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Raízes - Patrícia Melo


DEPILAÇÃO HOLANDESA

2011-12-21 00:00:00

DEPILAÇÃO HOLANDESA

A noite, Zeca se sentou na mesa da cozinha e refez as contas. Gás, oitenta e sete e oitenta. Telefone, cinquenta e quatro. Luz, cento e setenta e cinco. Mais isto e mais aquilo. Sempre tinha algo a mais. E se diminuíssemos a carne? Cancelássemos a TV a cabo?
Ver meu marido nesse perrengue da porra, recalculando nossas despesas, cortando centavos, acabava comigo. Fui para cama, peguei o livro do grã caralho que minha cliente me dera. Era só cona e grã cona e cu e foder, tudo em rima, poesia erótica de Aretino, ela explicou. Leia para o Zeca, disse Sílvia, como se Zeca fosse gostar daquelas porcarias. Como se precisássemos daquele lixo. Pode até ser que "uma das mãos põe-me no cu" ou que "fodamos meu amor, fodamos presto" fossem mesmo versos de qualidade. Para mim, no entanto, o importante é que daquele livro, que há dias estava mofando na minha cabeceira, surgiu meu plano infalível.
Todo mundo sabe o que se passa na cabeça de uma mulher quando ela procura uma especialista em depilação corno eu. Não é por uma questão estética, como elas dizem. Muito menos por razões higiênicas Tudo isso é secundário. Depilação tem a ver com sexo. Quando uma mulher conta para o namorado que se depilou, está agindo como os pavões antes do acasalamento, é um ritual, é abertura de plumagem, exibição de cores, é a mensagem "vamos fazer sexo". E quem tem uma vida erótica desse quilate geralmente não tem competência para calar a boca. Minhas clientes chegam aqui explodindo de vontade de contar todos os detalhes de seu novo imbróglio amoroso. Algumas já abrem o bico na primeira sessão. Outras levam mais tempo. Mas todas, todas, sem exceção, acabam despejando sua história de sexo fumegante em cima de mim. O tal poeta da grã boceta ficaria chocado se ouvisse o que essas vadias bem-vestidas, essas moças ricas, bem-educadas, dizem enquanto arranco os pentelhos do cu delas.
No início, quando inventei essa história de técnica holandesa, Zeca não achou muita graça. Você não precisa trabalhar, ele dizia. Isso faz muito tempo. Zeca sempre me tratou como princesa, desde o primeiro dia foi assim. Tínhamos urna vida organizada e confortável, mas Zeca viajava muito, e eu estava cansada de ir à casa da minha mãe, ou de andar pelas gôndolas de supermercado, com todo o tempo do mundo para ler rótulo de produtos. Então peguei uma receita de cera na internet, acrescentei anilina colorida, uns cheirinhos, e pronto. Mulher é um bicho besta. Quando o assunto é cosmético, não exigimos muito, além de promessas. E meu método holandês de depilação ficou logo conhecido no bairro.
À noite, eu contava para o Zeca as intimidades escabrosas que ouvia da miss beiço, que havia colocado um caminhão de porcaria nos lábios para parecer dez anos mais jovem para o professor de ioga com quem andava trepando; e também da mosca-morta, que, aos domingos, largava o marido entupido de lexotan no sofá para se encontrar com o jovem assistente na casa da prima e parceira no crime. Mas a história mais cabeluda nos últimos tempos era mesmo a da Faustina, que nem se chamava Faustina, mas Sílvia, e era amante do sócio do próprio marido.
Zeca se divertia a beça com minhas histórias. Expliquei para ele que Faustina não se contentava em relatar suas aventuras eróticas, ela queria praticamente esfregá-las na minha cara. Por que razão dera para mim, e para tantas outras amigas, as tais poesias eróticas de Aretino? As mesmas que agora eu lia com cuidado, entendendo que, por conta delas, os dois amantes se chamavam carinhosamente de Faustina e Grã caralho. Poderia ser também Cu de leite e Carmim, disse ao Zeca, ou Miss Cona e Zé Fodão, afinal, nada disso é mais feio ou mais bonito que tchutchuquinha e nhenhenhém.
