Sinopse
Tenho notado que por vezes inspiro temor. Mas cada um sente sobretudo medo de si próprio. Os homens supõem sem razão que é por minha causa que andam inquietos. O que na realidade os aterroriza é o anão que se esconde neles, a caricatura humana de rosto simiesco que ergue por vezes a cabeça fora das profundezas do seu ser. Sentem-se tanto mais horrorizados quanto ignoram a sua existência. Espanta-os ver surgir à superfície esse desconhecido que lhes parece nada ter de comum com a sua verdadeira vida. Quando nada aparece acima dos esconsos, sentem a alma em paz.
Diário de um monstro e crónica de intrigas de uma sumptuosa corte italiana na Renascença, O Anão (1944) é um retrato exemplar da perversidade humana e uma exímia dissecação do mal. Piccolino é um anão na corte de um poderoso príncipe, que espia, despreza e tortura os que o cercam. Mas, abandonado pela mãe à nascença e rejeitado pelo mundo devido à sua fealdade assustadora, o seu ódio ao ser humano é o reflexo desesperado da sua solidão. É por este emissário acometido por delírios de grandeza que assistimos a conspirações, a traições, à peste que assola a corte e a assassínios. É por ele, também, que vemos o que o protagonista se recusa a ver: a sua deformidade moral, e não a física, é a origem do mal que o rodeia, e a sua maldade faz dele uma criatura mesquinha e miserável.