Reis Magos.
E o velho alguidar de zinco a arder.



Veio o carpinteiro do Teatro e fez cair o pano. Apareceram então os extintores. Abafaram-se as labaredas. Os gritos.



Acabara. Laus Deo.
De cabeça perdida, o professor Lua nem reparou se chegara, ou não, a haver vaia.
Uma borrada daquelas, sabia-se, só acontecia uma vez em mil. “E logo me calhou a mim!... nunca mais quero ver estes gajos!”
Abrandou-lhe a decisão a Assistente Social do Centro de Reformados. “Caro professor, estamos em tempo de Natal...”
Tempo de Paz, no Céu e na Terra!
Depois, veio a Directora e disse que um encenador nunca abandona o seu grupo. “Por muito que nos custe, no domingo o senhor, eu, ninguém faltará à sessão de encerramento do Encontro.”



Ninguém faltou.



Logo a abrir garantiu o Presidente da Câmara, e confirmou o Vereador, que o Encontro fora um sucesso.
Os actores tinham dado o seu máximo. Os Grupos tinham sido brilhantes. “E em primeiro lugar...”
Quem?... Quem?!
“Pelo à vontade dos intérpretes, simbolismo e originalidade da encenação, o primeiro lugar vai para... Quem é de Cena, com uma olla podrida de Gil Vicente!”


O Teatro do Ateneu esteve prestes a desabar com aplausos.

 

No fim, o professor Lua abotoando o sobretudo e caminhando para a rua, afirmava aos jornalistas: “ O triunfo deste meu grupo...”
Fora mais que justo. Todos os seus homens tinham mesmo jeito para o Teatro.
Das mulheres não falou.



Filomena Marona Beja
Sintra, Novembro/2010.

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