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Poema e Poesia de Guerra Junqueiro

Desde aquela dor tamanha 
Do momento em que parti 
Um só prazer me acompanha, 
Filha, o de pensar em ti: 

Por sobre a negra paisagem 
Do meu ermo coração 
O luar branco da tua imagem 
Veste um benigno clarão. 

A tarde, no azul celeste, 
Há uma estrela esmorecida, 
Que é o beijo que tu me deste 
Na hora da despedida. 

Beijo tão longo e dolente, 
Tão longo e cortado de ais, 
Que o meu coração pressente 
Que não te torno a ver mais. 

Conto no céu estrelado 
Lágrimas de oiro sem fim: 
É o pranto que tens chorado, 
De dia e noite, por mim... 

Quando me deito na cama 
E vou quase adormecido, 
Oiço a tua voz que me chama, 
Num suplicante gemido. 

Num gemido tão suave, 
Tão triste na noite escura, 
Que é como uma queixa d'ave 
Presa numa sepultura!... 

Em sonho, às vezes, meu Deus, 
Cuido que vou expirar, 
Sem levar nos olhos meus 
O teu derradeiro olhar. 

E sem extremo conforto 
Que eu ness'hora quero ter: 
Beijar a fronte do morto 
Aquela que o fez viver. 

E é esta ideia constante, 
É esta ideia sombria 
Que me eclipsa, a todo o instante 
O sol da alma, a alegria. 

Partir!... Partir-se a cadeia 
Da vida, Senhor, senhor! 
Quando o azul doirado arqueia 
Bênçãos ao meu sonho em flor!... 

Morrer amanhã talvez! 
Morrer!... Endoideço, quando 
Me lembra a tua viuvez, 
Entre dois berços chorando!.. 

Morrer, entregar à treva, 
Aos vermes e às podridões 
O meu coração, que leva 
Dentro mais três corações! 

É duro, é cruel... No entanto, 
Antes da hora final, 
Eu quero dizer-te o quanto 
Te amei, lírio virginal! 

Eu vinha de longe, exangue, 
A alma despedaçada, 
deixando um rastro de sangue 
Nas urzes da minha estrada. 

Brancas ilusões mimosas, 
Vastas quimeras febris, 
Abelhas doirando rosas, 
Águias c'roando alcantis. 

Oh, desse mundo risonho 
Havia apenas ficando 
A bruma vaga dum sonho 
Que a gente sonha acordado... 

....................... 
....................... 

Nessa tremenda ansiedade 
É que tu verteste, flor, 
A tua imensa piedade 
Na minha infinita dor!... 

Eu era a sombra funesta 
E tu o clarão doirado; 
Juntámo-nos, que é que resta? 
Um céu de Maio estrelado. 

Quando vais serena e calma, 
Linda, inefável, como és, 
Vou pondo sempre a minha alma 
No sítio onde pões os pés. 

Corre o mundo, (o mundo é estreito) 
Podes mil mundos correr, 
Que hás-de calcar o meu peito 
sempre por ti a bater. 

...................... 
...................... 

Meus sofrimentos partilhas 
E meus regozijos vãos: 
Minhas dores são tuas filhas; 
Meus cuidados teus irmãos. 

Não Há dif'rença nenhuma 
Em nossas almas, eu creio 
Que foram feitas só duma 
Que Deus dividiu ao meio. 

Por isso penso há dois meses, 
Desde a hora em que parti, 
Que morreria cem vezes 
Morrendo longe de ti: 

Mas ai! se assim fosse, quando 
Me sepultassem, então 
Estalariam chorando 
As tábuas do meu caixão. 

E do meu peito gelado, 
Na terra do cemitério, 
Brotaria ensanguentado 
Um lírio roxo, funéreo. 

Um lírio estranho, imprevisto, 
Feito pela minha dor 
Das cinco chagas de Cristo 
Reunidas numa só flor... 

E a estrela, d'alva inocente, 
Cheia de dó tombaria, 
Lagrimosissimamente 
Na urna da Flor sombria!... 

Guerra Junqueiro, in 'Poesias Dispersas'

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