Voltando ao que importa: era Zeca quem viajava, quem conhecia pessoas e lugares diferentes, mas era eu, euzinha, quem tinha histórias interessantes para contar no fim do dia. Na verdade, trabalhar como depiladora fez um bem enorme para minha autoestima, não pelo prazer que o trabalho gerava, menos ainda pelo fato de ganhar algum dinheiro, e sim porque não havia como não me sentir superior a todas aquelas mulheres, Faustinas cheias da grana, que tinham tudo, era isso o que eu dizia para o Zeca, elas têm tudo, Zeca, são mulheres lindas, que correm maratonas, casadas com fazendeiros milionários, chegam aqui em carros importados, com bolsas de grife, passam as tardes gastando dinheiro, e tudo isso para quê? Para chapinhar na lama atrás de um amante merreca? Alguém que faça alguma coisa vibrar na vida tediosa que elas levam? Tenho muita sorte, eu dizia para o Zeca, nenhuma dessas adúlteras psicopatas., essas ninfomaníacas, essas pobres coitadas, nenhuma, eu dizia, tem o meu Zequinha velho de guerra, que me ama e me faz cafuné, como se eu fosse sua gatinha.
Nossa vida de fato era tranquila, eu om minhas clientes adúlteras e o Zeca e suas viagens, nada de emoções muito fortes, mas quem precisa de grandes emoções?
De repente, Zeca foi mandado embora. Eles simplesmente, zapt, jogaram o Zeca na rua. De uma hora para outra. E dessa forma, zapt, ficamos sem dinheiro. Eu já tinha um bom número de clientes, mas não o suficiente para pagar todas as nossas despesas.
Zeca já estava ficando maluco de tanto rezar para o telefone tocar. Preenchera tantas fichas, em tantas empresas, não é possível que ninguém me chame, ele dizia. Você acha, ele perguntava, que, pelo resto dos meus dias, ninguém mais vai precisar de urna porra de um vendedor representante?
É triste você ver o seu marido acordar e não ter o que fazer. Ficar de pijama, zanzando pela casa. Eu sou louca pelo Zeca, não podia tolerar isso. Toda manhã, enquanto preparava minha cera holandesa, meu cérebro fervia tentando encontrar uma saída para nossa situação. Comecei a jogar na loteria esportiva semanalmente. Sei que as chances são de zero-vírgula-zero-zero-um em trilhões de casos, mas e se dou essa sorte?
Na placa defronte a minha casa, acrescentei "depilação intima" embaixo dos dizeres "Soraia depilação" e "Virilha cavada".
O que isso quer dizer? Perguntou Zeca.
O pacote inteiro. Xoxota e ânus.
Zeca considerava isso coisa de masoquista burra e de homem boiola. Para ele, os machos normais gostavam mesmo era de boceta normal, de cu normal, e cu normal tem pelo, ele dizia.
Pode até ser, expliquei, mas o que me importa? Se elas quiserem arrancar a pele, tanto melhor, precisamos de dinheiro, é só nisso que estou pensando.
De fato, o número de clientes aumentou. Mas não o suficiente. Zeca não parava de me perguntar "quanto eu tinha feito no salão". Eu chorava de saudade do tempo em que o Zeca não queria que eu trabalhasse, você é minha princesa, ele dizia, não quero que se preocupe com nada.
Se você não conseguir mais clientes, disse Zeca, entrando no quarto, vamos mesmo ter que sair desta casa. Isso aconteceu naquela noite, em que eu estava na cama lendo o tal poeta Aretino. E foi então, ainda com o livro nas mãos, que uma luzinha se acendeu na minha cabeça de depiladora holandesa.
No dia seguinte, ao acordar, falei para o Zeca sobre um sonho misterioso que tivera, com uma voz angelical soprando números dourados em meus ouvidos.
Dourados? ele perguntou.
Tenho que apostar na loteria, respondi.
Zeca estava tão desanimado, não fez mais perguntas, e eu me mandei para a avenida Paulista.
