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Poema e Poesia de Antero de Quental

Alma
Antero de Quental

A um Crucifixo

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços 
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente, 
O horizonte futuro e viste, em tua mente, 
Um alvor ideal banhar esses espaços! 

Por que morreu sem eco, o eco de teus passos, 
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente? 
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente 
Arrojaras de novo à campa os membros lassos... 

Agora, como então, na mesma terra erma, 
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma, 
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário... 

E agora, como então, viras o mundo exangue, 
E ouviras perguntar — de que serviu o sangue 
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? — 

Antero de Quental, in "Sonetos"

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