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Folheando com... Gonçalo M. Tavares


O Bairro

2006-11-10

O recente livro de Gonçalo M. Tavares, “O Senhor Walser”, é o tema para mais esta entrevista no Portal da Literatura.

Quem já comprou o novo livro de Gonçalo M. Tavares, verificará que o bairro tem um novo morador: o Senhor Walser chegou. O sétimo, para sermos mais precisos. Porquê o Senhor Walser já e não o Senhor Pessoa ou o Senhor Kafka, por exemplo?

O aparecimento de cada um dos Senhores no bairro não tem um programa prévio. Embora imaginário, é um bairro, portanto há pessoas que se podem mudar subitamente para lá, e há outras que podem sair. E não há um Senhorio que ditatorialmente comande tudo isto.
De qualquer maneira, na contra-capa de “O Senhor Walser”, aparecem já os possíveis moradores do bairro. São vários Senhores que visualizo enquanto tal: personagens possíveis. E nesses estão o Senhor Kafka e o Senhor Pessoa.

«Quanto à casa, aos poucos começava a ficar irreconhecível pois os problemas pareciam ser maiores do que ao início se suspeitara. Duas janelas estavam já desmontadas e substituídas provisoriamente por cartão, fixo às paredes com fita-cola forte.
– Não é bonito, mas é provisório – alguém disse, tranquilizando Walser.»

Há muitas casas com problemas, Gonçalo Tavares? O que é que há a fazer para que as janelas sejam fortes e robustas?

Bem, não sou um especialista em engenharia. A casa do Senhor Walser, construída com muito empenho, embora como se verá, afastada um pouco do bairro, é uma casa que aparentemente não tem problemas. Mas as coisas vão-se complicando à medida que os toques à campainha da casa do Senhor Walser se sucedem. As visitas por vezes não trazem boas notícias e aqui é o caso. O Senhor Walser se fosse sensato não teria aberto a porta a primeira vez, mas precipitou-se.


Acha que habitantes do bairro tão peculiares, como o Senhor Kraus ou o Senhor Calvino, para não falar noutros, serão bons vizinhos?

O Senhor Walser, consciente ou não, foi cauteloso. Construiu uma casa no meio da floresta, bem afastado do bairro. Preferiu ter por companheiras as árvores. No entanto, O Senhor Valéry, o Senhor Calvino ou o Senhor Kraus julgo que são bons vizinhos, isto é, fazem o fundamental: vivem no seu mundo e não ligam absolutamente nada aos outros.


O Senhor Walser era um solitário. Como será o autor do livro, deve certamente ser uma das perguntas de milhares de leitores. Quer responder? 

Escrever é um acto que exige afastamento. O essencial para um escritor é isolar-se e depois, de vez em quando sair à superfície já que também é indispensável observar o mundo, ver como ele cheira.


Sabemos que algumas das obras que agora lança começaram a ser escritas há muitos anos. É o caso de O Senhor Walser? Pode levantar um pouco o véu?

Muitos dos livros que já saíram, sim, foram escritos no longo período em que estive fechado. O Senhor Walser, no entanto, é um  escrito mais recente. Mas as datas não têm importância.

Que análise faz da actual literatura portuguesa? Há alguma coisa que queira destacar na literatura contemporânea (incluindo a que vem de fora)?

Não devemos ser excessivamente patriotas enquanto leitores. Um leitor é alguém que lê, e tenta ler o melhor possível, o que mais se aproxima de si, sem nenhum outro critério que não o do desejo de ler. Julgo que mais do que uma literatura de um país, se deve falar da literatura numa Língua.
E há, felizmente, uma literatura escrita em português (neste país e lá fora (principalmente no Brasil) – que tem uma tradição forte atravessada por novos escritores. Há muitas tendências, e muitos escritores que fazem o seu percurso, individual.
Lá fora, vejo a literatura em língua espanhola como uma das mais fortes – não apenas em Espanha, também na argentina, no México, no Chile, etc., há muitos escritores originais fortes. Felizmente, alguns deles estão a ser traduzidos – Roberto Bolaño, César Aira, etc.


Já há certamente visto para outra adesão ao bairro. Podemos saber qual ou é surpresa?

Na linha do que respondi na primeira questão, o projecto do bairro tem, agora, a partir do Senhor Walser, um esboço de continuidade - é apresentado um conjunto de personagens que ocupam um apartamento neste bairro. Quase todos estão por escrever, embora os visualize já. É um projecto para muitos anos, para toda a vida. O próximo talvez seja o Senhor Eliot, mas nunca se sabe bem qual o fluxo de trânsito de um bairro real ou imaginário.

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