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Poema e Poesia de Camilo Pessanha



À flor da vaga, o seu cabelo verde, 
Que o torvelinho enreda e desenreda... 
O cheiro a carne que nos embebeda! 
Em que desvios a razão se perde! 
Pútrido o ventre, azul e aglutinoso, 
Que a onda, crassa, num balanço alaga, 
E reflui (um olfato que se embriaga) 
Como em um sorvo, murmura de gozo. 
O seu esboço, na marinha turva... 
De pé flutua, levemente curva; 
Ficam-lhe os pés atrás, como voando... 
E as ondas lutam, como feras mugem, 
A lia em que a desfazem disputando, 
E arrastando-a na areia, co'a salsugem. 

II 

Singra o navio. Sob a água clara 
Vê-se o fundo do mar, de areia fina... 
_ Impecável figura peregrina, 
A distância sem fim que nos separa! 
Seixinhos da mais alva porcelana, 
Conchinhas tenuemente cor de rosa, 
Na fria transparência luminosa 
Repousam, fundos, sob a água plana. 
E a vista sonda, reconstrui, compara, 
Tantos naufrágios, perdições, destroços! 
_ Ó fúlgida visão, linda mentira! 
Róseas unhinhas que a maré partira... 
Dentinhos que o vaivém desengastara... 
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos... 

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

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