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Folheando com... Cristina Silva


É essa a realidade

2007-01-09

Depois de Mariana, Todas as Cartas (em 2002), de A Mulher Transparente (em 2004) e de Bela (em 2005), Cristina Silva lançou recentemente À Meia-Luz. Leia a entrevista pelo Portal da Literatura.

O sol vai alto e o analista sabe que é necessário acordar. Se atravessar a janela, o vidro partir-se-á e haverá uma ferida a deitar sangue. Só na próxima noite o sonho poderá recomeçar, do princípio ao fim. Os seus pacientes esperam-no. Por isso, sem partir nenhum vidro força-se a acordar. É essa a realidade.

Como é que acordou para este romance, Cristina Silva?

Se calhar ainda não acordei, na medida em que escrever é um longo devaneio. Depois de quatro romances acabo por concluir que escrevo essencialmente sobre violência. A ideia base era a guerra, as consequências da guerra na primeira e segunda geração. Ninguém "sai limpo" da guerra, continua em "guerra" muito tempo depois daquela acabar e neste sentido não existem guerras justas ou injustas, existe simplesmente a guerra. Depois foi preciso encontrar um contexto onde duas personagens que não se conheciam (pai e filha) pudessem coexistir. O consultório de um analista, na medida em que eu própria sou psicóloga pareceu-me um espaço perfeito para as coincidências. Para além de me permitir numa linguagem literária explanar sobre os limites de um processo psicanalítico. Para mim a escrita passa sempre pelo desejo de criar um espaço com o leitor onde através da linguagem, e no registo das emoções suscitadas pela linguagem e pela história, se consiga penetrar mais profundamente naquilo que nós os humanos somos.

A guerra colonial, nos seus trajes de violência e de crueldade, acabam por marcar duas vidas: as do velho oficial e a da filha. Mas o stress pós-traumático pode sempre manifestar-se de outras formas.

Pode na medida em que as manifestações são tão variáveis quanto as interpretações que os soldados que passaram pela guerra fazem da sua experiência. Mas as descritas no livro são as mais comuns. Li estudos sobre stress pós-traumático para poder compor a personagem do Oficial. Para além de que este oficial vive uma situação extrema dentro da situação extrema da guerra que foi enterrar as mortes de um massacre, sentindo-se de algum modo cúmplice. O massacre de Wiriyamu é uma daquelas barbaridades perpetradas durante a guerra colonial que ninguém conhece ou muitos poucos de uma determinada geração ouviram falar. Eu própria só fiquei a conhecer ao fazer pesquisa para este livro. Também todas as cenas de guerra foram construídas a partir de relatos documentados de soldados.

Houve algum motivo particular para ter escolhido estas personagens?

O motivo principal decorre do facto de que é preciso ter consciência que as consequências da guerra atravessam gerações e não apenas os sujeitos em particular que a viveram. Por outro lado, subjacente a situações de grandes sofrimentos há a questão da incomunicabilidade humana. No livro as três personagens (incluindo o analista) sofrem e têm motivações secretas mas que raramente são compartilhadas. Aquilo que é mais profundo em cada um de nós também raramente o é.

As dúvidas do desenlace do romance permanecem quase até ao fim. Como é que estrutura os seus romances: cria a história no início e leva-a até ao fim ou deixa-se embalar pela corrente à medida que o vai escrevendo?

Não faço esquemas. Sei sempre o que quero atingir com um livro, não faço a mínima ideia em relação "ao como". Inicialmente tenho uma ideia vaga sobre a estrutura geral e depois deixo-me embalar. Neste caso particular eu vi a cena do desastre de automóvel como o elemento de ligação entre as duas personagens (pai e filha). Vi-o literalmente enquanto tomava uma bica no café. Provavelmente porque coincidiu com o facto de eu própria estar a tirar a carta.


A Cristina Silva escreveu quatro livros. Conte-nos como é que começou a escrever.

Tarde, muito tarde. Eu sempre achei que queria escrever, mas não tinha confiança em mim para o tentar, nem tão pouco tempo. Lá ideias tinha... Depois tive uma bolsa par fazer o doutoramento. Devo ter batido o recorde nacional em doutoramento porque o fiz num ano sempre com o objectivo de ter um espaço de tempo para escrever um romance. E escrevi a Mariana, que era uma história que eu gostaria de reinterpretar. Em quatro meses... Feliz tempo da inconsciência. Depois viciei-me. Agora passo o tempo numa luta constante entre a minha vida académica e a arranjar tempo para o devaneio e para o muito trabalho que implica escrever. Nunca mais escrevi nenhum livro em quatro meses.


Ler muito é quase sempre uma característica de quem escreve. Podemos saber que tipo de livros gosta de ler e de quais mais gostou em 2006?

Bons livros, bem escritos e que vão ao fundo do que somos. Não é por acaso que um dos meus livros favoritos é as Memórias de Adriano. O ano que passou não foi muito fértil em literatura. Gostei bastante de O Mar de Jonh Banville, e de Cotovia publicado pela D. Quixote.

Quem escreveu quatro deve estar a preparar-se para escrever o quinto. Podemos saber o que é que vem a seguir?

Eu disse que escrevo sobre violência, situações limite que alteram a natureza das almas, de uma forma quase irreversível e trágica. Neste momento estou a escrever um romance sobre abuso sexual, mas neste caso o que eu queria ter conseguido (digo ter conseguido porque a história já acabei, estou na fase do trabalho de refazer frase a frase), era descrever com plausibilidade um processo de resiliência e de reconstrução.

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