De um orelhão público, telefonei para a casa da Faustina, digo, da Sílvia, a amante do Grã Caralho.
Eu: (disfarçando a voz): A dona Silvia, por favor?
Voz feminina: Ela está fazendo massagem.
Eu: Vá lá e diga para ela atender o telefone agora mesmo. É caso de vida ou morte.
Depois de um tempo, Faustina veio ao telefone.
Silvia: Alô? Quem está falando? Que história é essa de vida ou morte?
Eu: Eu sei do seu caso com o sócio do seu marido.
E desliguei o telefone.
No dia seguinte, Silvia estava no meu salão, olhos inchados, nervosa, agitada, nada a ver com aquele tsunami sexual que me dera o livro do Aretino. E se colocarem nos jornais? Ela me perguntava. E se o meu marido ficar sabendo? E os meus filhos?
Ela mesma contara seu caso para meio mundo, não havia uma única amiga que não tinha, como eu, recebido de presente o tal livro do Aretino, leia o poema da página oitenta e sete, ela dizia, e o da página sessenta e sete, seu projeto de vida era esse, falar histericamente sobre sua vida erótica com o sócio do marido, e agora vinha me dizer que estava preocupada com os filhos e com a família?
Fiz o papel de amiga. Esse meu jeito mineiro, essa minha voz suave ajudam muito. Ofereci chazinho, disse que certamente o telefonema não era sério, apenas um trote, e ainda massageei seus pés cheios de calos de tanto usar salto alto em festa de vadia.
Faustina foi embora mais calma, e eu segui adiante no meu plano. Telefonei mais cinco vezes para a casa dela. Identifiquei-me como alguém que tinha acesso à empresa do Grã Caralho. Era um prédio inteiro, cheio de secretárias, ajudantes, estagiárias, como ela ia descobrir? Falei que possuía fitas gravadas com conversas dos dois amantes. E. como prova, só precisei dizer duas palavras: Faustina e Grã Caralho.
O resto foi fácil. Estipulei um preço para o meu silêncio. Marquei um local para a entrega do dinheiro. Mandei colocar o envelope com o pagamento dentro da lixeira. do McDonald's que fica ao lado de um hospital público, num bairro insuspeito.
O local é tão cheio, com tantos pobres e fodidos em filas, ninguém deu a mínima quando eu, disfarçada de mendiga, enfiei minha mão dentro da lixeira, como se procurasse restos de comida.
Minha mãe é que não entendeu nada, quando cheguei a casa dela vestida de trapos.
O que é isso? Ela perguntou, enquanto eu trocava de roupa.
É o encontro anual de depiladoras, inventei. Festa à fantasia.
Para o Zeca, falei que ganhamos na loteria.
Nossa vida retomou seu ritmo tranquilo, e agora estou até gostando de ver o meu marido de pijama, arrumando a nossa casa e preparando nosso almoço. À noite, vamos para cama e assistimos a algum filme de mãos dadas. É. muito bom ter um amor de verdade, sempre dizemos isso um para o outro, sentindo orgulho do nosso relacionamento. Sem mentiras, nem traições. O sexo há algum tempo não é mais aquela coisa, mas é honesto, poxa. vida. Afinal, nem ele, nem eu estamos procurando confusão lá fora.
Ontem, pela primeira vez, ele preparou a minha cera holandesa. E não é que ficou melhor que a minha?
Você é o máximo, digo sempre.
Você é a minha luz, ele responde.
Faustina deixou de vir ao meu salão. Mas o número de clientes continua aumentando. Para cada nova freguesa, faço uma ficha com todos os dados que posso precisar no futuro: nome do marido, nome do amante, tempo de adultério, e por ai vai. Nunca sabemos quais provas serão necessárias.
Comprei vários exemplares de poesias do Aretino e dou de presente para as novatas. É um bom começo. Elas lêem e logo começam a falar bobagens.
Aí eu só tenho que ligar meu gravador camuflado, e, antes mesmo de começar o meu trabalho, já consigo ouvir os uivos das cadelas no cio.

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