Raízes - Marta Teixeira Pinto
Véspera de Todos os Santos
2013-04-08 00:00:00É Véspera de Todos os Santos e estou sozinha, sentada à mesa da cozinha da minha pequena e acolhedora casa de campo, bebericando um chá quente e aromático por uma caneca rústica. Lá fora, o vento ruge e a chuva fustiga as janelas envidraçadas. Apesar da proximidade do calor do fogão a lenha, sinto um frio que vem de dentro e que, como um presságio avassalador, me faz estremecer.
Descendente de uma longa linha de curandeiras seguidoras dos antigos costumes, sei que não devo ignorar estes sinais – o vento que ruge, a chuva que fustiga, o frio que vem de dentro e que me faz estremecer. Sei que esta é a noite em que as fronteiras entre os mundos se esbatem e em que segredos há muito guardados se revelam.
De repente, já não estou em casa. Estou no exterior, num bosque indomado e desconhecido, a correr por entre faias e vidoeiros, bétulas e ulmeiros, carvalhos e salgueiros, fetos e espinheiros. Uma Lua distante, velada por tufos de escuras nuvens nómadas e velozes, olha-me por entre as enormes gotas de água que ameaçam submergir a terra fértil. Algures, um lobo uiva repetidamente, um lamento errante e só que me acompanha e me orienta na noite escura. Não sei para onde vou. Sei apenas que tenho de lá chegar e que algo ou alguém me espera.
O negrume é quase total, mas os meus pés não hesitam. A chuva é gélida e cortante, mas não a sinto. Deslizo sobre o solo atapetado com musgo molhado como se tivesse asas em vez de pernas e apercebo-me que estou numa outra era, num outro local, numa outra dimensão. Neste lugar, perdido no espaço e no tempo, sei que não posso ser vista nem ouvida, que o meu corpo nada mais é do que uma ideia, um pensamento tão etéreo como os fiapos de bruma que teimam em demorar-se junto ao solo alagado.
Passados longos momentos de uma corrida desenfreada pelos trilhos esbatidos do bosque intocado, subo a encosta íngreme de um monte irregular e atravesso os portões enferrujados. Estou no interior das muralhas deterioradas e gretadas de uma fortaleza de pedra. As suas torres erguem-se na escuridão quando os relâmpagos rasgam o céu e o ribombar dos trovões ameaça abalar e rachar os seus contornos aziagos. Apresso-me a atravessar o pátio exterior e, com a mera força da minha mente, empurro uma pesada porta de carvalho maciço, um acesso secundário ao interior da lúgubre mansão de enormes dimensões.
Entro numa pequena divisão onde, à esquerda, um fogo arde na lareira e, ao centro, se ergue uma enorme mesa repleta de restos de comida azeda e de manchas de sujidade ressequida. Os odores de um caldo gorduroso e rançoso e de pão recesso e bolorento enchem o ar. Não me demoro.
Deslizo apressadamente pelos corredores e pelos salões abandonados, num lampejo de pavimentos de laje atapetados com juncos murchos e de paredes de pedra adornadas com tapeçarias negligenciadas. Aproximo-me de um velho cortinado de veludo vermelho-desbotado, pendurado entre duas passagens longas, frias e húmidas. Atrás do cortinado há uma escadaria que desce para um piso inferior e, ao fundo das escadas, uma segunda porta pesada.
Pela primeira vez, hesito. Há algo de profundamente ameaçador, malévolo e errado nesta porta escondida. Do outro lado, está o lugar que aguarda a minha chegada, o propósito e a razão das minhas viagem e visita noturnas. Estico uma mão para abri-la e sinto um frio que me invade até aos ossos quando os meus dedos espectrais tocam a sua superfície de madeira gasta. Um guincho aterrador estilhaça o ar à minha volta, apertando-me o coração e fazendo-me um nó na garganta.
