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José Gomes Ferreira


1900 - 1985

Biografia

Nascido no Porto, José Gomes Ferreira muda-se com quatro anos para Lisboa onde, criado "longe das árvores, no roldão poeirento das cidades"(palavras do autor), se inicia nos poetas saudosistas- e especialmente Raul Brandão- nos liceus de Camões e de Gil Vicente, com o Prof.Leonardo Coimbra. Dirige, muito novo, a revista "Ressurreição", onde chega a colaborar com Fernando Pessoa num soneto. Dedica-se também à música, com composições musicais como o poema sinfónico "Idílio Rústico", que foi executado pela primeira vez pela orquestra de David de Sousa, no Teatro Politeama, o que provocou em Leonardo Coimbra "um largo sorriso incitador".

Por influência do pai (democrata republicano), cedo ganhou consciência política (em desafio polémico, por exemplo, queima no café Gelo um retrato de Sidónio Pais, que não muito tempo depois será vítima de um atentado que lhe é fatal), e alista-se em 1919, acabado o treino militar em Tancos, no Batalhão Académico Republicano (já era também sócio da Liga da Mocidade Republicana).

Licencia-se em Direito em 1924, trabalhando depois como Cônsul na Noruega (Kristiansund). Regressando em 1930, dedica-se ao jornalismo (colaboração na "Presença", "Seara Nova", "Descobrimento", "Imagem" - revista de cinema - "Kino", "Sr.Doutor" - revista infantil, onde começa a publicar periodicamente as "Aventuras de João Sem Medo" -, e "Gazeta Musical e de Todas as Artes") e à tradução de filmes (sob o pseudónimo de Álvaro Gomes).

Inicia-se na poesia com o poema "Viver sempre também cansa", escrito a 8/5/1931, e publicado na "Presença" nº 33 (Julho-Outubro), e apesar de já ter publicado anteriormente os livros "Lírios do Monte" (obra que depois renegou) e "Longe" (1ª e 2ª edições em 1918 e 1921, respectivamente), só em 1948 começa a publicação séria do seu trabalho, nomeadamente com "Poesia I" e com a colaboração na "Homenagem Poética a Gomes Leal".

Contando já com vasta obra publicada, em prosa e em verso, ganha em 1961 o "Grande Prémio da Poesia" da Sociedade Portuguesa de Escritores, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian, com a sua obra "Poesia III".

Comparece a todos os grandes momentos "democráticos e antifascistas" e, pouco antes do MUD (Movimento Unitário Democrático), colabora com outros poetas neo-realistas num álbum de canções revolucionárias compostas por Fernando Lopes Graça, com a sua canção "Não fiques para trás, ó companheiro".

Presidente da Associação Portuguesa de Escritores em 25/4/78, foi candidato no ano seguinte da APU (Aliança Povo Unido) por Lisboa, nas intercalares desse ano. Em Fevereiro do ano seguinte filia-se no PCP (Partido Comunista Português) e recebe em Junho de 1981 a distinção de cidadão honorário de Odemira. É ainda condecorado pelo Presidente Ramalho Eanes como grande oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada, recebendo mais tarde o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

Submetido a uma delicada intervenção cirúrgica em 1983 (ano em que é homenageado pela Sociedade Portuguesa de Autores), José Gomes Ferreira, casado e pai de dois filhos (o arquitecto Raúl Ferreira e o poeta Alexandre Vargas), viria a falecer dois anos depois, vítima de uma prolongada doença que o impossibilitava de se levantar da cama. O actual presidente da República, Jorge Sampaio, descerra em 1990, na qualidade de Presidente da Câmara de Lisboa, uma lápide de homenagem ao escritor, no prédio da Avenida Rio de Janeiro, sua última morada.

Na memória e no papel fica a sua vasta obra, que marcou todo esse vasto período de quase um século.



Livros escritos por José Gomes Ferreira




Poemas escritos por José Gomes Ferreira

Cala-te

Dá-me a tua mão

Extrai do Todos os Dias

Poesia III



Informações adicionais

Excerto, Aventuras de João Sem Medo:

E preparou-se para visitar aquele estranho povo em que, a julgar pela amostra, a vida devia ser um louquejar constante de imprevistos
e destrambelhes. Entretanto o homem derretia-se em elogios à sua pátria:
- Não imagina! Andamos sempre carrancudos, graves, pesarosos, vestidos de preto como gatos-pingados. Isto é: somos o povo mais alegre do mundo.
Mas João Sem Medo obstinava-se em obter explicações de certos pormenores que o intrigavam:
- Lá as lágrimas de contentamento... em suma... ainda posso compreender com algum esforço... mas as «boas-noites» de dia...
- A que outra coisa poderemos aspirar de dia senão a uma boa noite? E de noite senão a um bom dia?

João Sem Medo, com a cabeça chocalhante de onfusão, não contestou, a examinar com minúcia o seu interlocutor, jovem, baixo, atarracado,
de fato de banho.
- Vai à praia, não? - articulou quase maquinalmente.
- Qual! Nunca vi o mar na minha vida! Porque pergunta isso?

 

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