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Poema e Poesia de António Nobre

Vida
António Nobre

Pobre Tysica!

Quando ella passa á minha porta, 
Magra, livida, quazi morta, 
E vae até á beira-mar, 
Labios brancos, olhos pizados: 
Meu coração dobra a finados, 
Meu coração poe-se a chorar... 

Perpassa leve como a folha, 
E suspirando, ás vezes, olha 
Para as gaivotas, para o Ar: 
E, assim, as suas pupillas negras 
Parecem duas toutinegras, 
Tentando as azas para voar! 

Veste um habito cor de leite, 
Saiinha liza, sem enfeite, 
Boina maruja, toda luar: 
Por isso, mal na praia alveja, 
As mais suspiram com inveja: 
«Noiva feliz, que vaes cazar...» 

Triste, acompanha-a um Terra-Nova 
Que, dentro em pouco, á fria cova 
A irá de vez acompanhar... 
O chão desnuda com cautella, 
Que Boy conhece o estado d'ella: 
Quando ella tosse, poe-se a uivar! 

E, assim, sósinha com a aia, 
Ao sol, se assenta sobre a praia, 
Entre os bébés, que é o seu logar... 
E o Oceano, tremulo avôzinho, 
Cofiando as barbas cor de linho, 
Vem ter com ella a conversar... 

Fallam de sonhos, de anjos, e elle 
Falla d'amor, falla d'aquelle 
Que tanto e tanto a faz penar... 
E o coração parte-se todo, 
Quando a sorrir, com tão bom modo, 
O Mar lhe diz: «Ha-de sarar...» 

Sarar? Mizerrima esperança! 
Padres! ungi essa criança, 
Podeis sua alma encommendar: 
Corpinho d'anjo, casto e inerme, 
Vae ser amada pelo Verme: 
O bichos vão-na desfructar... 

Sarar? Da cor dos alvos linhos, 
Parecem fuzos seus dedinhos, 
Seu corpo é roca de fiar... 
E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina, 
Eu julgo ouvir n'uma officina 
Taboas do seu caixão pregar! 

Sarar? Magrita como o junco, 
O seu nariz (que é grego e adunco) 
Começa aos poucos de afilar, 
Seus olhos lançam igneas chammas... 
Ó pobre mãe, que tanto a amas, 
Cautella! O outomno está a chegar... 

António Nobre, in 'Só'

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