Flutuo através da porta fechada e entro sorrateiramente na obscura câmara subterrânea. Não há ninguém na pequena divisão, no entanto estremeço violentamente. Os guinchos ensurdecedores, de algo ou de alguém que se assemelha vagamente a uma mulher, continuam a assombrar aquele piso inferior, oriundos de uma terceira porta, do outro lado da divisão. A câmara subterrânea sufoca-me com as suas paredes de terra forradas com prateleiras repletas de ervas guardadas em frascos de vidro empoeirados – tomilho, cânfora, acónito, sálvia, beladona, artemísia, absinto, entre muitas outras que não reconheço. No centro da minúscula sala de trabalho há uma mesa de trabalho. Em cima da mesa vejo uma pilha de livros antigos da arte negra, uma resma de folhas de pergaminho acastanhado, um boião com tinta negra e uma pena afiada. Em cima dos livros diabólicos, e em lugar de destaque, jaz o infame Malleus Maleficarum, em toda a sua anti glória espectral, um artefacto tão vil e cruel que me traz o sabor amargo da bílis à boca. Cambaleio sob o peso da sua malignidade, tentando desesperadamente controlar o meu corpo etéreo que, de repente, me parece demasiado real e que ameaça trair os meus intentos. Sei que tenho de continuar.
À medida que atravesso a terceira porta, o fedor pútrido do sangue, da carne queimada, da urina e das fezes agride-me as narinas. Do outro lado da porta, iluminada por uma dezena de archotes dispostos na parede circular, existe uma câmara de tortura. Apesar da sensação de profundo desconforto que me acompanha desde que cheguei à porta da câmara subterrânea, nada me preparou para isto. Arquejo e, ofegante, sinto o coração martelar-me os ouvidos. À minha frente encontra-se algo que nunca me atrevi a imaginar, nem sequer nos meus piores pesadelos – uma verdadeira câmara de horrores. À minha esquerda, vejo um poste de esfolador muito usado; à direita, uma mesa de esventramento com todos os apetrechos e implementos do torturador; no centro, o hediondo cavalo; atrás, um esmagador de cabeças muito ferrugento; e, à entrada, o estirador maléfico e a roda atroz.
Os guinchos param e, em vez deles, ouço um suave lamento doloroso, uma súplica tão intensa e sincera que o meu coração se encolhe e os meus olhos se enchem de lágrimas. É a voz de uma mulher muito jovem. Não consigo entender as suas palavras, mas sei que suplica pela própria vida.
Aproximo-me, deslizando acima do imundo chão de terra batida, e vejo um homem alto e macilento, com uma capa preta, cabelo cinzento e uma expressão dura e insensível no rosto severo e cruel. Pendurada ao pescoço, usa uma corrente de ouro com um pendente no qual está gravado o seu brasão de armas. É ele o senhor do castelo.
Ajoelhada no chão, aos pés do seu torturador, está a jovem, sua mulher, apercebo-me pela forma como lhe toca nas vestes pretas enquanto implora. O seu rosto está encoberto por um manto de cabelo negro-azeviche, longo e liso. O outrora encantador vestido branco está esfiapado, expondo os seus braços pálidos cobertos por estrias de sangue e ferimentos infectos. A bainha da sua saia, em tempos imaculada e bordada a fio de ouro, está rasgada e lamacenta. Apesar do seu aspeto sofrido e miserável, há algo de inefavelmente belo na sua figura esbelta, nas suas mãos compridas e esguias, na sua voz doce e timbrada, e na sua atitude que, apesar de suplicante, é de uma dignidade comovente.
Atrás da mulher está um gigante musculado, com um sorriso simplório no rosto largo e feio, uma foice numa das mãos devastadoras e madeixas do seu longo cabelo de obsidiana na outra. A um sinal do seu senhor, o gigante inclina-se e, num gesto brusco e violento, gira a cabeça da jovem para que ela veja o horror que a espera – a Donzela de Ferro de Nuremberga, uma máquina de tortura que eu ainda não vira.
A mulher grita mais uma vez e, cambaleante, ergue-se sobre os pés descalços, imundos e inseguros. Num último gesto de bravura e nobreza, ela ergue a cabeça e eu arquejo – nas suas feições sofridas, vincadas e pálidas reconheço as minhas.
Por instantes, esqueço-me da minha forma espectral nesta visão de pesadelo e tento levá-la comigo, para a segurança do meu mundo e do meu lar – mas não consigo. As minhas mãos não conseguem agarrá-la, os meus braços não conseguem rodeá-la. Contra a minha vontade, e apesar dos meus protestos insistentes, sou puxada para trás pela mesma força sinistra que me trouxe.
Impotente, dirijo um último olhar à jovem mulher cujo rosto espelha o meu. As portas do engenho fatal fecham-se, os espigões perfuram-lhe a pele clara e um rio de sangue ameaça submergir a câmara de horrores. O seu derradeiro grito ecoa na noite sombria e eu sei, com uma certeza absoluta, que irá assombrar os meus sonhos para sempre.
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