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Poema e Poesia de Fernando Namora

Memória
Fernando Namora

Nome Para Uma Casa

Ossos enxutos de repente as mãos 
sobre o repousado peito entrelaçadas 
como quem adormeceu 
à sombra de uma quieta 
e morosa árvore de copa alargada. 
Dos olhos direi que abertos 
para dentro me parecem 
não os verei mais de agitação ansiosa 
e húmido afago brandos no seu ferver 
de amor avarento agora tão acalmados também 
tão de longe observando incrédulos e astuciosos 
a escura gente de roda com ladainhas de 
abjuradas mágoas. 

Julgo ouvir a chuva no tépido pinhal 
mas pode ser engano 
ainda há pouco o vento limpara o céu anoitecido 
por entre o sussuro do lamuriado tédio 
alguém se aproxima em bicos dos pés 
por entre hortências ou dálias 
                   de ambas minha mãe gostava 

as ratazanas heréticas perseguem-se no sótão 
como no tempo de não sei quando 
os estalidos de madeira seca 
no tecto antigo que os bichos mastigam aplicadamente 
enquanto as velas agónicas se revezam 
uma a uma dançando no sereno rosto que dorme 
sem precisar de dormir tão perto o rosto e tão ausente 
tão da vida agreste aliviado 
as pessoas vão repartindo ais estórias lembranças 
vão repartindo haveres e contos largos 
enquanto no barco do tempo o morto se afasta 
solene e majestático mesmo que o medo 
o persiga até ao limite das águas. 

Mais tarde o rito fecha-se nas velas consumidas 
já o morto irá por terras afastadas 
a sacola de viandante aos ombros 
recomeçando solitário a viagem inacabada. 

À casa que teve darei um nome 
das hortências ou das dálias não sei como chamar-lhe 
                      de ambas minha mãe gostava 

Em 'Nome Para Uma Casa'

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