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Poema e Poesia de António Nobre

Alma
António Nobre

Os Sinos



Os sinos tocam a noivado, 
    No Ar lavado! 
Os sinos tocam, no Ar lavado, 
    A noivado! 

Que linda criança que assoma na rua! 
    Que linda, a andar! 
Em extasi, o povo commenta que é a Lua, 
    Que vem a andar... 

Tambem, algum dia, o povo na rua, 
    Quando eu cazar, 
Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua 
    Que vae cazar... 



E o sino toca a baptizado 
    Que lindo fado? 
E o sino toca um lindo fado, 
    A baptizado! 

E banham o anjinho na agoa de neve, 
    Para o lavar, 
E banham o anjinho na agoa de neve, 
    Para o sujar. 

Ó boa madrinha, que o enxugas de leve, 
Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais: 
Antes o enxugue a Velha! antes Deus t'o leve! 
    Não soffre mais... 



Os sinos dobram por anjinho, 
    Coitadinho! 
Os sinos dobram, coitadinho... 
    Pelo anjinho! 

Que aceiada que vae p'ra cova! 
    Olhae! olhae! 
Sapatinhos de sola nova, 
    Olhae! olhae! 

Ó lindos sapatos de solinha nova, 
    Bailae! bailae! 
Nas eiras que rodam debaixo da cova... 
    Bailae! bailae! 



O sino toca p'ra novena, 
    Gratiae plena
E o sino toca, gratiae plena
    P'ra novena. 

Ide, meninas, á ladainha, 
    Ide rezar! 
Pensae nas almas como a minha... 
    Ide rezar! 

Se, um dia, me deres alguma filhinha, 
Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem: 
Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha, 
    Com sua mãe... 



E o sino chama ao Senhor-fóra, 
    A esta hora! 
Os sinos clamam, a esta hora, 
    Ao Senhor-fóra! 

Accendei, vizinhos, as velas, 
    Allumiae! 
Velas de cera nas janellas! 
    Allumiae! 

E luas e estrellas tambem poem velas, 
    A allumiar! 
E a alminha, a esta hora, já está entre ellas, 
    A allumiar... 



E os sinos dobram a defuntos, 
    Todos juntos! 
E os sinos dobram, todos juntos, 
    A defuntos! 

Que triste ver amortalhados! 
    Senhor! Senhor! 
Que triste ver olhos fechados! 
    Senhor! Senhor! 

Que pena me fazem os amortalhados, 
Vestidos de preto, deitados de costas... 
E de olhos fechados! e de olhos fechados! 
    E de mãos postas! 

E os sinos dobram a defuntos, 
    Dlin! dlang! dling! dlong! 
E os sinos dobram, todos juntos, 
    Dlong! dlin! dling! dlong 

António Nobre, in 'Só'

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